Shows do AC/DC são épicos – quem já presenciou um, ou mesmo assistiu a um DVD da banda, sabe bem do que estou falando. O mais puro rock n'roll, a energia inesgotável de Angus Young e Brian Johnson, os muitos recursos visuais de palco e a química única daqueles cinco simpáticos senhores australianos com o público são ingredientes que tornam seus espetáculos verdadeiros épicos.
O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.








E nesta sexta-feira (27/11/2009), num Estádio do Morumbi (São Paulo) tomado por mais de 65 mil fãs, o AC/DC conseguiu adicionar uma façanha em seu currículo já irretocável: até a chuva parou para vê-los e ouvi-los tocar. Precisa falar mais alguma coisa?
Como diria o poeta, "chovia a cântaros" na Zona Sul da capital paulista até por volta das 21h. Quem se encaminhava ao Morumbi, ou quem já estava no estádio à espera do show, foi castigado por uma chuva que não dava mostras de que poderia parar. Mas até São Pedro, o dono das chaves do Céu e comandante da grande central meteorológica da Terra, quis prestar o seu tributo ao AC/DC. Sim, pelas duas horas de espetáculo que viriam a seguir, não seria demais concluir que Angus Young e Cia. fizeram a chuva parar.
O primeiro – e único – show do AC/DC no Brasil após intermináveis 13 anos de espera tinha mesmo uma aura toda especial. Desde a batalha desumana para adquirir ingressos, comparável à vergonhosa venda de tíquetes para a turnê de Madonna em 2008, até o nosso inevitável ciúme em ver que a banda marcou três shows seguidos em Buenos Aires (2, 4 e 6 de dezembro, no estádio do River Plate) e apenas um no Brasil, tudo aumentava a expectativa para uma apresentação perfeita no Morumbi. Mas o final justificou todos os meios.
Se, por um lado, a escassez de datas no Brasil minou as oportunidades de milhares e milhares de fãs pelo país afora, a exclusividade do show em São Paulo transformou o Morumbi num bonito mosaico de sotaques. Desde o "paulistês" carregado do interior até os tons inconfundíveis de quem veio do Nordeste, era possível ouvir de tudo ao redor e dentro do estádio. Este cronista, por exemplo, teve a oportunidade de acompanhar um casal de amigos americanos ao show. Acostumados a grandes espetáculos em organizadas arenas de Chicago e Houston, eles se impressionaram (e também se assustaram, é verdade...) com o mundaréu de gente, com a civilizada baderna, com o trânsito simplesmente surrealista e com a devoção inflamada dos fãs brasileiros.
Mas falemos do show, que começou com espantáveis cinco minutos de atraso (nem dá para chamar isso de atraso). Às 21h35, os refletores se apagaram para revelar um mar de luzinhas vermelhas piscantes – as tiaras de chifrinhos vendidas a R$ 10 na porta do estádio, compradas por pelo menos um terço da platéia. Os telões, de resolução perfeita, começaram a exibir o desenho animado de abertura: uma aventura da banda dentro de um trem descontrolado e em altíssima velocidade – o "Rock N' Roll Train", música de abertura do álbum "Black Ice". Aos primeiros acordes das guitarras de Angus e Malcolm, uma gigante locomotiva abriu caminho no palco para mais um show do AC/DC.
"Não falamos bem 'brasileiro' (sic), mas falamos rock n' roll", disparou Brian Johnson ao saudar a platéia. Nem deu para rir com o erro macarrônico do simpático vocalista, pois "Hell Ain't a Bad Place to Be" e a espetacular "Back in Black" chegaram na sequência para tirar o fôlego da galera.
"Big Jack", a segunda das quatro músicas de "Black Ice" executadas, foi muito bem recebida e comprovou que os discos novos do AC/DC são trabalhados à perfeição – é por isso que a banda opta por hiatos de sete anos ou mais entre seus lançamentos recentes, em vez de se arriscar a soltar discos 'meia-boca' a cada dois anos (infelizmente, muitas boas bandas das antigas parecem ainda não ter aprendido esta lição...). "Dirty Deeds Done Dirt Cheap" (uma das melhores músicas da noite), "Shot Down in Flames", "Thunderstruck" (igualmente maravilhosa) e "Black Ice" (outra novidade do repertório) arrebataram o público, que se divertia como nunca em um Morumbi já completamente sem chuva.
