Edu Falaschi: desabafo é legítimo e uma cortina de fumaça

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Edu Falaschi: desabafo é legítimo e uma cortina de fumaça

Postado por Daniel Junior | Fonte: Aliterasom

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O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

O vocalista do Angra e do Almah abriu o coração (e a boca, obviamente) para os colegas do Rock Express no dia que deveria “celebrar” o “Dia do Metal Nacional” -- no último dia 06 de novembro, num encontro que reuniu, além do próprio Almah, Shaman e outros nomes da cena brasileira. Pelo dito, não houve êxito no evento que acabou segregado a um pequeno número de pessoas embora tivesse recebido uma estrutura profissional. Durante quase 10 minutos, o músico faz um desabafo emocinado e confessional sobre o que pensa do povo brasileiro quando o assunto é “banda nacional” e o apoio que é (?) recebido por estes grupos. Quem não viu, o vídeo taí abaixo, pode dar uma olhada e chegar a algumas conclusões.

Edu Falaschi: desabafo e declaração polêmica de vocalista

Eu vou sequenciar os assuntos de acordo com as falas e assim, fica mais fácil para você leitor acompanhar. O debate é rico e ficaria muito decepcionado se, a partir dessa fala, alguma providência não fosse tomada, sobre isso, falamos durante os comentários. Não vou ser literal nas falas do Edu e o que você vê abaixo é a minha versão mais limpa mas não menos intensa dos dizeres do músico brasileiro

1) “O povo brasileiro paga pau pra gringo pois os shows internacionais lotam, enquanto as bandas nacionais investem dinheiro e estrutura para verem suas apresentações acontecerem para menos de 1000 pessoas (em média).” “Nós gravamos cds para vocês e vocês não vão aos shows”.

- Fato. Eu apenas acho que o Edu está fazendo uma confusão para quem ele dirige o discurso. A fala do vocalista tem sentido, mas a direção do discurso é equivocada e eu vou tentar explicar o porquê.

Já disse diversas vezes no Aliterasom, no Whiplash, nos podcasts, no twitter e onde houver espaço para uma reflexão, que o rock além de um estilo “maldito” também é uma opção de entretenimento para uma geração que não está nem aí para o que está acontecendo no palco, quantos anos de carreira tem a banda, quantos discos vendidos e se aquela é a formação original. Hoje, o público que “lota” festival é composto pelo mesmo grupo que vai socar uma micareta de gente pulando e gritando ‘iê iô’, ‘iô iê’. Quando o Iron toca para 20, 30 mil pessoas no Brasil, não está tocando para 20, 30 mil pessoas fãs de Iron. Está tocando para um grupo de fãs de Iron, para um grupo de fãs de rock (tradicional), para um grupo de fãs de rock (contemporâneo) e para um grande grupo de pessoas que é fã de NADA ou de QUALQUER COISA. Para estas pessoas -- e não discuto o valor ou papel delas -- o que importa é a muvuca, a sarração e aparecer na televisão como sendo da ‘moda’. Ter ingresso do Rock In Rio ou do SWU é mais do que um momento de curtir um show bacana e trocar experiências, para algumas pessoas é status.

Quando o negócio é “à vera” só vai gastar seu dinheirinho suado, que se divide em parcelas no cartão de crédito para assistir os trocentos shows que existem no Brasil, aquele cara que é fã de rock and roll mesmo! Tivemos Judas, Ozzy, Aerosmith, Pearl Jam, Black Label Society, Whitesnake, Pearl Jam, Paul McCartney…. Fora os festivais! As oportunidades de ver algumas bandas no Brasil novamente são quase ZERO e, priorizar alguns shows não é um erro é uma questão econômica e às vezes, até logística. Eu tenho certeza que o fã que gosta de metal nacional vai aos shows mas uma verdade maiúscula precisa ser dita em alto e bom som: o Brasil não é o país do Metal! Não adianta forçar o público brasileiro a dar força para o que é tupiniquim que ele vai na Rihanna mas não assiste o Korzus. Questão enraizada e cultural, fora os motivos expostos acima.

