Kiko Loureiro: "Angels Cry é um puta disco"
Por André Molina
Postado em 11 de agosto de 2007
O guitarrista do Angra, Kiko Loureiro, esteve em Curitiba no dia 4 de julho para participar do primeiro "Total Guitar Festival". O evento aconteceu no Auditório do Largo da Ordem e ainda contou com a presença dos guitarristas curitibanos Emmanuel Bach, Rogério Proença, Renatinho e Willian Matheus.
As apresentações não passaram de meia hora de duração cada, mas satisfizeram o público que esperava música instrumental de qualidade. O repertório de Kiko Loureiro foi composto por cinco canções: "Moment of Truth", "No Gravity" e "Escaping" de seu primeiro disco solo; "Feijão de Corda" do novo CD "Universo Inverso"; a cover de Joe Satriani, "Surf With The Alien" e o clássico do Angra, "Nothing to Say".
A banda que acompanhou o músico do ANGRA foi formada por instrumentistas curitibanos recrutados "na última hora". A falta de ensaio não comprometeu a qualidade da apresentação. Os músicos são experientes na cena do rock instrumental local.
Após o encerramento do evento, Kiko agradeceu o convite para participar do festival e destacou a sua importância. "Esse encontro serve para aproximar os músicos. Os guitarristas não devem sustentar rivalidade. É importante a união para fortalecer a cena da cidade", argumentou.
O organizador do "Total Guitar Festival" e guitarrista, Emmanuel Bach, justificou o motivo da realização do evento. "O objetivo principal é promover a música instrumental de Curitiba. Já estamos planejando outra edição. Os guitarristas que quiserem participar para mostrar o trabalho próprio devem entrar em contato", disse.
A primeira edição do "Total Guitar Festival" recebeu o apoio do estúdio H-Mix, Drum Shop e guitarra Schecter.
E em entrevista exclusiva e descontraída, Kiko falou sobre a situação atual do ANGRA, de sua carreira solo e da parceria com a ex-vocalista do NIGHTWISH, Tarja Turunen.
Como foi a divulgação do disco "Aurora Consurgens"? O terceiro trabalho de estúdio com a nova formação.
Kiko Loureiro: "Começou em outubro do ano passado e acabou. A banda foi para Europa, Japão e depois tocou nas principais capitais brasileiras. A turnê japonesa foi com o Blind Guardian e contou com show extra em Tokio. Na Europa fizemos 30 shows. Na América Latina tocamos em Costa Rica, Chile, Peru e Argentina. A gente parou a turnê para não repetir. No disco 'Temple of Shadows' repetimos algumas cidades para tocar o disco inteiro".
Com essa pausa, os integrantes do Angra vão se dedicar aos projetos paralelos?
Kiko Loureiro: "As turnês foram muito seguidas. Emendamos a divulgação do 'Rebirth' (primeiro disco com a nova formação) com 'Temple of Shadows'. O tempo de intervalo foi gasto nas composições. O período foi cansativo. Aproveitei também para ir à Tunísia para promover o disco solo 'Universo Inverso'. Recebi convites diferentes para tocar em festivais de jazz. Na pausa aproveitamos para fazer workshops".
Como você compara os discos solos "No Gravity" e "Universo Inverso"?
Kiko Loureiro: "São completamente diferentes no formato, concepção e música. Tanto que o segundo chamei de 'Universo Inverso'. O 'No Gravity' gravei do mesmo modo que eu sempre fiz com o Angra. É instrumental. Não tem voz, mas é um negócio que já estava acostumado a fazer. O Angra tem instrumentais super longos. O trabalho tem a influência dos guitarristas virtuosos dos anos 80, que sempre gostei. Fui nesse caminho com uma pitada brasileira".
