O gênero que Neil Peart não compreendia e não queria ver associado ao Rush
Por Bruce William
Postado em 01 de junho de 2026
O Rush sempre teve uma relação curiosa com o público do rock pesado. A banda canadense não cabia muito bem numa gaveta só, principalmente quando passou a misturar músicas longas, viradas instrumentais, letras mais elaboradas e uma sonoridade que podia ir de momentos quase contemplativos a riffs bem mais duros. Ainda assim, era comum ver gente com visual de heavy metal nos shows do trio, especialmente nos anos 80.
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Neil Peart, no entanto, não parecia muito convencido dessa aproximação. Em uma entrevista publicada pela revista britânica Feedback em 1983 (via 2112.net), durante a fase da turnê de "Signals", o baterista foi questionado sobre o fato de muitos fãs presentes em shows do Rush parecerem mais adequados a plateias de bandas como AC/DC, Scorpions ou Iron Maiden.
A resposta dele não foi exatamente simpática ao heavy metal. "Eu não entendo a associação porque esse tipo de música é tão fabricado quanto qualquer canção pop da BBC Radio 1. É exatamente tão cuidadosamente fabricado para agradar aquele tipo de gente de 'denim and leather'. Então, se eles acham que estão recebendo algo contracultural, sincero e rebelde, estão sendo enganados, sabe, e isso não me deixa feliz", afirmou Peart.
A fala pode soar dura, especialmente vista hoje, quando Rush e muitas bandas de metal acabaram dividindo espaço no gosto de vários fãs. Mas ela combina com uma característica conhecida de Peart: ele não parecia interessado em pertencer a uma cena apenas por conveniência. Para ele, o problema não era exatamente o peso das guitarras, e sim a ideia de que uma estética vendida como rebeldia também pudesse ser tão calculada quanto a música pop que muita gente dizia rejeitar.
É claro que essa visão deixa muita coisa de fora, comenta a Far Out. O heavy metal dos anos 80 tinha, sim, seus clichês visuais, suas fórmulas e seu lado comercial. Mas também abrigava músicos inventivos, discos ambiciosos e bandas que dialogavam com públicos bem diferentes. O próprio Rush tinha pontos de contato com esse universo: Alex Lifeson podia criar riffs pesados, Geddy Lee tocava baixo com uma intensidade pouco comum, e Peart era um baterista capaz de impressionar qualquer fã de música mais técnica.
Décadas depois, essa mistura de públicos ficou ainda mais evidente. Mesmo após a morte de Neil Peart, em 2020, o nome Rush continuou cercado por uma base de fãs muito fiel. Em 2025, Geddy Lee e Alex Lifeson anunciaram uma turnê para 2026 com a baterista alemã Anika Nilles, retomando os palcos pela primeira vez desde a última apresentação com Peart, em 2015.
A ironia é que parte do público que Peart olhava com desconfiança provavelmente ajudou a manter o Rush vivo como referência também fora do círculo mais tradicional da banda. Ele podia não gostar da associação com o heavy metal, mas a música do trio tinha força suficiente para atravessar essas fronteiras. Como costuma acontecer no rock, o artista tenta controlar o sentido da própria obra, mas o público quase sempre arruma um jeito de levar aquilo para outro lugar.
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