Em suma, ele (Edu) tem razão mas o assunto não se limita a pagar pau pra gringo. Outra coisa: sem esse papo de que banda faz disco para fã. Banda faz disco pra ela e ponto final. Ninguém é romântico, em tempos tão sinistros da indústria do cd achar que banda vai gastar uma grana suada para pensar em público. É redundante e contraditório. Banda de rock também faz a arte e a premissa de um disco é ter o que dizer, se não há o que ser dito, não se grava disco, mas todos os critérios passam pelo crivo da banda e não do público. Se o público se identifica, ótimo. Se não, o exterior (Europa e Ásias) costuma ser mais cúmplice de mudanças radicais ou de discos que não caem na graça de quem ouviu.

2) “Não diz que me ama nas redes sociais, eu não preciso de elogios, você tem que comprar ao cd e ir aos shows”. “O projeto do André Mattos (Symfonia) tocou recentemente em São Paulo para 100 pessoas”.

Por partes. Vou dar indulto ao Edu porque ele estava chateado e nervoso (com alguma razão) e se alguém possui legitimidade para falar essa pessoas é ele, pois vive do e para o meio. Dito isso, todo o carinho dos fãs -- e é o que resta -- deve ser levado em consideração como uma das motivações de se continuar uma trajetória. As proporções de um trabalho, a dimensão de uma carreira são assuntos extremamente imponderáveis, mas não se pode menosprezar em momento algum -- mesmo que essa expressão tenha pouco valor prático -- o carinho e o respeito do fã seja por qual canal que ele se manifestar. Por isso bola fora…

Comprar cd? Em qual planeta você está, cara pálida? Este mesmo público que você está apontando sua metralhadora neste momento, é o mesmo que fica se gabando nas redes sociais com as hastags #vazouonovodoalmah , #novodolacunacoilvazou #obavazouumadodreamtheater. Ele não tem mais compromisso (essa geração talvez nunca tenha tido) com o material oficial da banda e por conseguinte já não possui a mesma disposição de estar nos shows da sua banda “preferida” porque tá TUDO EM DVD, BLUE-RAY e YOUTUBE. Por incrível que pareça, porque um moleque de 20 anos vai sair de casa e pagar 60 pilas (quando chega a isso) para assistir um show que em sua maioria vai seguir o seguinte script?

- Som deplorável;

- Banda de abertura tocando no talo com o som deplorável;

- Confusão na entrada e na saída do show;

- Desorganização na venda de ingressos;

- Falta de dinheiro!

O trabalho de divulgação dos shows deveria ser de todas as assessoria das bandas (eu recebo dezenas de e-mail por dia e divulgo-os todos no Aliterasom), com trabalho nas rádios (que restam) ou pressionando canais como Multishow e Mtv para proliferação de informação e agenda de pequenos concertos, festivais e eventos. Não basta rede social, não basta boca à boca, não basta reclamar. Onde estão as grandes publicações mensais para trabalharem em “sociedade” com a cena metal e fortalecer o segmento? Os shows são fracos de público (não em qualidade) porque o trabalho de agenda e divulgação é precário e amador. Edu fala como se todo o trabalho que envolve a produção de espetáculos no Brasil funcionasse com certa mobilidade e força quando sabemos que tudo que se refere à rock no Brasil, especialmente no metal, engatinha, engatinha e engatinha…

Quanto ao Symfonia e André Mattos algumas observações. Primeiro lugar: os músicos envolvidos no processo possuem importância e relevância no universo do rock mundial. Não dá para desconsiderar o papel do André -- talvez -- o nome mais importante desta história por todas as banda que ajudou a construir, por ser talentoso e guerreiro e por colocar o nome do Brasil nas linhas honrosas do metal mundial. Feita às reverências, diga-se o ululante: este trabalho não acrescenta uma vírgula de credibilidade ou criatividade à longa carreira do cantor, já que é um power metal chato, insípido e repetitivo à esmo por qualquer bandeca europeia. Ao invés de reclamar dos 100 que foram, agradeça-os. São verdadeiros herois por terem investido um tempinho para ouvir os agudos do vocalista com um projeto MUITO menor do que tudo que o André ja construiu até aqui. Minha opinião.

