Titãs: surpreendentemente, a ópera rock deu certo

Resenha - Doze Flores Amarelas - Titãs

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Por Victor de Andrade Lopes, Fonte: Sinfonia de Ideias
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Doze Flores Amarelas tinha tudo para ser um grande fracasso. Os Titãs, que começaram com nove integrantes, estão hoje reduzidos a três, com dois membros de apoio completando a formação. São um trio de cinquentões, beirando a terceira idade, e que sempre teve formações 100% masculinas. Para coroar, perderam em 2016 Paulo Miklos, vocalista, guitarrista, membro fundador e ainda por cima ator - sua vaga foi preenchida pelo guitarrista de apoio Beto Lee, filho da Rainha do Rock.

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Os caras decidiram estrear sua nova fase com uma ópera rock (termo que sugere algo encorpado) sobre três jovens estupradas (protagonismo feminino) e temas juvenis (protagonismo... juvenil) que vem sendo apresentada ao vivo num espetáculo de teatro (um integrante com experiência em atuação teria sido uma carta na manga). Era praticamente como ter de passar um rolo compressor sobre mil ovos sem quebrar nenhum - e eles quase conseguiram.

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Doze Flores Amarelas chegou em doses homeopáticas, com os três atos que compõem o disco sendo liberados com mais ou menos uma semana de diferença. E chegou já como um dos grandes lançamentos do rock nacional não só do ano, mas talvez da década, especialmente se levarmos em conta o conjunto da obra (espetáculo, argumento, etc.). Teve seus tropeços, mas eles não comprometem o resultado final.

Especialmente porque um deles ocorreu fora do âmbito estritamente musical: o trabalho vem sendo erroneamente divulgado como a primeira ópera rock de uma banda brasileira, mas nós sabemos que isso é balela. Bigorna, do Cartoon; e Cartélico Vol.1 - Fronteira, Trago & Querência, do Cartel da Cevada, que o digam. Isso pra não entrar no mérito das metal operas.

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Enfim, do ponto de vista instrumental, temos uma das atuações mais empolgantes da história dos Titãs. O álbum dá prosseguimento àquela crueza retomada em Nheengatu e a tempera com a densidade de projetos mais ambiciosos, como Volume Dois, resultando em quase 30 inéditas de alta qualidade.

O disco bebe principalmente do punk rock, abrindo espaço também para rockabilly ("O Facilitador"), baladinhas ("Nossa Bela Vida"), rock alternativo ("Mesmo Assim"), eletrônico ("Me Chamem de Veneno") e sinfônico ("Pacto de Sangue", "É Você" e "Sei Que Seremos"), entre outros.

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O grupo só foge do rock na abertura e nos três interlúdios, que trazem a narração mais que especial de Rita Lee. São todas peças eruditas com toques de Villa-Lobos e Beethoven, exceto pelo "Interlúdio 1", tocado só no órgão, um momento Terry Riley do vocalista, tecladista e baixista Sérgio Britto e a passagem que mais se aproxima do rock progressivo, que deu à luz algumas das óperas rock mais importantes, como Quadrophenia (The Who) e The Wall (Pink Floyd).

O que fica claro após algumas audições é que a chegada de Beto Lee fez um bem danado aos paulistas, que ganharam peso nas seis cordas e uma bem-vinda lufada de renovação na riffagem. Boa parte do sucesso do álbum passa pelas mãos dele, consagrando-o como um substituto mais do que acertado.

As letras conseguem ser diretas sem soarem bobas, retendo certa poesia. Pontos altos incluem "Fim de Festa", que nos permite visualizar os estupradores cercando suas vítimas como presas; "Me Estuprem", que, apesar da crítica que faço mais abaixo, é de uma franqueza perturbadora; a viagem filosófica que transforma um coveiro num jardineiro de mortos em "O Jardineiro"; e a despedida de vida "Réquiem".

