Resenha - Indecente, Imoral e Sem Vergonha - Faichecleres
Por Cristiano Viteck
Postado em 12 de setembro de 2005
Um dos discos mais aguardados do rock independente nacional finalmente viu a luz do dia. "Indecente, Imoral e Sem Vergonha" marca a estréia da banda curitibana Faichecleres em CD (e também em vinil com edição limitadíssima) após quase uma década de boas histórias vividas não apenas na capital paranaense, mas em praticamente todos as regiões e principais festivais do país, como o Goiânia Noise Festival e o Curitiba Pop Festival.

Absurdamente influenciados pelo rock sessentista de nomes como os Beatles, Rolling Stones, Kinks, Sonics e Stooges e também pela sacanagem de bandas como TNT e Cascavelettes, Marcos Gonzatto (voz/guitarra) e os primos Giovanni Caruso (voz/baixo) e Tuba Caruso (bateria/berros) deixam muito claro neste trabalho qual a proposta da banda: fazer música sem firulas e o mais próximo possível do sentido exato do termo rock n’ roll.
É certo que "Indecente, Imoral e Sem Vergonha" foi um dos discos mais embaçados para ser gravado e lançado em toda a história do rock brasileiro. Foi uma longa espera tanto para o público como para a própria banda. Afinal, somaram-se três anos de idas e vindas do estúdio, alterações, regravações e retoques. Tudo para conseguir repetir em estúdio o caos provocado pelo Faichecleres em suas apresentações, as quais renderam o título de Banda Revelação conferido pela revista Dynamite em 2003. Um verdadeira busca pela perfeição (para os padrões do grupo, é claro), em contraponto ao aparente desleixo existente nas músicas, letras e no visual mod com direito a franjinhas e ternos garimpados em brechós - uma das maiores marcas da banda.
Inicialmente um quarteto, a banda foi reduzida a trio em 2001 quando um acidente de carro forçou a saída do guitarrista Charles Britto do Faichecleres. Superado o trauma, o grupo rearranjou as músicas para o novo formato e em 2002 lançou um EP demo contento as faixas "Metida Demais", "Santa Rock n’ Roll" e a forte candidata a hit "Ela Só Quer Me Ter", todas relançadas com uma nova roupagem neste "Indecente, Imoral e Sem Vergonha".
Na verdade, o EP era uma espécie de "esquenta" para o álbum que deveria sair logo em seguida, o que não aconteceu. Para não deixar a peteca cair a banda cruzou diversas vezes o país de cima a baixo, o que só fez crescer a expectativa pelo álbum de estréia, que finalmente ganhou vida.
Ao todo, o CD apresenta 14 faixas (duas a mais do que a edição em vinil), a grande maioria já bastante conhecida pelo público curitibano que durante anos viu o grupo se apresentar semanalmente no Empório São Francisco, local a que os Faichecleres carinhosamente se referem como "o nosso Cavern Club" em alusão ao clube onde os Beatles (uma das maiores inspirações da banda) realizou incontáveis shows no início da carreira. O álbum começa quente com "Aninha Sem Tesão" que transpira The Who por todos os poros e ganha o ouvinte com o corinho "uau-shub-dub-ala-maula-bah!" em meio a versos imorais como "Eu bebo o teu licor/ Aninha Sem Pudor/ Tu come o meu mingau/ Não vai fazer dodói".
Mostrado o cartão de visitas a banda está à vontade para desfilar a sua coleção de ótimas canções, como "A Melhor Amiga", "Bajulações, Modéstia à Parte", "Isso Não é Tão Mal Assim" e "Metida Demais". Tem ainda o uso esperto da cacofonia nas músicas "Ela Só Quer Me Ter" e "A Boca Dela"; a declaração de amor pelo estilo retrô em "O Novo Terno Velho" e a exaltação à loucura do dia-a-dia da banda na estrada em "O Meu Rock n’ Roll". E ainda sobrou espaço para homenagear o ex-TNT e ex-Cascavelettes Flávio Basso (hoje Júpiter Maçã) com uma versão de "Casalzinho Pegando Fogo". Tudo produzido pela própria banda em parceria com o produtor e empresário Ricardo Moura, líder do Bartenders, outra banda de destaque do cenário curitibano. E só para fechar bem o pacote, o CD conta também com uma faixa multimídia com o clipe de "Bajulações, Modéstia à Parte".
Para recuperar o tempo perdido e fazer valer a moral de ser uma das maiores revelações do mod rock nacional, ao lado dos parceiros de farra da Cachorro Grande, o Faichecleres está encarando uma longa turnê por todo o Brasil. O objetivo é passar por mais de 80 cidades espalhando muito rock n’ roll lambuzado de indecência, imoralidade e sem vergonhice. Tudo no mau sentido, é claro.
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