3) “É a morte do metal nacional. É uma pena por terem 300 pessoas aqui. É uma pena ter 100 pessoas no show do André Mattos. É uma pena ter 300, 200 pessoas no show do Sepultura em Curitiba… Se eu der uma festa de aniversário dá mais gente que isso”.

Não sei se você reparou Edu, mas acabou Rock In Rio, uma porrada de bandas estão tocando no Brasil todo e ainda tem SWU com Megadeth! Cara você vai me desculpar mas as pessoas precisam priorizar. Quem é que tem dinheiro para estar em todos os shows que gostaria? Eu nem sei se o Dia do Metal foi gratuíto (acredito que não) mas não dá para marcar show esperando que todo mundo vá que não rola! E mais, se a cena metal morrer, como você diagnosticou, parte do público é culpado? É. Mas as bandas são as principais responsáveis por tratarem de maneira amadora o mercado nacional, sem fazer as devidas adaptações ao jeito tupiniquim de entender o metal. Não dá para esperar que o público brasileiro se comporte como o europeu porque não é assim que as coisas funcionam. Pela experiência de caras como você, não dá para ficar esperando romantismo! O povo brasileiro é modista e coloca no mp3 player Luan Santana e Evanescence, Chiclete com Banana e Bon Jovi, Ivete e Paramore. Acabou a fidelidade ao estilo! Não dá para contar com a maioria da audiência, cada dia mais gostando de tudo e “entendendo” de nada.

4) “Eu viajei o mundo inteiro e vi que os outros países prestigiam as suas bandas de metal, enquanto no Brasil só temos Angra e Sepultura”.

Pois é Edu. Enquanto os artistas não encararem a nossa realidade, por pior que seja, serão estas bandas as lembradas (em detrimento de tantas outras como Ratos de Porão, Dorsal, Korzus, Shaman e tantas outras em seus estilos) como as representantes da cena nacional. E lamba os dentes, porque a máquina algum dia interessou-se em fazer “comercial” do Sepultura como produto legitimamente brasileiro, exportando nossa batucada misturada com guitarras para gringo consumir e dizer que é diferente. Um dia, interessou à máquina, mostrar que uma banda brasileira poderia fazer um power melódico tão envolvente e competente quanto qualquer banda gringa. Um dia. Ou ninguém se lembra que até o Shaman colocou música em novela? Os tempos são outros. As medidas deveriam ser outras e o discurso que cabe aqui não deveria ser paternalista e ufanista e sim, realista e cheio de providências mais elaboradas para que o metal não definha.

5) “Os contratantes cobram preços absurdos e o púbico paga e ainda inventaram a tal da pista VIP para extorquir mais dinheiro de vocês”.

Não acho que para defender seu mundo precise apontar para os ‘mercantilistas’ do rock como culpados do status quo. Se as bandas acham isso um absurdo deveriam ser as mesmas a tomarem medidas para proteção da sua idoneidade e carinho pelo bolso do público. O problema não vem de hoje e passa pelo amadorismo das bandas e seus assessores. Por que as bandas não se reuniram com a iniciativa privada para promover grandes pólos de eventos no País inteiro? Por que não aproveitar a “onda” rock que tomou o país em 2012, por conta do Rock In Rio, e pensar em projetos sérios com atrações de fora e bandas nacionais tocando em condições IGUAIS? Por mais louvável que seja basta marcar o “O Dia do Metal Nacional” e esperar que o público se conscientize? Ei, olhe ao seu redor! O povo brasileiro não sabe votar! Os mais discrepantes absurdos passam todo dia nos olhos da população brasileira e a sociedade discute se Neymar é melhor que Messi, se o Rafinha Bastos é o capeta ou o cara ou mesmo, se o Anderson Silva é uma espécie de Ayrton Sena dos tempos modernos, com seu carisma e vigor em TODOS os canais de televisão! Vocês acham que o povo brasileiro tá interessado se as bandas são unidas ou não, se o calendário e agenda dos shows é justa ou não? Estamos no Brasil, pátria de analfabetos e arrogantes digitais que vivem no universo de seus quartos, opinando por trás de um avatar de beleza estética e de burrice mental. Se os contratantes conseguem empurrar no rabo do público valores exorbitantes é porque o público aceitou o KY. Ou seja, alguma coisa tem sido feita da maneira certa do modo errado. Tomem providências.

