O curioso tema dominante nas letras do rock dos anos 1950, segundo Paulo Ricardo
Por Gustavo Maiato
Postado em 10 de maio de 2026
O cantor Paulo Ricardo afirmou, em entrevista ao Pânico, que o grande tema do rock dos anos 1950 era o sexo. Ao comentar a relação entre música popular, mercado e comportamento, o ex-vocalista do RPM citou Little Richard como exemplo de como artistas usavam expressões aparentemente sem sentido para tratar de assuntos que não podiam ser ditos de forma direta.

Segundo Paulo, o refrão de "Tutti Frutti" parece não significar nada, mas carregava um sentido sexual. "Na verdade, significa sexo", disse. Ele afirmou que a própria expressão "tutti frutti" entrava nesse vocabulário cifrado, usado em uma época de forte censura moral e segregação racial nos Estados Unidos.
"Todo o grande tema do rock nos anos 50 era o sexo", afirmou. Em seguida, completou que havia também um componente interracial, em um contexto de grande separação entre brancos e negros. Para Paulo, o rock nasceu justamente dessa tensão entre desejo, repressão e linguagem indireta.
O cantor usou o exemplo para defender que a música popular não deve ser analisada apenas pela letra ou pela melodia. Segundo ele, trata-se de uma forma multimídia, capaz de atrair o público por vários elementos ao mesmo tempo: som, corpo, imagem, atitude e contexto.
Na mesma conversa, Paulo também falou sobre a mudança no mercado musical brasileiro a partir dos anos 1990. Para ele, o aumento do poder de compra das classes C e D ampliou a presença do gosto popular na indústria cultural. "O mercado não tem problemas críticos de qualidade cultural. Ele quer vender", afirmou.
O músico disse que esse movimento ajudou a explicar a força de fenômenos populares na televisão e no rádio. Citou como exemplo a presença recorrente do É o Tchan no Domingão do Faustão, nos anos 1990. Para Paulo, a indústria foi ocupada por um gosto mais amplo, porque sempre haverá mais gente ligada ao gosto popular do que a um repertório mais sofisticado.
A fala também abriu espaço para uma reflexão sobre a imagem do roqueiro. Questionado sobre a ideia de que todo roqueiro precisa ser "doidão", Paulo rejeitou a caricatura. Ele afirmou que existe a imagem pública e existe a vida real, lembrando que muitos ídolos do rock sempre tiveram disciplina e boa administração de carreira.
O cantor citou uma frase atribuída a Mick Jagger: um artista pode brincar com a imagem rebelde até certo ponto, mas, depois de alguns anos, precisa se profissionalizar ou desaparece. Para Paulo, fazer boa música não exige descontrole.
Essa leitura se aproxima de outra comparação feita por Paulo, em entrevista ao G1, ao falar do Led Zeppelin. Segundo ele, em uma música da banda inglesa, "a letra não é importante". O essencial estaria na "força do negócio", ou seja, na potência sonora. Já no Brasil dos anos 1980, o rock assumiu outro papel. Com a abertura política, bandas como RPM, Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso e Ultraje a Rigor passaram a tocar em temas sociais e políticos com ironia, deboche e urgência. Para Paulo, o rock brasileiro daquela geração não podia fugir do contexto: precisava "tocar na ferida".
Confira a entrevista completa abaixo.
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