CDM Metal Fest - Metal como resistência cultural no Sul de Minas Gerais
Resenha - CDM Metal Fest (Campo do Meio, 01 e 02/05/2026)
Por Antônio Bernardino
Postado em 06 de junho de 2026
CDM Metal Fest, realizado nos dias 1 e 2 de maio, em Campo do Meio, vai além de um festival de música pesada. Em uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, o evento se consolida como um verdadeiro ato de resistência cultural. Em uma região historicamente marcada pela predominância de shows sertanejos, a existência de um festival dedicado ao metal representa não apenas diversidade, mas também acesso.

O festival cumpre um papel essencial ao levar bandas nacionais e internacionais para um público que dificilmente teria a oportunidade de assistir a esses artistas fora dos grandes centros. Mais do que entreter, o festival fomenta. Ele planta sementes. Jovens da região passam a enxergar a possibilidade de formar bandas, subir em um palco e, quem sabe, dividir espaço com nomes relevantes do cenário. Esse tipo de iniciativa fortalece a cena underground e cria um ciclo cultural que ultrapassa os dois dias de evento.
Outro ponto que merece destaque é a forma como a cidade abraça o festival. Campo do Meio se transforma. Comércios locais se adaptam, estendem horários e acolhem o público que chega de diferentes regiões. Aos poucos, a curiosidade dá lugar a um certo orgulho coletivo por sediar algo tão significativo. A estrutura também demonstra evolução em relação às edições anteriores. Com dois palcos estrategicamente posicionados, o festival ganha fluidez, reduz os intervalos entre as apresentações e valoriza tanto o público quanto as bandas. A organização se mostrou eficiente e contribuiu para uma experiência sólida ao longo dos dois dias.
Mais uma vez, vale reforçar: o nível das apresentações foi alto do começo ao fim, mas alguns momentos merecem um olhar mais atento.
Wee Devil e Sodoma entregaram apresentações extremamente envolventes, daquelas que capturam imediatamente a atenção do público. Foram duas das boas surpresas do festival e representam exatamente a proposta do CDM: fomentar a cena e proporcionar descobertas que dificilmente aconteceriam fora de eventos assim.
Já Justabeli, que já havia participado de edições anteriores, confirmou novamente sua força ao vivo. A banda segue construindo uma relação sólida com o festival, sempre entregando apresentações intensas e marcantes.
O show do Korzus chamou atenção pela intensidade e pelo momento vivido pela banda. Mesmo com um certo atraso, a apresentação compensou rapidamente pela energia entregue no palco. Em processo de reformulação e realizando apenas sua segunda apresentação com a nova formação - após a estreia no Bangers Open Air - o grupo já demonstra um entrosamento mais sólido. A entrada agora oficial de Jean Patton e Jéssica Falchi nas guitarras trouxe ainda mais força à proposta atual da banda. A execução da recém-lançada "No Light Within" reforçou a sensação de um grupo atravessando uma fase particularmente promissora.
Power From Hell apresentou um dos shows mais brutais e esteticamente impactantes do festival. Houve algo quase ritualístico na forma como a banda conduziu sua apresentação. Foi um daqueles momentos em que som, atmosfera e presença de palco se unem de maneira completamente hipnotizante.
The Laws carregou um peso simbólico enorme ao revisitar músicas do Sarcófago, proporcionando um momento importante de conexão com uma das histórias mais relevantes do metal extremo brasileiro.
Troops of Doom, que já havia feito um grande show em edições anteriores, retornou ainda mais forte. Com um novo álbum e uma identidade cada vez mais consolidada, a banda demonstrou uma personalidade própria mais evidente, entregando uma apresentação madura e impactante.
Mesmo com parte do público já demonstrando desgaste físico ao fim do primeiro dia, o Master conseguiu revitalizar a energia do ambiente, promovendo rodas intensas e reafirmando a importância de um festival como o CDM ao levar bandas lendárias do metal extremo mundial para o interior de Minas Gerais.
Encerrando a primeira noite, os dinamarqueses do Artillery protagonizaram um dos momentos mais especiais do festival. Era possível perceber uma base de fãs extremamente fiel, aguardando discos e vinis para autógrafos, reforçando o peso histórico da banda dentro do thrash metal mundial.
O segundo dia começou com a Anthares, nome histórico do thrash metal nacional. A apresentação ganhou um significado ainda maior por acontecer em meio à divulgação de "Espetáculo Sangrento", álbum lançado recentemente pela banda e que reafirma sua vitalidade dentro da cena brasileira após décadas de trajetória.
Na sequência, o Pesta trouxe uma performance intensa e teatral. Para quem ainda não conhecia profundamente o trabalho da banda, foi uma das surpresas mais positivas do festival, graças à capacidade de prender completamente a atenção do público.
A apresentação do Cólera merece um destaque especial. Mais do que uma banda, o Cólera é patrimônio da música punk brasileira. Ver clássicos sendo executados ao vivo diante de uma plateia tão conectada reforça a dimensão histórica e necessária do grupo dentro da cena.
Outro momento marcante veio com o Viper. O show carregou um peso emocional forte, funcionando como uma verdadeira celebração de legado. Com a presença de Dani Matos e homenagens a André Matos e Pit Passarell, a apresentação ultrapassou a música e atingiu diretamente a memória afetiva de grande parte do público.
Quando a Dorsal Atlântica subiu ao palco, o festival alcançou um de seus momentos mais históricos. Existe uma conexão evidente da banda com o sul de Minas Gerais, marcada por episódios emblemáticos como o lendário show de Lambari em 1985. Assistir à Dorsal naquela região não parece apenas assistir a um show, mas presenciar um reencontro vivo com a história do metal nacional. A apresentação foi intensa, autêntica e carregada de identidade.
Outro grande destaque veio com os húngaros do Thy Catafalque, responsáveis por um dos momentos mais singulares do festival. Ver uma banda com uma proposta tão particular se apresentando no interior de Minas Gerais já seria algo marcante por si só, mas a apresentação conseguiu ir além: longa, imersiva e quase teatral, transformando o palco em uma experiência verdadeiramente única.
Encerrando o segundo dia, Gangrena Gasosa entregou um espetáculo à altura do fechamento do festival. Extremamente performático, o show foi além da música, combinando crítica, presença de palco e identidade própria. Mesmo sendo a última apresentação da noite, a banda conseguiu manter o público ativo e criar rodas intensas até os momentos finais.
Talvez um dos detalhes mais simbólicos de todo o festival tenha acontecido justamente nesse encerramento: integrantes do Thy Catafalque acompanhavam o show do Gangrena Gasosa com entusiasmo genuíno, interagindo, consumindo material da banda e compartilhando aquele momento com naturalidade. Diferentes línguas, diferentes origens, mas a mesma energia. Talvez seja exatamente isso que faz do CDM Metal Fest algo tão necessário para a cena metal brasileira.
Fica também o reconhecimento a Waltinho Assunção (@waltinhoassuncao), idealizador do festival, pela dedicação em manter vivo um evento tão importante. E um agradecimento especial a Bruno Fuzzo (@bruno.fuzzo) pelos registros fotográficos realizados durante os dois dias de festival.
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