A banda que Lemmy sabia que o Motörhead jamais deveria tentar ser
Por Bruce William
Postado em 25 de maio de 2026
Mikkey Dee ficou 25 anos no Motörhead, de 1992 até a morte de Lemmy Kilmister, em 2015. Hoje, olhando para trás, a lembrança vem com um peso diferente. Würzel morreu em 2011, Lemmy em 2015, e Phil Campbell, parceiro de décadas na formação final da banda, morreu em março de 2026, aos 64 anos, após complicações de uma grande cirurgia. "Agora todos os três se foram. É inacreditável", disse Mikkey em entrevista à rádio WRIF, de Detroit, com transcrição feita pelo Blabbermouth. "É estranho pra caramba. Muito estranho."

O baterista descreveu o Motörhead como uma equipe muito particular, quase uma família. A saída de Würzel, nos anos 90, já havia sido sentida como uma perda grande, especialmente por Lemmy, que era muito próximo do guitarrista. Mesmo assim, a banda se reorganizou como trio e acabou encontrando, com Lemmy, Phil e Mikkey, uma formação estável dentro de uma história marcada por mudanças.
Uma parte interessante da entrevista é quando Mikkey desmonta a ideia de que Lemmy mandava sozinho em tudo. Segundo ele, o Motörhead era uma democracia, e Lemmy muitas vezes era derrotado em votação. "Nós o derrubamos muitas vezes, eu e Phil", contou. Mikkey se envolvia mais com o lado comercial e administrativo, enquanto os outros às vezes preferiam deixar essa parte com ele, mas as decisões importantes passavam pelos três.
Essa democracia, claro, não vinha sem atrito. Lemmy tinha uma noção muito forte do que o Motörhead podia ou não podia ser, e nem sempre queria seguir ideias que parecessem modernas demais. Mikkey resumiu o equilíbrio de um jeito ótimo: ele e Phil às vezes empurravam a banda para frente demais; Lemmy, por outro lado, podia ser antiquado demais. Quando Lemmy aparecia com algo muito preso ao rock and roll antigo, os dois reagiam: "Olha, nós não vamos escrever outro disco de Buddy Holly." Quando Mikkey e Phil complicavam demais, vinha o freio de mão: "Que porra vocês estão escrevendo aqui? Nós não somos o Rush."
Fica claro que a banda podia crescer, mudar detalhes, ajustar produção, tentar coisas novas, mas não podia perder o centro. O som precisava continuar direto, sujo, físico, reconhecível. Se ficava elaborado demais, Lemmy puxava de volta. Se ficava velho demais, Phil e Mikkey empurravam para o meio. "Então nós nos encontrávamos no meio, e era perfeito", disse o baterista.
Mikkey também reconheceu que Lemmy podia ser frustrante, justamente porque nem sempre estava certo. Mas aprendeu muito com ele quando o assunto era não comprometer a banda ou vender a identidade por conveniência. Às vezes, Lemmy perguntava simplesmente: "Qual é o sentido, Mikkey?" E essa pergunta obrigava o baterista a olhar a situação por outro ângulo. No Motörhead, fazer algo "bom para os negócios" não bastava se aquilo deixasse a banda menos Motörhead.
Outro ponto forte da entrevista aparece quando Mikkey fala do comportamento de Lemmy fora do palco. Segundo ele, o vocalista não ligava muito para essa coisa de estrela do rock. "De todos esses anos, e de tantos músicos que conheci, ele era o menos rock star." Quando aparecia convite só para Lemmy em programa de TV ou entrevista, ele muitas vezes recusava: "Não, se a banda não estiver aqui, eu não faço."
Esse apoio foi importante quando Mikkey entrou no grupo. Parte dos fãs mais antigos desconfiava dele, especialmente no Reino Unido, sem conhecer direito seu trabalho anterior com o King Diamond. Lemmy não deixou barato. Segundo o baterista, ele defendia sua entrada e fazia questão de dizer que, no Motörhead, todos precisavam ser figuras de frente. "Não sou eu na frente; somos todos nós", dizia. Para Mikkey, isso era raríssimo em um meio onde vocalistas e guitarristas muitas vezes preferem jogar o baterista para o fundo do palco.
Por isso, quando perguntaram por que a formação final durou tanto, Mikkey não falou primeiro de carreira, disco ou contrato. Falou de amizade. "Eu estaria lá agora se Lemmy ainda estivesse vivo, se ainda estivéssemos tocando. Eu nunca, jamais deixaria uma banda como o Motörhead, porque nós tínhamos tudo." Havia música, claro, mas também havia uma equipe escolhida a dedo, uma rotina de estrada que funcionava e uma sensação de pertencimento que ele não acredita que encontrará de novo do mesmo jeito.
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