Rush: "Beyond the Lighted Stage" é, resumindo, um filmaço
Resenha - Beyond the Lighted Stage - Rush
Por Ricardo Seelig
Postado em 06 de agosto de 2010
Atualmente, não existe trabalho similar ao desenvolvido pelo antropólogo e cineasta canadense Sam Dunn. Apaixonado pela música pesada, Dunn montou uma produtora com o amigo Scot McFayden – batizada, convenientemente, como Banger Films – e começou a produzir documentários sobre o heavy metal e alguns dos seus ícones.
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A história começou em 2005, com o obrigatório "Metal: A Headbanger´s Journey", que conta a história do gênero. Sua sequência, "Global Metal", saiu em 2008. O ótimo trabalho desenvolvido por Dunn nesses dois filmes fez com que o Iron Maiden o escolhesse a dedo para documentar a Somewhere Back in Time Tour, e o resultado foi o também excelente "Flight 666", lançado em 2009. Agora é a vez de outra das bandas favoritas de Dunn, o também canadense Rush.
"Beyond the Lighted Stage" conta a história do trio formado por Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart como ela nunca foi contada antes. De forma reverencial, músicos como Kirk Hammet, Mike Portnoy, Gene Simmons, Vinnie Paul e inúmeros outros mostram como o Rush os influenciou de maneira definitiva.
Sam Dunn equilibra, com grande habilidade por sinal, sua narrativa entre momentos onde a música é o foco principal com outros onde a relação entre os três integrantes do trio e a equipe que sempre os rodeou passa a ser o assunto dominante. Salta aos olhos a profunda amizade entre Lee e Lifeson, e em como a identificação e admiração mútua serviu de raiz para toda a carreira do Rush. A saída de John Rutsey, o baterista original, devido a sua fraca saúde, e sua substituição pelo espetacular Neil Peart é narrada pelos próprios Geddy e Alex, estupefatos e enfeitiçados pelo talento gigantesco de Peart.
Estruturado em capítulos, "Beyond the Lighted Stage" conta a trajetória do Rush de forma cronológica, desde o nascimento de seus integrantes até o último disco de estúdio do grupo, "Snakes & Arrows", de 2007. Dois momentos emblemáticos chamam a atenção. O primeiro acontece quando a banda, em franca ascensão devido à boa repercussão dos discos "Rush" (1974) e "Fly by Night" (1975), viu a sua carreira ser ameaçada pela péssima recepção, tanto por parte da crítica (que sempre os ignorou, diga-se de passagem) quanto de sua própria gravadora, do álbum "Caress of Steel", terceiro disco do grupo, um intrincado manifesto hard prog lançado em setembro de 1975. Como consequência, o grupo começou a tocar em lugares menores e a receber uma grande pressão da Mercury, seu selo, que exigia um single de sucesso.
Fiéis aos seus instintos e acreditando cegamente em sua música, Lee, Lifeson e Peart não cederam, e, no lugar do single requerido, entregaram um álbum baseado em ficção científica, cuja faixa-título era uma suíte de sete partes com mais de vinte minutos de duração! O resultado, o disco "2112" (1976), foi aclamado pelos fãs e deu carta branca para o Rush seguir os caminhos artísticos que bem entendesse em sua carreira.
O outro ponto crucial aconteceu em 4 de julho de 1997, quando o grupo estava na estrada promovendo o álbum "Test for Echo" e recebeu a notícia de que a filha de Neil Peart, Selena, então com 19 anos, havia falecido em um acidente de carro. Buscando forças para se recuperar da tragédia, Neil e sua esposa Jaqueline mudaram-se para a Califórnia, onde menos de um ano depois, em junho de 1998, Jaqueline faleceria vitimada por um câncer fulminante.
Repentinamente sem chão e vendo a sua vida desmoronar diante de seus olhos, Peart pegou a sua moto e viajou desesperadamente e sem rumo por mais de 90 mil quilômetros. Geddy Lee, Alex Lifeson e as demais pessoas próximas ao grupo eram tranquilizados por postais enviados periodicamente por Peart das mais variadas partes do continente americano. Nesse momento a banda esteve seriamente próxima do fim, mas foi reativada pelo próprio baterista, que quando se sentiu pronto propôs à dupla restante o retorno das atividades do conjunto, resultando no álbum "Vapor Trails", de 2002.
"Beyond the Lighted Stage" é um filme emocionante do início ao fim, e mostra uma banda nua e livre de qualquer artifício como poucas vezes se viu. O Rush dá uma aula de integridade artística, respeito aos fãs e fé inabalável em seus princípios. Além disso, traz um segundo DVD repleto de material extra, onde o destaque são vídeos raros com a participação de John Rutsey.
Resumindo, um filmaço!
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