E, ainda bem, mulheres aparecem ocasionalmente para cantar, evitando assim o que teria sido um erro imperdoável da banda na era do empoderamento feminino e do lugar de fala. São elas: Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yás Werneck, cada uma dando voz a uma das três Marias que protagonizam a trama assinada por Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva.

Mas isso não evitou que Doze Flores Amarelas cometesse uma falta grave. Alguns dos momentos-chave do enredo, como o estupro, são cantados por Sérgio Britto. Ora, se havia não uma, não duas, mas três mulheres disponíveis, por que não foram elas as escolhidas? Ficaram relegadas a meros vocais de apoio na faixa em questão ("Me Estuprem"). O erro se repete parcialmente em "Eu Sou Maria", por exemplo.

Outra característica singular da ópera rock é que a média das músicas cantadas pelo baixista Branco Mello é notavelmente superior à média das cantadas por Sérgio. E isso nada tem a ver com composição, uma vez que Sérgio assina quase todas. Com tantos vocalistas a menos - já foram seis! -, o grupo fica cada vez mais sujeito a este tipo de comparação.

Não poderia deixar de mencionar ainda que a banda se arrisca em dois importantes ineditismos: um que deu errado e outro que deu certo. O primeiro é a faixa "Weird Sisters", cantada totalmente em inglês - macarrônico, no caso de Sérgio. E não fica claro em momento algum por que ela foi a "chosen one". No caso do acerto, falo da primeira música de estúdio com vocais do guitarrista Tony Bellotto: "Canção da Vingança". Após a saída de Paulo, ele já vinha ganhando intimidade com o microfone ao vivo em "Pra Dizer Adeus".

Doze Flores Amarelas mostra um Titãs mais vivo e antenado do que nunca, saindo de cabeça erguida da sexta prova do "um membro a menos", embora Mario Fabre e Beto Lee estejam mais incorporados do que nunca. A formação enxuta está espremendo os músicos envolvidos e extraindo o melhor possível deles. O ambicioso projeto não causa o impacto de um Tommy da vida, mas se nem eles prometeram isso, quem sou eu para cobrar...

Abaixo, o lyric video de "Nada Nos Basta":

Track-list:
Ato I
1. "Abertura"
2. "Nada Nos basta"
3. "O Facilitador"
4. "Weird Sisters"
5. "Disney Drugs"
6. "A Festa"
7. "Fim de Festa"
8. "Me Estuprem"

Ato II
1. "Interlúdio 1"
2. "O Bom Pastor"
3. "Eu sou Maria"
4. "Canção da Vingança"
5. "Hoje"
6. "Nossa Bela Vida"
7. "Personal Hater"
8. "Interlúdio 2"
9. "De Janeiro até Dezembro"
10. "Mesmo Assim"
11. "Não Sei"
12. "Essa Gente Tem Que Morrer"

Ato III
1. "Interlúdio 3"
2. "Me Chamem de Veneno"
3. "Doze Flores Amarelas"
4. "Ele Morreu"
5. "Pacto de sangue"
6. "O Jardineiro"
7. "Réquiem"
8. "É Você"
9. "Sei que Seremos"

Fonte: Sinfonia de Ideias
http://bit.ly/dozefloresamarelas


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Sobre Victor de Andrade Lopes

Victor de Andrade Lopes é jornalista (Mtb 77507/SP) formado pela PUC-SP com extensões em Introdução à História da Música e Arte Como Interpretação do Brasil, ambas pela FESPSP, e estudante de Sistemas para Internet na FATEC de Carapicuíba, onde mora. É também membro do Grupo de Usuários Wikimedia no Brasil e responsável pelo blog Sinfonia de Ideias. Apaixonado por livros, ciências, cultura pop, games, viagens, ufologia, e, é claro, música: rock, metal, pop, dance, folk, erudito e todos os derivados e misturas. Toca piano e teclado nas horas livres.

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