"No 'Universo...' trabalhei com músicos que não são roqueiros. A situação de gravação no estúdio foi diferente. Foi da mesma maneira que o Hermeto Pascoal grava. O trabalho tem participação de um pianista cubano, tem Cuca Teixeira, que é um puta baterista de Jazz e de música brasileira. Hoje ele toca com a Maria Rita. Outro músico que é o Carlinhos Noronha vem da escola da MPB e nunca foi de ouvir rock. Participei de um universo diferente. Era um roqueiro ao lado de músicos de outro estilo para fazer uma mistura de verdade. Não era uma união de roqueiros para tocar música brasileira. É um estilo em que os músicos precisam de partitura, senão ninguém toca. O rock não é assim. Não é bom nem ruim. É o estilo de trabalho, com muita improvisação. Essa é a graça!"
Recentemente você recebeu o prêmio de melhor guitarrista do mundo por uma revista japonesa especializada. Como você analisa esse fato?
Kiko Loureiro: "Foi o reconhecimento do ano passado pelo CD do Angra e 'No Gravity'. No outro ano ganhei o 4° lugar. O Dimebag Darrell do Pantera (foi assassinado por um fã em show) ganhou o primeiro lugar como celebração póstuma. O Ritchie Blackmore (ex-Deep Purple) ficou em segundo porque sempre é endeusado no Japão. O terceiro foi o Slash (ex-Guns ‘n Roses), que trabalhou com o Velvet Revolver. Quem está lançando disco fica na crista da onda".
Você acha que o reconhecimento veio por causa do primeiro trabalho solo?
Kiko Loureiro: "Cresceu pelo 'Temple of Shadows' e 'No Gravity'. Em 2006, com um disco novo do Angra e um trabalho completamente diferente de jazz, com harmonias, as revistas de guitarra ficaram curiosas. O japonês gosta do cara que mostra conteúdo com técnica. Faz parte da cultura deles".
A Tarja Turunen convidou você para participar do disco solo depois que deixou o Nightwish. Como foi a aproximação?
Kiko Loureiro: "A outra turnê no Japão foi com o Nightwish na época em que ela ainda era vocalista. No show do Brasil a gente se conheceu. O empresário dela me perguntou se eu não tinha nenhuma música para participar do disco. Ela disse que adora os temas de violão e as baladas do Angra. A Tarja queria a mesma textura na música dela. Fiz um arranjo em violão de nylon na faixa final do disco".
O Angra foi um dos precursores do Heavy Metal melódico no Brasil. Como você avalia a evolução da banda da primeira para a segunda formação em termos de música e mercado?
Kiko Loureiro: "Na música tem a experiência. Certas coisas você faz com mais facilidade. O 'Angels Cry' é um puta disco. É difícil comparar o primeiro com o último. Hoje gravamos com mais tranqüilidade no estúdio, mas a música é atemporal e não tem muita influência da experiência. É o que você acredita na hora. É difícil falar de evolução porque sempre mantivemos um nível bom. Existem ótimas músicas em todos os trabalhos".
"Em relação ao mercado melhorou para caralho. Em 1994 e 95 começou a melhorar e a partir do ano 2000 já era outro nível. A banda se aproveitou da situação. As bandas Blind Guardian e Nightwish estavam em alta e o Angra entrou na onda. Ajudou muito a formação nova dar certo".
Foi o Angra que começou a incorporar os elementos eruditos de maneira mais explícita no Heavy Metal?
Kiko Loureiro: "Tivemos uma função importante. Se você for conversar com bandas européias como Edguy, Stratovarius e Nightwish, vão confirmar. Por isso que a Tarja me convidou. O cara do Blind Guardian conhece todos os discos do Angra. Eles gostam e são a banda mais antiga. A gente não começou nada. Participamos de um embrião junto com outras bandas. Fomos mais fundo na mistura de música clássica e brasileira. Utilizamos o erudito brasileiro. É a diferença".
Qual disco do Angra você indicaria a alguém que não conhece?
Kiko Loureiro: "Indicaria dois. O 'Temple of Shadows' e o 'Holy Land'. São os que estão mais dentro do estilo".
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