A música do Deep Purple que cutucava os "guardiões da moral" dos anos 70
Por Bruce William
Postado em 06 de junho de 2026
O Deep Purple de 1973 não estava exatamente em seu momento mais tranquilo. A formação clássica com Ian Gillan, Ritchie Blackmore, Roger Glover, Jon Lord e Ian Paice ainda era uma potência, mas as tensões internas já estavam cobrando preço. "Who Do We Think We Are", lançado naquele ano, seria o último álbum de estúdio da Mk II antes da volta dessa formação em "Perfect Strangers", mais de uma década depois.
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No meio desse clima, o grupo colocou no disco "Mary Long", uma das letras mais sarcásticas de Gillan. A personagem do título não era uma pessoa real, mas uma mistura de duas figuras conhecidas na Inglaterra da época: Mary Whitehouse e Lord Longford. Ambos ficaram associados a campanhas públicas em torno de moralidade, pornografia, televisão, costumes e comportamento social.
Whitehouse era uma ativista conservadora conhecida por combater o que via como decadência moral na TV britânica. Longford, político trabalhista e aristocrata, também se envolveu em campanhas morais, mas ficou especialmente controverso por defender a possibilidade de libertação de Myra Hindley, condenada junto com Ian Brady pelos chamados Moors Murders, uma série de crimes contra crianças e adolescentes cometidos na Inglaterra nos anos 60. O caso chocou profundamente o país, e a defesa de Hindley tornou Longford uma figura ainda mais polêmica.
Ian Gillan explicou para a Louder que Mary Whitehouse e Lord Longford eram figuras muito visíveis naquele período, com uma postura de dedo em riste diante da cultura jovem. Ele reconheceu, olhando depois, que talvez houvesse alguma injustiça geracional na crítica, mas disse que era natural se rebelar. A música nasceu dessa ideia de transformar dois nomes públicos em uma só personagem, usada para representar aquilo que ele via como hipocrisia moral.
A letra não tenta ser sutil. "Mary Long" ataca uma figura que se apresenta como defensora dos bons costumes, mas é retratada como alguém cheia de contradições. Em comentário citado pelo Songfacts, Gillan disse que ele e Roger Glover não estavam sugerindo literalmente que Whitehouse ou Longford fariam as ações descritas na canção, como afogar gatinhos ou escrever grafite em banheiro. A ideia era apontar o cheiro de hipocrisia que ele via vindo do púlpito dos piedosos.
A música também traz uma referência específica a Johnny Speight, criador de Till Death Us Do Part, série britânica exibida entre 1965 e 1975 e conhecida pelo personagem Alf Garnett. Mary Whitehouse reclamava da linguagem usada na TV, e a frase "Mary told Johnny not to write such trash" ("Mary disse a Johnny para parar de escrever aquele lixo") mira justamente esse tipo de patrulha moral sobre roteiristas, televisão e comportamento popular.
Musicalmente, "Mary Long" aparece logo depois de "Woman from Tokyo" em "Who Do We Think We Are". O disco foi gravado em 1972, com sessões em Roma e Frankfurt, usando o Rolling Stones Mobile Studio em parte do processo. Apesar de ter sido lançado em uma fase conturbada, o álbum ainda trazia o peso característico do Deep Purple, mesmo com um clima menos expansivo do que em trabalhos anteriores.
O interesse de "Mary Long" está justamente nessa combinação de rock pesado e comentário social bem datado, mas ainda compreensível. Gillan pegou personagens da Inglaterra dos anos 70 e transformou em uma figura só, quase uma caricatura de moralismo público. Talvez hoje a música exija nota de rodapé para muitos ouvintes, mas a mira continua clara: o incômodo do Deep Purple não era com moralidade em si, e sim com quem usava a moral como palco, arma e pose de superioridade.
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