O trabalho desajeitado de Jimmy Page na guitarra que conquistou Robert Plant
Por Bruce William
Postado em 06 de junho de 2026
Robert Plant poderia ter escolhido várias músicas para falar sobre o melhor de Jimmy Page. O guitarrista do Led Zeppelin deixou marcas óbvias em faixas como "Whole Lotta Love", "Stairway to Heaven", "Kashmir" e "Since I've Been Loving You", cada uma mostrando um lado diferente de sua forma de construir clima, peso e dinâmica. Mas, quando comentou um trecho específico que chamava sua atenção, Plant foi para um blues longo, cru e cheio de arestas.
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A música era "In My Time of Dying", lançada em "Physical Graffiti", de 1975. A faixa ultrapassa os 11 minutos e vem de uma tradição antiga do blues e do gospel, registrada por diferentes artistas antes do Led Zeppelin. Nas mãos da banda, porém, virou outra coisa: uma espécie de ritual elétrico, conduzido pelo slide de Page, pela bateria de John Bonham, pelo baixo de John Paul Jones e por Plant cantando como se estivesse tentando acompanhar uma locomotiva descendo sem freio.
Em entrevista publicada pela Reverb e repercutida pela Far Out, Plant citou justamente o trabalho de slide de Page nessa faixa. "O slide em 'In My Time of Dying', que vai se estendendo [risos], mas é um grande blues de slide meio desajeitado. Veio direto da cabeça", afirmou.
O comentário apareceu quando ele falava sobre momentos da obra do Led Zeppelin que continuavam chamando sua atenção. Tanto que, a palavra "desajeitado", aqui, não soa como crítica. Pelo contrário. Plant parecia apontar para aquela qualidade meio solta, irregular e instintiva que fazia parte do charme da gravação. "In My Time of Dying" não é um blues polido, arrumado para parecer respeitável. É uma faixa que cresce aos trancos, abre espaço para a banda se esticar e conserva justamente a sensação de risco que muita gravação de estúdio tenta eliminar.
"In My Time of Dying" também ajuda a explicar por que "Physical Graffiti" costuma ser visto como um dos discos mais completos do grupo. O álbum reunia material de diferentes sessões e passava por rock pesado, funk, folk, música orientalizada e blues, sem parecer uma coletânea sem rumo. Naquele contexto, a faixa ocupava um lugar de excesso assumido: longa, intensa, carregada de tradição e, ao mesmo tempo, com a cara do Led Zeppelin em seu momento mais expansivo.
Talvez por isso o elogio de Plant funcione tão bem. Ele não estava falando de Page como um guitarrista impecável no sentido limpo da palavra. Estava falando de alguém capaz de pegar uma forma antiga, deixar as costuras aparecendo e ainda assim fazer aquilo soar gigantesco. Em "In My Time of Dying", o blues não aparece como peça de museu. Aparece como uma máquina barulhenta, meio torta, mas viva o bastante para fazer até o próprio vocalista olhar para trás e reconhecer o tamanho daquilo.
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