A música dos anos noventa que Lars Ulrich levaria até para a vida após a morte
Por Bruce William
Postado em 09 de junho de 2026
Lars Ulrich sempre foi um personagem fácil de dividir opiniões. Para alguns, é o baterista que ajudou a transformar o Metallica em uma das maiores bandas do planeta. Para outros, é alvo permanente de piadas sobre técnica, viradas e escolhas ao vivo. Só que reduzir Lars a essa discussão é perder uma parte importante da história: antes de ser milionário do metal, ele era um fã obcecado por bandas que muita gente ainda nem conhecia.
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Esse lado fã nunca desapareceu totalmente. Mesmo depois do estouro gigantesco do "Black Album", lançado em 1991, Lars continuou falando de suas bandas favoritas como alguém que ainda queria espalhar aquelas descobertas. Diamond Head, Motörhead, Mercyful Fate e vários nomes da cena europeia entraram no vocabulário do Metallica não como referência distante, mas como alimento direto para a formação da banda.
O Mercyful Fate ocupava um lugar especial nesse imaginário. A banda dinamarquesa liderada por King Diamond misturava riffs afiados, clima sombrio e uma teatralidade que parecia saída de um pesadelo adolescente. Para garotos formando uma banda de metal no começo dos anos oitenta, aquilo tinha força de revelação. Lars, dinamarquês radicado nos Estados Unidos, entendia bem de onde vinha aquele som e fez questão de carregar essa influência adiante.
O Metallica acabaria prestando uma homenagem explícita ao grupo anos depois, em "Garage Inc.", com um medley de músicas do Mercyful Fate. Mas antes disso Lars já havia participado diretamente de uma gravação da banda. Em 1993, ele tocou bateria em uma nova versão de "Return of the Vampire", faixa antiga do Mercyful Fate que ganhou regravação no álbum "In the Shadows."
A participação não é exatamente lembrada como um grande momento técnico da carreira de Lars, nem pretende competir com faixas como "Battery", "Disposable Heroes" ou "One". O peso dela está em outro lugar. Era um dos músicos mais famosos do metal tocando com uma banda que havia ajudado a formar seu gosto, quase como se o fã tivesse conseguido entrar por alguns minutos no disco que um dia teria comprado e escutado até gastar.
Anos depois, quando perguntado sobre músicas que poderiam tocar em seu funeral, Lars citou justamente essa gravação. "Essa é uma velha clássica em que eu toquei quando eles a regravaram por volta de 1993, e talvez, de algum jeito estranho, 'Return of the Vampire' pudesse ser eu na vida após a morte voltando", disse ele, em fala resgatada pela Far Out.
A frase combina bem com o universo do Mercyful Fate, cheio de imagens sombrias, vampiros, rituais e melodrama satânico de palco. Também combina com o próprio Lars, que sempre soube transformar gosto pessoal em bandeira. Ele não estava apenas lembrando uma participação obscura em disco alheio. Estava apontando para uma música que carregava infância musical, identidade e uma ligação direta com o metal que o formou antes da fama.
Existe ainda uma camada curiosa nessa história. Na mesma época em que Lars podia tocar com amigos e heróis, Jason Newsted se sentia limitado dentro do Metallica quando o assunto era projeto paralelo. Esse tipo de tensão ajudaria a alimentar problemas internos que viriam à tona mais tarde. No caso de Lars, porém, a participação no Mercyful Fate parecia menos um capricho de astro e mais uma dívida afetiva paga com baquetas.
"Return of the Vampire" nunca será a música mais conhecida associada ao nome de Lars Ulrich. Para a maioria, ele continuará ligado ao Metallica, aos grandes discos dos anos oitenta, ao estouro dos anos noventa e a todas as polêmicas que vieram junto. Mas a escolha da faixa como uma espécie de trilha para além da vida diz bastante sobre ele: por trás do músico famoso, ainda havia o garoto que descobriu o metal pesado como se tivesse encontrado uma porta secreta.
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