Ratos de Porão: Cheios de fúria e engajamento contra a necropolítica pandêmica
Resenha - Necropolítica - Ratos de Porão
Por Jonathan Silva
Postado em 14 de maio de 2022
Nota: 8 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
O Ratos de Porão é, definitivamente, a banda com os álbuns mais conceituais do rock brasileiro quando se trata de política. Começou em 1984, com Crucificados pelo Sistema, um álbum que conservou tal como uma cápsula do tempo as angústias e raivas de uma geração furiosa que não via a hora de enterrar, numa cova bem funda, a repressão da ditadura militar. Aí, mais maduros e nem tão punks assim, gravaram Brasil (1989), um relato pessimista dos mais variados problemas que são o passado, o presente e o futuro do país. Século Sinistro (2014) surgiu um ano depois das Manifestações de Julho de 2013, quando o Brasil ainda respirava o gás lacrimogêneo das ruas.
Portanto, a postura musical do RDP não deixaria passar em branco a fase de pandemia pelo novo coronavírus que o mundo (em especial, o Brasil) está vivendo. Necropolítica (2022), o novo álbum do quarteto, é do início ao fim uma coleção de petardos compostos para não deixar dúvidas sobre o posicionamento político e ético da banda. Sem citar nominalmente nenhum membro do atual governo, a banda recorre dos mais controversos acontecimentos políticos que tomaram conta do noticiário em 2020/2021 para compor as letras.
Para não falar só de política, percebe-se nesse novo álbum do RDP influências muito mais metaleiras do que punk/hardcore, embora esses dois estilos ainda tenham seus momentos. O desempenho de Jão (guitarra) está mais próximo do puro thrash oitentista, como Slayer e Sodom, do que o crossover do D.R.I ou Cro-Mags. A cozinha entre Boka (bateria) e Juninho (baixo) ainda mantém um nível alto de entrosamento e também segue o rumo proposto por Jão - os três compuseram quase todo o disco. E João Gordo está com um vocal mais rude e cavernoso, combinando com suas letras afiadas.
A respiração ofegante e o som de respirador hospitalar em "Alerta Antifascista" dão a abertura soturna do álbum, que rapidamente explode em thrash metal. Em seguida, "Aglomeração", um dos singles do álbum, mantém a pegada com rapidez furiosa para criticar o fatalismo perante a mortalidade da COVID-19. A faixa título, "Necropolítica", traduz em hardcore o conceito filosófico do intelectual camaronês Achille Mbembe, que aborda o poder e controle político na vida e morte dos cidadãos.
"Guilhotinado em Cristo" e "Passa Pano Pra Elite" seguem no ritmo do crossover. "O Vira Lata" pega emprestado a sonoridade surf punk do East Bay Ray (aquele guitarrista do Dead Kennedys que gerou uma treta no Brasil por causa de um pôster) para zoar com a cara dos moralistas. Juninho tem em "G.D.O." um momento de destaque no baixo, onde a banda ataca os grupos organizados das fake news.
Pra desopilar, "Bostanágua" mostra que a banda ainda sabe fazer zoeira num crossover cuja letra e melodia é mais desencanada. Voltando à programação normal, "Entubado" traz um Jão inspirado que até simula um duelo de guitarras no seu solo; Já em "Neo Nazi Gratiluz", faixa de encerramento, não há muito de diferente do que foi visto nas faixas anteriores, podendo ter sido realocada em outra posição do álbum.
E o que dizer da capa do álbum? Mesmo inspirada em "Sabbath Bloody Sabbath" (1973), do Black Sabbath, a imaginação do artista Rafael Gabrio em compilar todo o teatro do absurdo visto nos jornais e hospitais fazem desta ilustração a melhor desde Brasil. Gostando ou não do R.D.P. e seu posicionamento antifascista, Necropolítica é a mostra de que não há acontecimento político irracional neste país, seja na direita ou esquerda, que o Ratos não possa transformar a denúncia em música.
Faixas:
Alerta Antifascista
Aglomeração
Passa Pano Pra Elite
Necropolítica
Guilhotinado em Cristo
O Vira Lata
G.D.O.
Bostanágua
Entubado
Neo Nazi Gratiluz
Outras resenhas de Necropolítica - Ratos de Porão
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Como uma canção "profética", impossível de cantar e evitada no rádio, passou de 1 bilhão
O disco nacional dos anos 70 elogiado por Regis Tadeu; "hard rock pesado"
A música do Angra que Rafael Bittencourt queria refazer: "Podia ser melhor, né?"
O álbum "exagerado" do Dream Theater que John Petrucci não se arrepende de ter feito
Playlist - Uma música de heavy metal para cada ano, de 1970 até 1999
As duas músicas do Metallica que Hetfield admite agora em 2026 que dão trabalho ao vivo
A música de Raul Seixas que faria ele ser "cancelado" nos dias de hoje
A música feita pra soar mais pesada que o Black Sabbath e que o Metallica levou ao extremo
Registro do último show de Mike Portnoy antes da saída do Dream Theater será lançado em março
Alter Bridge, um novo recomeço no novo álbum autointitulado
A contundente opinião de Anders Fridén, vocalista do In Flames, sobre religião
Cinco discos de heavy metal que são essenciais, segundo Prika Amaral
A banda de rock que lucra com a infantilização do público adulto, segundo Regis Tadeu
Max Cavalera só curtia futebol até ver essa banda: "Virei roqueiro na hora"
O guitarrista que Dave Grohl colocou acima de Jimi Hendrix, e que Brian May exaltou
A música do Queen que Brian May pensou que era uma brincadeira
O clássico do rock com o melhor som de bateria de todos os tempos, segundo Phil Collins
Tina Turner revela o rockstar pelo qual ela "sempre teve um crush"

Ratos de Porão: em 2022, ainda totalmente sujos e agressivos
Com "Brotherhood", o FM escreveu um novo capítulo do AOR
Anguish Project mergulha no abismo do inconsciente com o técnico e visceral "Mischance Control"
Motorjesus pisa fundo no acelerador, engata a quinta e atropela tudo em "Streets Of Fire"
Metallica: em 1998, livrando a cara com um disco de covers
Whitesnake: Em 1989, o sobrenatural álbum com Steve Vai



