Como o Pink Floyd chegou ao nº 1 com uma capa de álbum que até hoje não faz sentido
Por Bruce William
Postado em 05 de junho de 2025
Todos eram jovens, muito jovens, fase da vida em que temos menos receio de experimentar. E foi o que aconteceu: em vez de seguir o caminho seguro, a banda resolveu romper com tudo: estética, título, lógica. O resultado foi um álbum que parecia não fazer o menor sentido, e que mesmo assim conquistou o primeiro lugar nas paradas britânicas.
O ano era 1970, e o grupo ainda lidava com o vácuo criativo deixado por Syd Barrett. Embora já estivesse em plena transição para uma fase mais experimental, a identidade musical do Pink Floyd ainda não estava plenamente definida. "Atom Heart Mother" surgiu nesse contexto: um disco que soa como uma colagem de ideias, com suítes orquestrais grandiosas, baladas acústicas e até efeitos de fritura de bacon.

A própria escolha do título foi um acaso. Durante uma gravação para o programa de John Peel, Roger Waters folheava o jornal Evening Standard quando se deparou com uma matéria intitulada "Atom Heart Mother Named", que em português fica algo do tipo "Mãe com coração atômico". A reportagem falava sobre uma mulher de 56 anos que havia recebido um marca-passo radioativo de plutônio. Waters não pensou duas vezes: "É isso!"
Se o nome já era estranho, a capa foi além. Criada pela dupla Storm Thorgerson e Aubrey Powell, do coletivo Hipgnosis, a arte mostrava apenas uma vaca em um campo — sem nome da banda, sem título do álbum. A provocação era deliberada: o Pink Floyd queria romper com os clichês do rock psicodélico que ainda rondavam sua imagem. "Algo simples", pediram. Thorgerson, inspirado pelo papel de parede com vacas criado por Andy Warhol, saiu dirigindo pelos arredores de Potters Bar, fotografou a primeira vaca que viu e pronto. O animal se chamava Lulubelle III, conforme a wikipedia. Mais vacas preenchiam o verso e o encarte. Nenhuma explicação adicional.
O diretor da EMI teria ficado visivelmente confuso ao ver a arte, relata a Prog. Achou que havia alguma informação na contracapa, virou o disco e... só mais vacas. Tudo o que conseguiu dizer foi: "Ah, Friesians", referindo-se à raça do animal. Mesmo assim, o disco foi aprovado e lançado como estava.

A ironia é que "Atom Heart Mother", com sua suíte épica de 23 minutos, suas esquisitices sonoras e ausência total de marketing tradicional, alcançou o topo da parada britânica. Foi o primeiro álbum do Pink Floyd a atingir o nº 1 no Reino Unido, e trazendo apenas uma vaca na capa.
Anos depois, David Gilmour resumiria aquele momento como a culminação de sua fase mais caótica: "Nosso material mais esquisito". Já o designer Storm Thorgerson enxergava outra coisa naquela imagem inusitada: "Acho que a vaca representa o senso de humor do Pink Floyd, que é frequentemente subestimado".
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