1966 no Rock: do Monochrome ao Technicolor
Por Vitor Bemvindo
Fonte: MOFODEU
Postado em 06 de fevereiro de 2010
"Em 1966, a década deixou de ser monochrome para virar technicolor". A frase de Keith Richards, destacada pela edição de setembro de 2006 da Poeira Zine (www.poeirazine.com.br), define com precisão o que aconteceu de mais importante naquele ano para o Rock and Roll. A estética das bandas da "invasão britânica" tinha encontrado o seu ponto de saturação em 1965, e, no ano seguinte, diversos grupos passam a buscar um novo caminho, que levaria à psicodelia.
Um fator determinante para essa transição acontecida no Rock a partir de 1966 se sustenta principalmente no que havia anos antes. O grande sucesso comercial alcançado por bandas como THE BEATLES, THE ROLLING STONES, THE WHO entre outras, garantiu uma consolidação desses nomes no mercado fonográfico, que permitiu que estes pudessem ser mais exigentes com suas produções.
Os Beatles, por exemplo, eram tão poderosos na indústria fonográfica da época, que qualquer de suas exigências era atendida sem maiores discussões. Isso chegou ao ponto em que o grupo se reservou ao direito de não realizar mais turnês, e restringir seu trabalho somente ao processo criativo e de produção dos seus álbuns. Tal atitude, impensável nos dias de hoje, nos quais as turnês são uma das principais fontes de renda das bandas, mostra a importância que esses artistas tinham na época.
No dia 29 de agosto de 1966, os Beatles realizaram o último show da última turnê da história do grupo, no Candlestick Park, em São Francisco, Califórnia. O curioso é que a turnê, que divulgou o disco lançado no ano anterior, "Rubber Soul", havia sido um enorme sucesso, com apresentações memoráveis como a no Shea Stadium, em Nova Iorque (quando se apresentaram para o seu maior público, poucos dias antes do derradeiro concerto na Costa Oeste) e a no Budokan, em Tóquio, Japão.

Sem se dedicar às turnês, os Beatles passariam a ter mais tempo para ser dedicar às experimentações musicais, que resultariam no histórico "Sgt. Pepper", lançado no ano seguinte. Porém, a veia experimentalista do quarteto de Liverpool já aparecia presente nos álbuns lançados entre 1965 e 1966. "Rubber Soul" e principalmente o "Revolver" apontavam para o caminho que a banda parecia querer trilhar a partir daquele momento. Isso fica claro na introdução de elementos orquestrais, no flerte com a música indiana e as experimentações instrumentais características de "Revolver".
Os Beatles e muitas outras bandas começavam a se aproximar da psicodelia, com base principalmente na obra do guru do LSD, Timothy Leary. O livro "The Psychedelic Experience" estava na cabeceira de nove entre dez roqueiros que viviam em grandes metrópoles como Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco ou Londres.
Essas idéias influenciaram grandes grupos, como os Beatles, mas também outros não tão conhecidos como os texanos do 13th FLOOR ELEVATORS, responsáveis por um álbum apontado como a primeira obra musical totalmente dedicada às experiências difundidas por Leary: o clássico Cult "The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators". Apesar do pouco sucesso comercial, o disco é apontado como um marco da transformação do rock e é tido como o precursor do que se convencionou chamar "Psychedelic Sounds".

Na onda psicodélica, surgiram também bandas como os esquizofrênicos THE MOTHERS OF INVENTION, capitaneados pelo não menos surtado e talentoso Frank Zappa. Em 1966, o grupo estreou com o aclamado "Freak Out!", tido pro muitos como o primeiro álbum conceitual da história do Rock. O disco era uma grande gozação com os valores em voga naquele momento. Zappa debocha constantemente tanto da cultura de consumo americana, como da contra-cultura, imposta como um paradigma de oposição a sociedade de consumo.
1966 é um ano importante também para bandas como o Who e os Stones, que se não se encaminharam por vias tão experimentais, conquistaram maior independência, com álbuns totalmente autorais e bastante elogiados ("A Quick One" e "Aftermath").

Outra banda que atingiu um patamar de maturidade criativa interessante foram os BEACH BOYS. Assim como os Beatles, eles resolveram se dedicar com mais empenho às composições e produção dos álbuns, mas no caso do grupo californiano, um membro da banda foi eleito para cuidar desses aspectos: Brian Wilson. Enquanto os outros garotos praianos seguiam na estrada, Wilson se dedicava a produção da obra-prima da banda: o "Pet Sounds".
Graças a essa dedicação exclusiva ao processo criativo, Brian Wilson pode se empenhar nas experimentações musicais, incorporando elementos orquestrais e outros não tão convencionais ao álbum. A variedade de elementos usados no álbum, rendeu ao disco o rótulo de um dos precursores do "art-rock", ao mesmo tempo incoporava elementos do rock psicodélico, chegando a ser taxado por alguns como "sunshine pop".
Além do sucesso de crítica e público de "Pet Sounds", a dedicação de Wilson ao estúdio rendeu algumas faixas que seriam lançadas num disco posterior ("Smile", que nunca chegou a sair, por conta de problemas com a saúde mental do músico). A principal delas era "Good Vibrations", que foi lançada como single ainda em 1966, chegando ao todo das principais paradas de sucesso e sendo considerada o maior sucesso comercial daquele ano. A faixa trazia boa parte dos elementos introduzidos em "Pet Sounds", como, por exemplo, o uso de sitentizadores, mas também trazia a levada melódica que catapultou a carreira dos Beach Boys nos anos anteriores.
Outro fenômeno interessante no ano de 1966 foi a explosão das bandas de folk rock. Impulsionados pela eletrificação do folk empreendida por BOB DYLAN um ano antes em "Highway 61 Revisited", grupos como THE BYRDS e BUFALLO SPRINGFIELD, conquistaram o público e a mídia especializada com álbuns como "Fifth Dimension" e "Buffalo Springfield".
Outro aspecto a ser ressaltado em 1966 é o surgimento do SMALL FACES, que trouxe para o rock elementos que mais tarde se tornariam referência. O disco de estréia (que leva o nome da banda) traz um peso e distorções nas guitarras incomuns para aquele momento do rock. Eles aprofundaram as experiências do The Who, com linhas de baixo poderosas e uma bateria tão ensandecida como a de Keith Moon. A parceria entre Ronnie Lanne e Steve Marriot começava a fazer história.
Quer ouvir alguns dos sons que marcaram o ano de 1966? Ouça o MOFODEU #078, o segundo da série "Anuário MOFODEU", que pretende demonstrar a história do Rock ano a ano. Para ouvir, basta acessar o link abaixo.
Leia o primeiro artigo da série "Anuário MOFODEU", sobre 1965, no link abaixo.
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