As novas faces do progressivo: After Crying

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Por Roberto Lopes
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O Ummagumma, um fórum que procura discutir o progressivo em todas as suas vertentes, estréia orgulhosamente sua coluna no Whiplash. Esperamos contribuir para a troca de informações sobre esse estilo, tanto nesta coluna quanto no próprio fórum. Ao longo das colunas, procuraremos apresentar algumas bandas, quer atuais, quer mais antigas, que, embora excelentes, não são tão conhecidas. Começamos pelos húngaros do After Crying, uma das melhores coisas que apareceu no progressivo ultimamente.

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Dentro do rock progressivo, a vertente mais conhecida do gênero é aquela denominada como 'sinfônica'. Muitos do grupos mais conhecidos, como Genesis, Yes, Emerson Lake & Palmer, King Crimson e Premiata Forneria Marconi, incluem-se nessa vertente e consolidaram o estilo na primeira metade da década de 70. Mas se a vertente sinfônica consolidou o progressivo, a mesma foi a principal "vítima" da ascenção do punk rock e da discoteca a partir de 1977. Seja perdendo público ou sofrendo duras críticas de grandiloqüência e pomposidade, essa vertente passou a década de 80 combalida e enfraquecida, com muitos grupos ou no limbo ou tentando se adaptar aos novos tempos (alguém aqui se lembra de "Owner of a lonely heart" e "Invisible touch?); praticamente nenhum foco de renovação para esse subestilo surgiu e parecia que os bons grupos do gênero ficariam restritos aos anos 70.









Mas foi na primeira metade dos anos 90, em um período em que o grunge, o metal e o rock alternativo davam as caras no cenário musical e uma crítica especializada ainda torcia o nariz para o estilo, que surgiram bandas que deram novo ânimo e propostas para o rock progressivo. Uma delas foi o After Crying. Oriundo do leste da Europa, da Hungria especificamente, o grupo não só foi um desses exemplos de renovação, mas talvez uma das bandas mais sofisticadas e elegantes que surgiram dentro de todo o rock progressivo. As origens do grupo remontam de fins dos anos 70, quando alguns músicos fortemente influenciados pela música clássica e de câmara, mas também de rock progressivo, fizeram algumas apresentações e ensaios pelo país por alguns anos. Em 1986, o After Crying foi oficialmente formado, inicialmente como um trio acústico, com os futuros líderes da banda Csaba Vedres e Pete Pejtsik nessa formação. Contudo, devido às dificuldades advindas da forte censura comunista sobre a cultura húngara, só com o colapso do regime em 1989 é que o grupo teve oportunidade de gravar e lançar seu trabalho (apesar de existirem registros de gravações do grupo entre 1988-9, disponibilizadas na coletânea "1989", lançada em 2007, além de "Opus 1", de 2009, que disponibiliza apresentações ao vivo da banda na Europa, também entre 1988-9).

O primeiro disco da banda, "Overground music", de 1990, é um trabalho quase que totalmente acústico, com instrumentos como violoncelo, violino, viola, piano e trompete sendo a base principal das músicas. Nesse sentido, o grupo lembrava muito mais uma orquestra de câmara do que um grupo de rock. As influências sonoras eram um misto de música clássica, notadamente o principal ícone húngaro do estilo, Bela Bartók, elementos regionais, um pouco de jazz, Frank Zappa (óbvias na faixa "Europeans things... hommage a Frank Zappa") e King Crimson circa 1971 (também evidentes na faixa "Don't betray me"). Apesar do sofrível vocal em inglês e de o grupo ainda titubear em alguns momentos, é um trbalho de elevada qualidade e com uma sonoridade diferenciada do que era feito no progressivo sinfônico. A repercussão do trabalho foi limitada, mas suficiente para o grupo continuar sua carreira.

