Ramones: Um álbum para ser escutado na ordem das faixas
Resenha - Ramones - Ramones
Por João Fernandes
Postado em 20 de novembro de 2016
1976. O ano em que a música mudou. O ano em que quatro outsiders, desajustados e sem perspectivas conseguiram derrubar a música mainstream e iniciar uma revolução.
2016. Muitas bandas, dos mais variados estilos musicais afirmam que, sem os Ramones, seu som não seria o mesmo. Muitas cantoras e cantores pop, muitas atrizes e atores estampam no peito o selo do governo estadunidense um pouco modificado, com um bastão de baseball, flechas e quatro nomes: Johnny, Joey, Dee Dee, Tommy.
O disco RAMONES, lançado em 1976, contem uma música poderosa, crua, rápida, que mais parece uma porrada na orelha. Canções com mais de 3 acordes (sim! Johnny Ramone, em sua biografia, afirma que "os críticos não sabiam como definir nossa música, então diziam que éramos uma banda de três acordes), mas basta escutar "I DON'T WANNA GO DOWN TO THE BASEMENT" para perceber seus 6 acordes. Mas em relação ao tempo de cada música... realmente, músicas que não passavam dos 2 minutos e meio. Mas, além da música barulhenta, o que chama a atenção são os temas das letras.
Blitzkrieg Bop começa o ataque sonoro que a banda realizava em um período de grandes solos e técnica apurada. É um ode ao rock cru e rápido. Um simples ataque sonoro.
Já Beat on the Brat é sobre violência urbana e falta de respeito, pessoas sem nenhuma noção de nada que, segundo Joey, mereciam uma paulada na cabeça. Pura violência urbana.
Judy Is a Punk disserta sobre amor disfuncional, com jovens desiludidos aceitando qualquer ideologia como certa, mesmo rumando para a morte certa.
Chain Saw é uma homenagem aos clássicos filmes de terror, tão amados por Johnny. Neste caso, aos amantes do clássico "O massacre da serra elétrica". Afinal Johnny era um aficionado por filmes de terror.
Now I Wanna Sniff Some Glue então, é a música mais transgressora do álbum, com sua clara referencia ao consumo de drogas.
Mas a letra de I Don't Wanna Go Down to the Basement é extremamente forte, pois trata dos medos infantis sobre possíveis abusos psíquicos e/ou físicos praticados por adultos.
Loudmouth também possui uma letra forte, sobre casal com sérios problemas de relacionamento, em que agressão à mulher e violência doméstica são discutidos em praticamente duas frases.
Havana Affair é o ponto político do álbum, afinal versa sobre a mudança de paradigmas, uma analise sobre política externa e espionagem.
53rd & 3rd retrata a vivência das ruas, sobre os tempos de penúria de um dos membros da banda e há quem diga que é uma música autoral sobre prostituição masculina do Dee Dee Ramone.
I Don't Wanna Walk Around with You retoma a questão da violência doméstica, afinal foi escrita por Dee Dee para uma de suas namoradas (Connie Gripp). Em uma das brigas do então casal, Connie tentou esfaquear Dee Dee dentro da van de turnê, em meados de 1977.
O álbum fecha com Today Your Love, Tomorrow the World, sobre identidade e ideais. Dee Dee morou por muitos anos em Berlin, cresceu em uma família com casos de violência por parte de seu pai contra sua mãe, cresceu nos escombros de uma Berlin ainda em recuperação após a segunda grande guerra.
É um álbum para ser escutado na ordem das faixas. Johnny afirma que "as canções foram gravadas na ordem em que foram compostas". Rápido, cru, com letras fortes, capaz de influenciar músicos, a cultura, a moda e até você... alias aquela guitarra um pouco distorcida que escutamos em programas de televisão só é possível graças a este álbum lançado 40 anos atrás.
Referências: Livro "Commando: autobiografia de Johnny Ramone" e o DVD "End Of the century: the story of the RAMONES".
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