Peça polêmica que envolve dedos e orifícios é arte? Rafael Bittencourt opina
Por Gustavo Maiato
Postado em 11 de maio de 2026
O guitarrista Rafael Bittencourt, do Angra, comentou no Flow a polêmica em torno da peça "Macaquinhos", espetáculo que ficou conhecido por ter atores nus em cena e por uma performance em que um deles introduz o dedo no orifício de outro. Conforme relembrou o UOL, a obra ganhou novo alcance no debate público em 2022, quando foi citada por Padre Kelmon em um debate presidencial, durante crítica à Lei Rouanet e à chamada banalização da cultura.
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Antes de responder se considera a peça arte, Rafael disse que a discussão depende da definição usada por cada pessoa. "Obviamente, a gente precisa definir um pouco o que é arte, né?", afirmou. Segundo ele, duas pessoas podem usar a mesma palavra e falar de coisas diferentes. "Se eu acho que arte é um negócio, se você acha que arte é outro, a gente vai estar falando de coisas diferentes."
Para Bittencourt, arte não precisa envolver grande sacrifício, técnica refinada ou beleza tradicional. O guitarrista associou a ideia de arte à construção humana e à intenção estética. Ele citou como exemplos a arte rupestre, objetos antigos, utensílios e até armas primitivas que, além da função prática, carregavam alguma forma de criação.
"Eu não acho que a arte necessariamente precise de um sacrifício para ser arte", disse. Na visão dele, uma obra nasce quando existe a intenção de causar impressão, admiração, medo, riso ou beleza. "Essa intenção que a gente atribui passa a ser arte."
Ao aplicar essa ideia a "Macaquinhos", Rafael evitou discutir se gosta ou aprova a peça. Também disse que não entraria no mérito de financiamento público. "Eu não fui, não vou falar que gosto ou que aprovo", afirmou. O músico explicou que estava fazendo uma leitura "da antropologia mesmo", ligada à "nossa essência primata".
Segundo Rafael, a peça parte da semelhança entre humanos e outros primatas para criar uma ação cênica. "Somos 99% chimpanzé", disse. Para ele, o ponto artístico estaria no olhar humano sobre um comportamento bruto. "Eles coreografaram hábitos dos chimpanzés, por isso o nome 'Macaquinhos'", afirmou.
O guitarrista resumiu sua leitura dizendo que a peça teria "esse 1% artístico", justamente por transformar um gesto instintivo em coreografia. "Esse olhar humano neste hábito que é do chimpanzé. Então esse foi, vamos dizer, a obra deste cara."
Rafael também deu um exemplo simples para defender sua definição. Para ele, até um castelo de areia feito por uma criança pode ser visto como arte se houver uma intenção estética. "Ela teve uma intenção de criar um castelinho bonito pros olhos", disse. Esse impulso de criar algo para ser visto, sentido ou admirado seria, na visão dele, uma característica humana.
Apesar disso, Bittencourt deixou claro que não costuma se prender ao rótulo. "Eu não entro, eu não costumo entrar nessa, se é arte ou se não é", afirmou. Para ele, as coisas podem ser arte "dependendo de quem tá olhando". O músico disse que presta mais atenção ao efeito que uma obra causa nele do que à classificação formal.
Sobre a cena mais controversa, Igor3K, apresentador, foi direto. "Se tu me pergunta assim: 'Cara, tu acha maneiro o cara enfiar o dedo no cu do outro no palco?', eu vou falar: 'Cara, eu acho peculiar'." Em seguida, disse que gostaria de saber antes o conteúdo da apresentação, especialmente se fosse levar uma filha ao espetáculo.
No fim, a posição de Rafael não foi de defesa irrestrita da peça, mas de relativização do conceito de arte. Ele não disse que gosta de "Macaquinhos" nem que aprova a cena. O que afirmou é que, se arte depende de intenção, olhar humano e construção simbólica, até uma performance incômoda pode entrar nessa
Confira a entrevista completa abaixo.
O que foi a peça "Macaquinhos?"
Segundo o UOL, "Macaquinhos" é uma peça que estreou em 2011 e passou a ser alvo de polêmica por causa de uma cena com atores nus. O espetáculo voltou ao debate público em 2022, depois de ser citado por Padre Kelmon durante debate presidencial na TV Globo. Na ocasião, o então candidato criticava a Lei Rouanet e a "banalização da cultura" quando mencionou uma apresentação em que artistas colocavam o dedo "a gente sabe onde".
A peça ficou conhecida justamente por essa imagem, usada com frequência por críticos de políticas públicas de incentivo à cultura. No contexto da fala de Rafael Bittencourt, o caso serviu para discutir os limites do que pode ou não ser chamado de arte. O guitarrista não disse gostar da obra nem defendeu a cena em si. Ele argumentou que a definição de arte depende da intenção, do olhar humano e da construção simbólica por trás de uma ação, mesmo quando o resultado causa estranhamento ou rejeição.
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