Iron Maiden: a controvérsia causada por "The Number Of The Beast"
Por Igor Miranda
Postado em 21 de março de 2017
Não há registros de uma banda que tenha sido tão boicotada nos Estados Unidos como o Iron Maiden durante a época de lançamento de seu terceiro disco, "The Number Of The Beast". Evidentemente, não foi um comportamento da população em geral, mas, sim, de grupos mais conservadores. Ainda assim, tais pessoas conseguiram fazer muito "barulho" na oposição à banda.
É essencial compreender, de início, o contexto em que "The Number Of The Beast" foi lançado. Em tempos de fim da Guerra Fria, o planeta adotava um pensamento cada vez mais conservador, em contraponto à mentalidade hippie do fim da década de 1960.
Na música, o rock começou a tomar, novamente, o espaço que a disco music havia "roubado" a partir da segunda metade da década de 1970. E o metal exerceu influência nisto - não de forma comercial direta, mas em influência e representatividade entre os jovens.
Bandas britânicas de som pesado promoviam a segunda invasão britânica aos Estados Unidos, bebendo das fontes do punk e do heavy rock praticados na década de 1970. Grupos como Judas Priest, Saxon, Motörhead e Def Leppard começavam a se popularizar na América, enquanto os músicos de lá davam a sua resposta com nomes do porte de Van Halen e Mötley Crüe.
O Iron Maiden despontou como um dos principais nomes desta nova "invasão britânica", mais comedida e segmentada, chamada de New Wave Of British Heavy Metal (NWOBHM). Os dois primeiros discos da banda tiveram boa repercussão e o grupo já era visto como uma referência, apesar de ainda não ter atingido o máximo de seu potencial em termos comerciais.
Em um contexto conservador vivenciado tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, o Iron Maiden resolveu causar com seu terceiro disco, "The Number Of The Beast" (1982). A capa e a temática das músicas do álbum, especialmente da faixa título, são, inicialmente, chocantes.
Quem conhece um pouco da história do Iron Maiden ou deste disco, sabe que a banda não promoveu nenhuma adoração a Satã naquele momento. A música que dá nome ao disco foi inspirada no filme "A Profecia II" e na obra "Tam o'Shanter". Aliás, quase todo o disco tem inspiração em outro trabalho artístico, sejam livros ou longa-metragens, ou na história de antigas civilizações.
Musicalmente, "The Number Of The Beast" foi aclamado desde o seu lançamento. O estreante vocalista Bruce Dickinson era o que faltava para que o Iron Maiden despontasse de vez em proporções mundiais. Com aquela formação, o grupo evoluiu e passou a unir peso, visceralidade e melodia. Era como se Sex Pistols, Deep Purple e Thin Lizzy se cruzassem e gerassem um produto único.
O problema é que a impressão inicial deixada por "The Number Of The Beast" é de que o Iron Maiden era formado por músicos satanistas e transmitiam a mensagem de Lúcifer em suas músicas. E isto gerou a revolta de segmentos mais conservadores da sociedade - em especial, de grupos religiosos nos Estados Unidos.
Eram justamente os Estados Unidos que estavam na mira de Steve Harris e seus asseclas. O Iron Maiden já era conhecido na Europa, mas precisava se estabelecer no principal mercado consumidor fonográfico do mundo. Tanto que a banda havia agendado mais de 100 datas na terra do Tio Sam para a sua então turnê "Beast On The Road Tour", a maior parte como atração de abertura para Judas Priest, Scorpions e Rainbow.
A perseguição conservadora ao Iron Maiden fez com que ativistas religiosos queimassem e quebrassem discos da banda em público, protestassem na entrada de casas de shows onde o grupo iria se apresentar e, por vezes, até carregassem uma cruz de 7,5 metros enquanto pediam boicote aos britânicos. Além disso, houve uma mobilização para que fossem colocados selos nas capas dos álbuns, alertando sobre o "conteúdo subversivo" - uma espécie de pré-PRMC.
Não se sabe, até o momento, se tudo isto foi premeditado por Steve Harris e seus companheiros ou se toda a reação foi uma surpresa para os envolvidos. Fato é que a polêmica fez com que a popularidade do Iron Maiden engrenasse de forma curiosa, pois, aparentemente, muitos adolescentes estavam em busca da mensagem inicialmente controversa que o grupo apresentava.
No fim das contas, a "propaganda negativa" foi revertida com trabalho, que conquistou fãs pelos Estados Unidos. Ninguém faz uma centena de datas em turnê por um país e termina desconhecido.
"The Number Of The Beast" acabou por conquistar uma satisfatória 33ª posição nas paradas da Billboard, nos Estados Unidos, além de obter o topo dos charts do Reino Unido e lugares de respeito nos rankings de Canadá (11°), Áustria (3°), Suécia (7°) e Alemanha (11°), entre outros. Hoje, o disco acumula mais de 14 milhões de cópias vendidas e é citado como um dos trabalhos mais importantes da história do heavy metal.
Comente: Você indicaria o "Number" pra quem nunca ouviu o Maiden, ou indicaria outro álbum?
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