Os ícones do metal que faziam Robert Plant sentir vergonha da própria influência
Por Bruce William
Postado em 10 de junho de 2026
Robert Plant nunca pareceu muito confortável quando o Led Zeppelin era colocado dentro do heavy metal. A banda ajudou a formar parte da linguagem que depois seria associada ao gênero, especialmente pelo peso dos riffs, pela força da bateria de John Bonham e pela voz aguda e dramática de Plant. Mas, para ele, havia uma distância grande entre aquilo que o Zeppelin fazia no começo dos anos 70 e a estética que o metal passou a exibir na década seguinte.
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Essa resistência apareceu de forma bem clara em uma entrevista publicada pela revista Q em março de 1988 (via Robertplanted.com). Ao ver uma imagem do Judas Priest, banda de Birmingham que ajudou a definir o visual metálico de couro, tachas e pose ameaçadora, Plant reagiu com incômodo. "Se eu sou responsável por isso de alguma forma, então estou muito, muito envergonhado", disse o vocalista.
Plant enxergava como uma transformação do hard rock e do heavy metal em encenação previsível. Ele via uma espécie de teatro comercial em torno da rebeldia, como se parte daquele universo tivesse virado embalagem: pose demoníaca na foto, ameaça calculada, figurino marcante e, por trás disso, uma relação muito mais domesticada com a indústria.
Na mesma entrevista, Plant ironizou esse tipo de imagem. "Hard rock, heavy metal hoje em dia é apenas dizer: 'Venha me comprar. Estou aliado ao Diabo - mas só nesta foto, porque depois disso vou ser bem bonzinho e um dia vou crescer e virar empresário de um grupo pop'", afirmou, em frase mostranod que o problema, para ele, estava menos no peso da música e mais na sensação de falsidade que via naquele personagem vendido ao público.
E olha que o Judas Priest não era uma banda qualquer dentro dessa história. Formado também em Birmingham, o grupo teve papel importante na consolidação do heavy metal como linguagem própria, especialmente a partir da segunda metade dos anos 70 e começo dos anos 80. Álbuns como "Sad Wings of Destiny", "Sin After Sin", "Stained Class" e "British Steel" ajudaram a definir uma sonoridade mais metálica, rápida, precisa e visualmente mais codificada do que a geração anterior.
Plant, no entanto, vinha de outro lugar. O Led Zeppelin podia ser pesado, mas também transitava por folk, blues, música acústica, experimentações orientais e longas dinâmicas de estúdio. Mesmo nos momentos mais intensos, o grupo não parecia interessado em se apresentar como uma banda de "metal" no sentido que a palavra ganharia depois. Para Plant, ressalta a Far Out, a teatralidade dos anos 80 talvez soasse como uma caricatura de algo que, em sua origem, havia sido mais instintivo e menos calculado.
Isso não apaga a influência do Led Zeppelin sobre o metal. Pelo contrário. Bandas posteriores pegaram elementos do grupo - volume, dramaticidade, riffs, vocal alto, sensualidade, peso e ambição - e levaram para outros caminhos. O problema é que nem sempre os criadores gostam de olhar para seus herdeiros. Às vezes, o filho estilístico cresce, veste couro, coloca tachas, posa com cara de mal e o pai musical prefere fingir que não reconhece o parentesco.
A reação de Plant diz muito sobre essa relação complicada entre influência e controle. O Led Zeppelin ajudou a abrir uma porta que outros atravessaram de maneiras bem diferentes. Algumas ele talvez admirasse, outras não. No caso do metal mais teatral dos anos oitenta, a sensação era de constrangimento. Para ele, o perigo não estava em soar pesado, mas em transformar o peso em figurino, slogan e produto.
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