O clássico do proto-metal que Neil Peart detestava; "Era arrastada e monótona"
Por Bruce William
Postado em 15 de maio de 2026
Neil Peart passou boa parte da carreira sendo visto como o baterista que transformava complicação em arquitetura. No Rush, uma música podia passar de dez minutos, mudar de clima, atravessar partes instrumentais enormes e ainda assim parecer construída com começo, meio e destino. Para muita gente, isso fazia dele o tipo de músico que provavelmente teria simpatia por qualquer clássico longo, cheio de solo e com cara de "viagem" dos anos 60. Mas não era bem assim.
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A música em questão era 'In-A-Gadda-Da-Vida', do Iron Butterfly, lançada em 1968. Com mais de 17 minutos na versão do álbum, riff hipnótico, órgão sombrio, clima psicodélico e um longo solo de bateria no meio, a faixa virou um dos símbolos daquele momento em que o rock psicodélico começava a ficar mais pesado - um terreno que depois seria visto como parte da pré-história do hard rock e do heavy metal.
Só que, para Peart, duração não bastava. Ele não rejeitava ambição, experimentação ou músicas longas - seria até estranho dizer isso do baterista de uma banda que gravou "2112", "Xanadu", "Cygnus X-1" e "Hemispheres". O incômodo dele, relata a Far Out, estava em outro ponto: a diferença entre uma composição longa, estruturada, e uma jam que parecia se arrastar sem direção clara. Peart gostava de mapas. "In-A-Gadda-Da-Vida", para ele, soava mais como alguém andando em círculos dentro do mesmo quarto.
Em entrevista à MusicRadar (via 2112.net), ele foi bem claro ao separar uma coisa da outra: "'In-A-Gadda-Da-Vida' não foi uma inspiração. Veja, essas são as divisões. 'In-A-Gadda-Da-Vida' era a antítese do que eu queria fazer. Era arrastada e monótona. As pessoas vinham até mim e diziam [imitando voz de chapado]: 'Você consegue tocar 'In-A-Gadda-Da-Vida', cara?' E eu dizia: 'Não, não consigo. Eu consigo tocar 'Wipe Out'!'"
A piada com "Wipe Out" é boa porque mostra que Peart não estava posando de intelectual incapaz de se divertir com uma bateria mais direta. Ele sabia tocar uma peça clássica de surf rock, reconhecia o valor de uma batida que empolga de imediato, mas não comprava a ideia de que um solo longo, por si só, virava grande música. No caso dele, o virtuosismo precisava estar amarrado a uma função. Se a música parava apenas para o baterista desfilar, algo se perdia.
Essa diferença ajuda a entender o próprio Rush. "Xanadu", por exemplo, também é longa, mas funciona como uma sequência de capítulos, com temas que retornam, atmosferas que se acumulam e uma letra inspirada em "Kubla Khan", de Samuel Taylor Coleridge. "2112" ocupa um lado inteiro de LP, mas segue uma narrativa de ficção científica com movimentos definidos. Mesmo quando o Rush parecia exagerado para quem estava de fora, havia uma lógica interna segurando a maluquice.
"In-A-Gadda-Da-Vida", por outro lado, pertence a outro momento do rock. O Iron Butterfly ajudou a abrir espaço para faixas extensas, pesadas e psicodélicas, e não dá para fingir que a música não teve importância. Mas ela vinha de uma escola mais solta, em que o transe e a repetição eram parte do efeito. Para Peart, que mais tarde ficaria conhecido como "The Professor", esse tipo de viagem parecia menos libertação e mais falta de direção.
A bronca dele não era contra o rock psicodélico/pesado, nem contra a ideia de esticar uma música. Era contra o desperdício de tempo sem construção. Peart podia lotar uma canção de compassos quebrados, viradas e partes instrumentais, mas queria que tudo tivesse lugar dentro da peça. Por isso "In-A-Gadda-Da-Vida" o incomodava tanto: para muitos ouvintes, era uma viagem clássica de 1968; para ele, era o lembrete de que uma música longa pode ocupar muito espaço sem necessariamente ir muito longe.
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