6) “O Nordeste tem sido um lugar legal para apresentações de banda mas e o resto do país? Vocês precisam comprar material, ajudar a banda divulgando e indo aos shows”.

Lógico. O Nordeste participa porque é carente de programações voltadas para o rock. Portanto, é muito lógico, que lá, as pessoas prestigiem as poucas oportunidades que existam em comparação com o público do Sudeste, hoje, vítima de overdose de bandas de todo o lugar do mundo. Recentemente o Sirenia tocou no Recreativo Caxiense, berço do funk da baixada fluminense no municipio de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Com isso estou querendo dizer que, até os gringos, dos lugares mais distantes (aqui no caso Noruega) vem ao Brasil, divulgar sua música, nos lugares mais improváveis. Para 5000? Para 3000? Não! Para no máximo 500, 700 pessoas! Atravessam oceanos e continentes para tocarem para no máximo 1000 pessoas! Este não é um “privilégio” do Almah ou do Angra, isso é um cenário ruim, sectário e proselitista, de quem preferiu ser maldito do que popular, porque achou que “popularidade” rimava com “falta de qualidade”. Tolice. Hoje o rock em suas vertentes mais radicais, paga o preço de se esconder nos muros que ele mesmo fez questão de construir, quando não, “carimbou” o rótulo que lhe imputaram durante anos e anos de perseguição. Seja da religião, seja dos meios de comunicação. Engraçado, no início de carreira, o discurso de toda banda é voltado para diversão. Depois…

Daí pra frente o Edu faz comparações esdrúxulas. No discurso do cara falta coerência. As carreiras das bandas que ele citou são consolidadas e recebem o marketing GRATUITO de tudo que é meio de comunicação. Da vida particular ao vazamento de uma faixa escondida. Tudo contribui para que shows de banda como Guns n Roses e Bon Jovi lotem. O público sabe quem elas são, ora bolas! Com todo o respeito que eu tenho pela história de umas bandas guerreiras como Stress e Salário Mínimo, mas alguém conhece? Alguém sabe da luta e da biografia destes (hoje) coroas que faziam metal no Brasil em condições PRECÁRIAS? Não respeitamos a nossa história que conhecemos quanto mais a trajetoria do que desconhecemos. Por preconceito, por ignorância, por tantos e tantos motivos que ficaria dias enumerando nossos problemas sociais graves e másculos. Os shows brasileiros não ficam vazios porque os shows gringos estão repletos. São fatos que possuem ingredientes em comum mas não estão co-relacionados, ou seja, não é causa x efeito.

Enquanto um trabalho maduro e profissional, calcado na trajetória e história de bandas com menos pedigree, não for imitado e entrar no DNA das bandas, vamos correr atrás do próprio rabo. O Brasil é um país continental e indevidamente mal explorado porque não sabemos fazer! É preciso mais que discurso, é preciso um real interesse dos principais interessados que a cena seja menos romance e mais porrada, no sentido menos intenso da palavra. Apontar o dedo pro público pode até gerar um burburinho momentâneo que vai se basear em valores como “certo” e “errado” mas não vai sair do lugar. É preciso planejamento, organização, calendário, iniciativa, parcerias, um olhar comercial, uma visão empreendedora e fugir dos tribunais de “culpados” e “vítimas” porque isso só irá acelerar o diagnóstico do Edu.

Por último: toda agressão gratuíta não gera nada além que outros tipos de agressão. Sobrou pro Restart. A melhor forma de “respeitá-los” é “ignorá-los”, mas, em cada birrinha ou briguinha, uma publicidade não planejada, “favorece” a imagem de vítima do grupo ex-colorê. Ninguém cita o Angra ou Almah em seus discursos… Alguma explicação?

twitter: @aliterasom

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Sobre Daniel Junior

Daniel Junior, editor chefe do PipocaTV, administrador do Aliterasom e colaborador do Leitura Esportiva. Ama séries de tv, rock e tecnologia. Colaborador do site Whiplash desde 2009.

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