O álbum que quase quebrou o Rush, e fez a banda mudar tudo a partir dali
Por Bruce William
Postado em 24 de maio de 2026
O Rush passou boa parte dos anos 70 testando até onde três músicos poderiam levar uma música sem perder o controle da própria máquina. A banda já havia sobrevivido ao risco comercial de 2112, ampliado sua ambição em "A Farewell to Kings" e, em 1978, chegou a "Hemispheres" quase como quem tenta escalar a montanha que ela mesma havia construído. O problema é que, em algum momento, até uma banda tecnicamente absurda começa a sentir o peso de sua própria exigência.
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"Hemispheres" tem apenas quatro faixas, mas não soa como um disco pequeno. O lado A inteiro é ocupado por "Cygnus X-1 Book II: Hemispheres", continuação da história iniciada no álbum anterior. No lado B, "Circumstances" e "The Trees" oferecem respiros mais curtos, mas "La Villa Strangiato" vira outro teste de resistência, desta vez instrumental. Conforme relata a Wikipedia, o álbum foi lançado em outubro de 1978 e acabou acompanhado por uma turnê longa, de 137 datas, entre Canadá, Estados Unidos e Europa.
A gravação de "La Villa Strangiato" virou um símbolo desse limite. Geddy Lee lembrou no documentário "Rush: Beyond the Lighted Stage" que a banda queria registrar a base da música em um único take, mas passou dias tentando até admitir derrota. A solução foi gravar em três partes. Para uma faixa instrumental cheia de mudanças, passagens rápidas e pequenas armadilhas internas, aquilo dizia muito sobre o ponto em que o Rush havia chegado: a técnica ainda estava lá, mas o custo começava a ficar alto demais.
A percepção de Lee sobre "Hemispheres" é que o álbum foi "a gota d'água" em relação às músicas longas. A intensidade daquele processo fez o grupo querer fugir desse tipo de disco, e a fuga veio logo na sequência com "The Spirit of Radio". A escolha da palavra é boa: não foi uma mudança tranquila, de quem apenas decidiu experimentar um pouco. Foi quase uma reação física a uma fórmula que, para eles, havia chegado ao limite.
Essa virada aparece em "Permanent Waves", lançado em 14 de janeiro de 1980. O álbum ainda trazia complexidade, especialmente em "Jacob's Ladder" e "Natural Science", mas a escrita ficou mais compacta, com músicas como "The Spirit of Radio" e "Freewill" apontando para outro tipo de comunicação. O próprio histórico do disco registra essa mudança para arranjos mais concisos e canções mais amigáveis ao rádio, sem abandonar completamente a identidade técnica da banda.
A influência de sons mais contemporâneos também entrou nessa fase. Alex Lifeson falou para a Louder sobre como "The Spirit of Radio" marcou uma transição, misturando estrutura mais direta, riffs fortes e até elementos de reggae, em um momento em que o Rush prestava atenção a bandas como The Police e Talking Heads. A faixa chegou ao 13º lugar no Reino Unido e se tornou uma das músicas mais duradouras do repertório.
Mas essa mudança não significou uma simplificação pobre, teoriza a Far Out. O Rush apenas aprendeu a condensar ideias. Em vez de construir outra suíte de vinte minutos, passou a colocar mudanças, detalhes rítmicos e comentários de Neil Peart dentro de formatos mais curtos. "Moving Pictures", lançado em 1981, levaria esse equilíbrio adiante com "Tom Sawyer", "Limelight" e "YYZ", mostrando que a banda podia ser mais acessível sem virar uma versão domesticada de si mesma.
Por isso "Hemispheres" fica em um lugar curioso na discografia. É um disco admirado, cheio de momentos fortes, mas também parece o ponto em que a banda olhou para a própria engrenagem e percebeu que não dava para continuar aumentando a complexidade para sempre. O Rush não quebrou porque faltava habilidade. Quase quebrou justamente porque tinha habilidade demais e começou a exigir de si mesmo um tipo de perfeição que podia virar prisão.
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