"Misoginia e masculinidade tóxica": membro do Faith No More lembra tour com Metallica e Guns
Por João Renato Alves
Postado em 02 de janeiro de 2026
Durante participação no podcast 60 Minutes Or Less, o tecladista Roddy Bottum foi convidado a lembrar a turnê em que o Faith No More abriu para Guns N' Roses e Metallica. Ocorrido em 1992, o giro foi um sucesso de público, mas também ficou marcado por polêmicas, acidentes, estrelismos e a total incompatibilidade das duas atrações principais.
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"Acho que foi um desafio, mas, honestamente, só para mim. Eles repsentavam a norma do rock and roll naquela época. Misoginia, agressão masculina, masculinidade tóxica, tudo isso fazia parte da equação naquele tempo e todo mundo estava dentro. Honestamente, não conheço ninguém que não estivesse. Quer dizer, nosso guitarrista na época - tínhamos um guitarrista bem hard rock (Jim Martin). Ele tocava uma guitarra Flying V, tinha cabelo comprido, preto e cacheado, uma vibe bem rocker, que era o que a gente adorava nele. Tocava guitarra meio como o Metallica e era muito amigo deles. Era muito aquele tipo de pessoa. Mas o resto de nós era meio que de esquerda, progressista, artistas alternativos, de mente liberal."
O instrumentista deixou claro que não era o único a pensar daquela forma, embora reconheça ter se sentido o mais atingido pelo cenário. "Billy (Gould, baixista), com quem eu cresci, Mike (Bordin, baterista) Mike Patton (vocalista) a gente ficava impressionado com a audácia daquele ambiente. Não conseguíamos acreditar no que estávamos vendo, mas éramos os únicos com essa mentalidade. Todos naquela turnê estavam curtindo o hedonismo. Eu, sendo o cara gay que se criou com três irmãs, achava ofensivo, selvagem e me fazia pensar 'que p*rra é essa?', mais do que para qualquer outra pessoa, com certeza."
Apesar das discordâncias, Roddy reconhece a qualidade do Guns N' Roses e também admite que a banda foi abraçada por toda a comunidade roqueira logo que surgiu – incluindo aqueles que discordavam do sexismo da imagem do grupo. "Comprei 'Appetite for Destruction' logo que saiu. As músicas eram muito boas, dinâmicas e funcionavam bem. Mesmo com toda a vibe da capa original do disco, com a garota parecendo ter sido violentada. E me desculpem se isso incomoda e pode afetar alguém. Mas mesmo olhando para aquilo, quando comprei o disco, fui fisgado. É difícil pensar em nós mesmos nesses termos naquela época e o quanto eu era mais tolerante e achava tudo bem. Isso não é legal. Especialmente hoje. Mas, por algum motivo nós, como público, abraçamos o Guns N' Roses. Até mesmo pessoas progressistas e liberais os apoiaram. Era algo viável, eram empolgantes, uma banda de rock barulhenta e desrespeitosa, e isso era legal... Então, levou um bom tempo para que a ficha caísse. Demorou muito para eu pensar: 'Ah, espera aí.'"
Vale citar que, inicialmente, a ideia era que o Nirvana ocupasse o lugar na turnê que pertenceu ao Faith No More. No entanto, mesmo após uma série de contatos e tentativas de convencimento, Kurt Cobain não aceitou o convite – pelos mesmo motivos que Bottum destacou nesta entrevista.
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