Seasons In The Sun: as diferentes causas mortis de um mesmo moribundo
Por R.F. Rocha
Postado em 09 de maio de 2021
O estilo excessivamente dramático de interpretar canções do multiartista belga Jacques Brel pode ser taxado de tudo, menos de falso. Brel era um ultrarromântico no sentido mal du siècle, um Alfred de Musset moderno.
Apesar de casado a vida inteira com uma mesma mulher, a grande paixão de sua vida foi a atriz Suzanne Gabriello, a amante com a qual viveu um relacionamento intenso e complicado. Após uma das tentativas de Suzanne em deixá-lo, Brel escreveu sua canção mais famosa, "Ne Me Quitte Pas". Quando Suzanne finalmente o deixou em definitivo, Brel escreveu outra de suas obras-primas, "Le Moribond" (1961), em que um moribundo morrendo de amor recebe a extrema-unção de um padre e se despede, alternando doçura e raiva, de sua esposa e do amante que cuidará bem dela quando ele for sepultado.
A letra de "Le Moribond" foi vertida para o inglês pelo poeta Rod McKuen sob o título de "Seasons In The Sun". Embora a versão de McKuen conserve a ideia original de que havia uma esposa infiel ("You cheated lots of times"), o perdão concedido pelo protagonista à infidelidade conjugal ("I forgave you in the end") e a ternura lamentosa exalada pela gravação do grupo folk The Kingston Trio em 1964 sugerem que alguma doença terminal levou o protagonista a reconhecer que sua vida estava chegando ao fim a ponto de sentir necessidade de se despedir com um adieu de pessoas queridas, todas com nome tipicamente francês ("Adieu, Émile. Adieu, papa. Adieu, Françoise.").
Essa hipótese de que um moribundo com alguma doença terminal está se despedindo de pessoas queridas foi fortalecida por modificações posteriores na letra de "Seasons In The Sun". Alterada sem autoatribuição de crédito pelo compositor canadense Terry Jacks, a nova letra foi inspirada na história de um amigo recém-falecido por leucemia, e não mais trazia qualquer menção a esposa infiel. A intenção era que a música fosse gravada pelos Beach Boys sob a produção de Jacks, porém o perfeccionismo doentio de Brian Wilson e o consequente conflito com os demais membros da banda fizeram com que Jacks decidisse gravá-la ele mesmo. Os vocais desapaixonados de aceitação, ainda que relutante, da condição incontornável do protagonista e o riff de guitarra simples e ao mesmo tempo arrebatador fizeram com que "Seasons In The Sun" se tornasse um imenso sucesso mundial na voz do Terry Jacks em 1973.
Durante sua passagem pelo Brasil para os caóticos e grotescos shows no Hollywood Rock, o Nirvana gravou, entre 19 e 21 de janeiro de 1993, no estúdio da BMG Ariola no Rio de Janeiro, algumas demos para seu próximo álbum, "In Utero", que seria lançado em setembro daquele ano. Por mera diversão, a banda incluiu entre as gravações um cover desleixado da versão de Terry Jacks para "Le Moribond", com cada integrante ocupando um instrumento diferente do costume (o guitarrista Kurt Cobain assumiu a bateria, o baterista Dave Grohl ficou com o baixo, e o baixista Krist Novoselic tocou guitarra sem se importar em garantir a afinação), da mesma forma que tinham feito na apresentação de poucos dias antes no estádio do Morumbi, em São Paulo. O título permaneceu o mesmo com o qual McKuen havia batizado a versão em inglês da canção francesa. Não houve nenhuma mudança significativa na melodia, mas as ligeiras alterações na letra da primeira versão em inglês, que podem ser imputadas a improvisações por esquecimento e não por inventividade, e o arranjo depressivo, desalentador, angustiado, com o bumbo da bateria soando como batidas bradicárdicas em direção inexorável a uma parada cardíaca, somados à atitude que Kurt tomaria um ano depois contra sua vida, deixam claro o novo significado da música, uma carta suicida.
A gravação do cover de "Seasons In The Sun" pelo Nirvana só saiu em 2004, no box póstumo com o sugestivo nome de "With The Lights Out".
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