Paul McCartney: O velho e o novo se encontram em novo disco

Resenha - New - Paul McCartney

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Por Thiago El Cid Cardim
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Há quem acredite que, depois de quatro décadas de carreira, o britânico Paul McCartney não tenha mais nada de novo para dizer em um disco de inéditas. Mas, do alto de seus 71 anos de idade, parece que o velho Macca discorda. Depois de lançar, ano passado, o álbum "Kisses on The Bottom", no qual revisita canções dos anos 20, 30 e 40 que tiveram algum tipo de influência em sua trajetória, ele resolveu se focar no novo. Não à toa, batizou seu primeiro registro inédito em seis anos de "New". No álbum, 16o de sua carreira, uma surpresa mais do que grata, uma verdadeira aula de boa música pop, Paul não deixa o seu passado para trás.
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Ao contrário: "New" traz faixas que têm um gostinho dos Beatles, sua ex-banda, e também de outros momentos de sua carreira-solo e mesmo de seus anos ao lado dos Wings. Só que isso não faz a obra chegar a soar como nostalgia pura e simples, essencialmente girando em volta do próprio umbigo, porque o músico se cercou inteligentemente de um quarteto de jovens e badalados produtores, que deram a camada de juventude e novidade que surpreenderão os ouvidos desatentos.

O mais estrelado destes nomes é, de fato, Mark Ronson, o homem por trás de "Back to Black", o premiado álbum da meteórica Amy Winehouse. Com a mão de Ronson, Paul inspira os ares do quarteto de Liverpool e entrega a faixa-título, divertida, ensolorada e mais Beatles impossível (mais alguém lembrou de "Penny Lane"?), além da viajandona "Alligator", com um sabor da fase mais alucinada e psicodélica dos quatro, mas com um DNA que remonta ao britpop.

Já ao lado de Paul Epworth, um dos nomes mais destacados da atual cena inglesa (de Bloc Party a Florence and The Machine, passando pelo igualmente premiado "21", da cantora Adele), McCartney prova que pode ser tão ou mais roqueiro do que a molecada que atualmente ocupa as páginas de recomendações da revista NME, bíblia dos indies. A faixa de abertura, "Save Us", tem mesmo um gostinho de indie britânico, flertando com o eletrônico em uma vibração que resulta em pura energia, iniciando os trabalhos na medida certa. Já a sutileza de "Queenie Eye", com um refrão gostoso e que dá vontade de sair dançando descontroladamente, não esconde o fato de que estamos diante de um piano absolutamente rock 'n roll, que comanda a festa com mais precisão do que uma guitarra conseguiria neste momento.

A experiência folk de Ethan Johns (Kings of Leon, Joe Cocker) transparece em "Early Days", que nos transporta imediatamente a uma cidadezinha do interior enquanto Macca, aqui quase Bob Dylan, relembra seu passado enquanto garoto, ao lado de John Lennon, escrevendo música dentro de casa enquanto procuram alguém disposto a ouvi-la. É a história dos Beatles cantada em versão acústica. Também é ao lado de Johns que McCartney costura a fragilidade de "Hosanna", com uma vibração oriental, meio indiana, que remete a um certo parceiro das antigas que atendia pelo nome de George Harrison.

Mais da metade de "New", contudo, é produzida por Giles Martin – que é ninguém menos do que o filho de George Martin, lendário produtor dos Beatles, considerado uma espécie de quinto integrante da banda. E é justamente sob a batuta de Martin que McCartney se permite ousar um pouco mais. Os críticos foram unânimes na comparação e eu, infelizmente, não consigo fugir dela: "Everybody Out There" é uma faixa mais David Bowie do que Paul McCartney, deixando a gente simplesmente a imaginar como seria uma parceria do velho Macca com seu igualmente talentoso conterrâneo. O irresistível refrão de "I Can Bet" tem um quê de "o que aconteceria se os Beatles surgissem na Londres da virada dos anos 2000?". "Scared", a canção oculta depois de "Road", é uma balada bela e dolorosa ao piano. E eis que "Appreciate", a melhor canção de "New", é também é aquela que mais conversa com a música eletrônica, daquele tipo mais experimental, gerando uma mistura soturna que tem R&B no meio e chega a remeter ao duo francês Daft Punk. Dá pra imaginar? Pois imagine.

"New" pode até dialogar com o passado de Paul McCartney. Mas o músico não se colocou em uma posição confortável e foi tirar a modernidade para dançar. Aprendeu novos passos. Chacoalhou o esqueleto. E provou que, neste festival de pretensos dançarinos, ainda é um dos maiores craques do sapateado.

Tracklist
1. Save Us
2. Alligator
3. On My Way to Work
4. Queenie Eye
5. Early Days
6. New
7. Appreciate
8. Everybody Out There
9. Hosanna
10. I Can Bet
11. Looking at Her
12. Road

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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