Por que o Secos & Molhados acabou de maneira tão abrupta, segundo biógrafo
Por Gustavo Maiato
Postado em 25 de novembro de 2025
Os anos 1970 formaram um dos períodos mais efervescentes da música brasileira, marcados por revoluções estéticas, disputas criativas e ascensão meteórica de artistas. Entre eles, poucos grupos viveram um fenômeno tão curto e intenso quanto o Secos & Molhados, que virou o país de ponta-cabeça com apenas dois discos e pouco mais de vinte meses de existência. O fim abrupto sempre gerou especulações, e justamente por isso a visão de quem estudou a fundo a banda se torna essencial.
Secos e Molhados - Mais Novidades

Durante conversa recente no canal do André Barcinski, o jornalista e biógrafo Miguel de Almeida, autor de "Primavera nos Dentes", voltou ao tema e explicou, com franqueza, como enxerga o desmonte repentino do trio. Segundo ele, o grupo viveu uma combinação explosiva de juventude, fama instantânea e uma rotina que nenhum artista brasileiro havia experimentado naquele momento. "Imagina que eles fizeram duzentos e poucos shows em 1973, coisa que ninguém fazia", comentou Miguel.
O fim dos Secos & Molhados
O biógrafo descreve que a fama avassaladora - presenças constantes na TV, capas de revista semanais, discos de ouro recebidos quase em série - criou uma atmosfera difícil de assimilar para artistas tão jovens. Ele afirma que o trio passou a experimentar, de repente, um estilo de vida de rockstars em um Brasil que sequer tinha estrutura para lidar com esse nível de celebridade. "Muito assédio, muito dinheiro, muita celebridade. Acho que isso tudo mexeu com a cabeça deles", explicou.
Miguel destaca que, apesar do imaginário posterior colocar Ney Matogrosso como figura mais livre e desregrada, foi justamente ele quem manteve maior equilíbrio. "O mais de pé no chão ali era o Ney; depois, o Gerson, que sempre foi muito centrado", diz. O problema central estaria em João Ricardo, que, segundo o biógrafo, perdeu o eixo diante da pressão e das demandas de estrelato. "Ele era muito novo… entrou em parafuso com aquela história, tanto que todos reclamam dele até hoje."
Para ilustrar sua visão, Miguel recorre a uma comparação curiosa, citando o documentário de Jakob Dylan sobre o folk californiano. Em entrevista usada no filme, David Crosby admite que seus conflitos históricos com companheiros de banda se resumiam à própria imaturidade. "Com 20 e poucos anos, naturalmente você é um idiota", lembra Miguel, usando a fala de Crosby para argumentar que João simplesmente não estava preparado para aquilo. "Ele era uma besta. Não entendeu o que era aquele negócio. Mas não dá para culpar - faz parte da vida."
O jornalista também aponta que, apesar do mito criado em torno do grupo que explodiu e desapareceu, havia um limite artístico tangível. Segundo ele, o conceito do Secos & Molhados tinha "fôlego para dois discos", algo perceptível na diferença entre o primeiro álbum - festivo e luminoso - e o segundo, mais denso e sofisticado. "Poderiam fazer outras coisas importantes, porque são talentosos, mas aquele tipo de modelo… já caminhava para outro lugar", observa Miguel. E completa com elogios a faixas como "Flores Astrais" e "Delírio", que considera algumas das mais belas e elaboradas composições do repertório.
O fim repentino, portanto, não é explicado por um único episódio, mas por um conjunto: imaturidade, choque de proporções, desgaste emocional e um conceito que talvez tivesse mesmo prazo de validade. "Ficou aquela coisa mítica: a banda que terminou em dois anos, fez o maior sucesso dos anos 70, é falada até hoje e durou 20 e poucos meses", resume Miguel, deixando no ar a mesma pergunta que atravessa toda carreira interrompida cedo demais: o que mais poderiam ter feito?
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A banda que é boa para ouvir num churrasco discutindo sobre carros, segundo Regis Tadeu
Mustaine aponta as diferenças entre sua releitura de "Ride the Lightning" e a versão original
A voz que Freddie Mercury idolatrava; "Eu queria cantar metade daquilo", admitiu o cantor
A voz mais pura do rock de todos os tempos, segundo Bruce Springsteen
A banda que dá "aula magna" de como se envelhece bem, segundo Regis Tadeu
A sincera opinião de Jéssica Falchi sobre o Iron Maiden sem Nicko McBrain
Como EP de apenas três músicas mudou o rumo do rock dos anos 2000, segundo a Louder
Fabio Laguna quebra silêncio e fala sobre não ter sido convidado pelo Angra para reunião
Os títulos de músicas do Metallica que aparecem em "The Last Note", do Megadeth
Gary Holt compara James Hetfield e Dave Mustaine e diz que toque de Dave é "diferente"
Dave Mustaine aponta o que poderia resolver sua relação com o Metallica
Geddy Lee não é fã de metal, mas adora uma banda do gênero; "me lembram o Rush"
Por que o Lynyrd Skynyrd gravou um solo de guitarra fora do tom em uma canção clássica?
A mensagem profunda que Dave Mustaine deixou na última música da carreira do Megadeth
A faixa instrumental do Soulfly que traz influências de Massive Attack e ecos do King Crimson

Como o sucesso do Secos e Molhados deu origem ao álbum mais raro e caro do Brasil
Porque Secos & Molhados e Raul Seixas "viraram a chave" do rock brasileiro em 1973
O baixista argentino dos anos 1960 que tinha preconceito com o rock brasileiro anos 1980
A partida de pingue-pongue que definiu os rumos do rock nacional nos anos 1970
A sumidade do rock nacional que expulsou Lobão de seu álbum solo
A curiosa semelhança entre dois membros do Metallica e Secos & Molhados