Em seu segundo trabalho, "Megalázottak és megszomorítottak", de 1992, que significa "Humilhados e ofendidos", título tirado de um romance de Dostoiévski, mostrou não só que a proposta e a sonoridade do grupo estavam muito mais evoluídas e amadurecidas, mas revelou também um dos mais belos trabalhos ligados ao progressivo nos anos 90. Logo na primeira faixa, a longa suíte "A gadarai megszállott", talvez a melhor faixa do grupo, momentos melancólicos e sombrios se alternam com passagens de grande beleza, mesmo que de forma mais funesta e triste se comparado com o trabalho anterior. Novamente elementos da música clássica, com diversos instrumentos clássicos sendo utilizados, da música regional húngara e de grupos como ELP (em sua faceta acústica) e o King Crimson circa 1969-71 foram reunidos para formar uma sonoridade diferenciada e única. As outras músicas, com destaque para a faixa-título, mantinham o excelente nível do trabalho, melhorados com os bons vocais, agora em húngaro. "Megalázottak..." foi o disco que consolidou a carreira do grupo e o colocou no mapa do rock progressivo.

O terceiro trabalho, "Fold és ég", de 1994, marcou mudanças na proposta musical do grupo. Bem mais elétrico, em que o baixo e guitarra pela primeira vez apareceram no seu som, o grupo dirigiu sua música para uma sonoridade mais ligada ao rock, evidentes em faixas como "Mantícore érkezése I e II" e "Rondo", com nítida influência de ELP em sua face mais "pesada". Faixas como "Puer natus in Bethlehem" e "Bár éjszaka van" já seguiam a linha "regional", e a última e melhor música, "Kétezer év", era um misto desses dois lados da banda. Durante a turnê para a promoção desse trabalho, o então líder da banda, Csaba Vedres, querendo trilhar outros caminhos musicais, decidiu sair do grupo, seguindo posteriormente com um irregular projeto chamado Townscream. Esse fato foi importante para a posterior mudança de rumo na sonoridade da banda no fim dos anos 90.

Não obstante, o primeiro disco sem seu líder, "De profundis", de 1996, mostrou que, aparentemente, a banda não tinha sentido de imediato sua saída. Seguindo praticamente a mesma linha do disco anterior, apenas com uma queda para uma sonoridade mais rock, o disco possuía belas faixas como "Stalker", "Esküszegök" e "De profundis". Esse trabalho marcou o fim da fase áurea do grupo, pelo menos em estúdio, e foi o último disco que uniu de forma eficiente a música clássica, a música húngara e o rock progressivo.

A partir daí, o grupo seguiu uma interessante contradição em sua carreira. Em estúdio, buscou trabalhos com uma roupagem mais comercial e acessível, com considerável perda de qualidade. De fato, "6", de 1997, "Snow", de 2003 e "Creatura", lançado em 2011, não eram ruins de todo, mas nem de longe lembravam o grupo em seus quatro primeiros trabalhos de estúdio. A receptividade fria de público e crítica confirmou a opção equivocada do grupo nesses trabalhos. Por outro lado, o grupo mantém até hoje sua proposta de unir instrumentos de câmara e rock em suas apresentações, mantendo a boa receptividade do público nesse aspecto. Trabalhos como "Struggle for life", de 2000, que conta com a participação do ex-King Crimson John Wetton na faixa "Starless", e "Bootleg symphony - koncertszimfónia", de 2001, mostraram a outra face da moeda desse "novo" After Crying.

Apesar do grupo não ter mantido uma regularidade nos mais de 20 anos de carreira, o grupo húngaro, pelo menos em seus quatro primeiros trabalhos de estúdio, representou uma nova geração de bandas ligadas ao progressivo sinfônico que deram novas propostas para essa vertente do progressivo, que parecia até então estar fada a viver de "glória passadas".

Discografia recomendada: "Overground music" (1990), "Megalázottak és megszomorítottak" (1992), "Fold és ég" (1994), "De profundis" (1996).


Roberto Lopes, 27, é arquivista e moderador do Ummagumma, onde é conhecido como bobblopes. O Ummagumma é um fórum que procura discutir todas as vertentes do progressivo. Todos estão convidados a visitá-lo e discutir a música progressiva, desde os medalhões sinfônicos até as bandas mais experimentais.




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Sobre Roberto Lopes

Arquivista, professor, cientista da informação e pseudo escritor de música nas horas vagas. Apesar de mais focado no Rock Progressivo e clássico, também curte metal, punk, rock alternativo e indie Rock.

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