"Esta música é sobre uma vagabunda... ", anunciou Brian Johnson, entre risos e acordes distorcidos da guitarra de Angus. "Esta música se chama 'The Jack'", completou, para delírio da galera. Mostrando estar no espírito da música, uma das moças da platéia não teve dúvidas ao se ver no telão: levantou a blusa e exibiu o sutiã para todo o Morumbi apreciar.
Que tal uma pausa para respirar? Nunca... O sino gigante desceu ao centro do palco para anunciar, com suas badaladas inconfundíveis, que "Hells Bells" estava prestes a começar. Depois dela, "Shoot to Thrill" manteve as gargantas aquecidas e abriu caminho para a animada "War Machine", último petardo da lista de "Black Ice" no set atual.
Fazendo jus ao seu caráter épico, o show entrou na reta final com uma sequência de clássicos inesquecíveis: "Dog Eat Dog", "You Shook Me All Night Long" (cantada em uníssono) e "T.N.T." (pesada e arrebatadora). Ao chamar "Whole Lotta Rosie", Brian Johnson brincou: "Trouxemos uma antiga namorada para o show de hoje..." – foi a senha para uma gigante e corpulenta Rosie inflável, de provocantes luvas, sutiã e cinta-liga vermelhas, tomar forma montada na locomotiva do Rock N' Roll Train que adornava o palco. Para o fecho perfeito, um clássico atemporal: "Let There Be Rock", ilustrada por um emocionante videoclipe com imagens dos mais de 35 anos de carreira da banda e ainda emendada por um insano solo de quase 20 minutos de Angus Young. Sim, àquela altura do campeonato ele ainda era capaz de correr para todos os cantos do palco, provocando os fãs e dedilhando acordes distorcidos em sua guitarra.
É claro que ninguém arredou o pé do estádio diante do falso adeus de Brian Johnson. Poucos minutos depois, um alçapão esfumaçado se abriu no meio do palco para mostrar Angus Young saindo direto da estrada do inferno: "Highway to Hell" abriu o bis com toda a autoridade possível. Lindo, mas também triste, pois todos sabiam que o show chegava ao fim, foi ver os canhões se posicionando ao som das notas de "For Those About to Rock". Execução perfeita, salva de tiros e muita ovação marcaram a despedida de Angus, Malcolm, Brian, Cliff Williams e Phil Rudd. Acabou? Não exatamente: uma queima de fogos estonteante foi a cereja do bolo de um show que beirou a perfeição. Não foi à toa que até a chuva pagou tributo e ficou calada durante todo o restante da noite.
Se o AC/DC saúda todos que curtem rock n' roll, o Brasil teve o privilégio de saudar, mais uma vez, uma das melhores e mais respeitadas bandas de todos os tempos. Tivesse São Paulo recebido mais shows do AC/DC ao longo dos anos, talvez o apelido de "Terra da Garoa" nem existiria.
AC/DC – São Paulo (Morumbi) – 27/11/2009
Rock N' Roll Train
Hell Ain't A Bad Place To Be
Back In Black
Big Jack
Dirty Deeds Done Dirt Cheap
Shot Down In Flames
Thunderstruck
Black Ice
The Jack
Hells Bells
Shoot To Thrill
War Machine
Dog Eat Dog
You Shook Me All Night Long
T.N.T.
Whole Lotta Rosie
Let There Be Rock
(Bis)
Highway To Hell
For Those About To Rock (We Salute You)
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Paulistano, são-paulino, nascido nos "loucos anos 70" (1979 ainda é década de 70, certo?) e jornalista. Sua profissão já o levou a cobrir momentos antológicos da história da humanidade, como o título paulista do São Caetano, a conquista da Copa do Brasil pelo Santo André, a visita de Paris Hilton a São Paulo e shows de bandas como Judas Priest, Whitesnake, W.A.S.P., Megadeth, Slayer, Scorpions, Slipknot, Sepultura e por aí vai. Ainda tem muito gás para o nobre ofício jornalístico, mas acha que não vai muito mais longe depois de ter entrevistado Blackie Lawless, Glenn Tipton, Rogério Ceni e, claro, Paris Hilton.
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