Já faz algum tempo que se sentia uma grande ansiedade nos sites de torrents de gravações extra-oficiais, com a iminência do show de "retorno" do LED ZEPPELIN, realizado em 10 de dezembro de 2007 no O2 Arena de Londres, que estava limitado a 20.000 lugares e causou desespero entre os fãs do grupo, sendo que num leilão beneficente, um afortunado pagou cerca de trezentos mil reais por um par de ingressos.
E para adoçar ainda mais a coisa, no início de novembro uma rádio francesa retransmitiu um show realizado em outubro de 1969 no L'Olympia de Paris e que só havia ido ao ar uma única vez, justamente no início de novembro do mesmo ano, ou seja, há exatos 28 anos. E este show, postado imediatamente após o término da retransmissão, foi "baixado" ao menos 5.000 vezes contando as diversas versões diferentes, o que fazia crer que o Arena 02 bateria todos os recordes possíveis e imagináveis.

Dito e feito: somente a primeira gravação disponibilizada conta, até o momento em que escrevo estas linhas, com mais de 20.000 downloads em diversos sites diferentes; estes números podem parecer pouco para alguns, mas não estamos falando de um MP3 do novo single de um artista popular, e sim de uma gravação em FLAC com 600mb de tamanho, impensável para quem não possui banda larga tampouco está acostumado a mexer com estes formatos chamados lossless, e é impossível medir os downloads dos MP3 que estão tanto em sites de torrents quanto em mais de uma centena de blogs (só fazer uma busca via google).
Como se não bastasse, num episódio extremamente bizarro, alguns dos sites de torrents, blogs e principalmente o YouTube, começaram a ter este material retirado do ar, supostamente a pedidos da gravadora Warner Music; mas no fim das contas se tratou apenas de zelo excessivo da GrayZone, empresa especializada em monitorar casos de quebra de direitos autorais, e que - pasmem - pediu desculpas formais a todos os "incomodados" pelo pedido de retirada do material!
(Houve o caso de um determinado site especializado em Zeppelin que se aproveitou da situação e forjou emails em nome de supostos advogados da banda, solicitando que o material fosse retirado do ar sob risco de processo etc, mas como de praxe, o que eles queriam mesmo era deter "exclusividade" sobre o material...)

Mas muitos fãs do Led nem sempre se preocupam tanto com a questão da qualidade sonora - embora obviamente prefiram algo bem gravado - tanto que, a despeito do que é dito por alguns autores, de que BOB DYLAN seria o artista mais pirateado de todos os tempos, eu acho que na realidade o LED ZEPPELIN é detentor da maior quantidade de bootlegs lançados no mercado!
Atenção: não estou falando em registros sonoros, pois neste quesito o GRATEFUL DEAD e suas quase 3.000 gravações é imbatível, mas sim de discos prensados, sejam LPs ou CDs, os famosos bootlegs, conhecidos no Brasil indevidamente como "piratas", termo que confunde pois também serve para designar cópias de títulos oficiais, tal qual aqueles discos porcamente copiados de artistas populares que são vendidos a preço de banana em camelôs e feiras.
Dylan de fato é detentor de uma quantidade imensa de títulos, como pode ser visto no Bob´s Boots, mas basta uma simples comparação com o número de discos do Led num site como o Led Zeppelin Session ou o Underground Uprising para se constatar que Page & Cia já ultrapassaram o trovador norte-americano.
Sem contar que a maioria dos roqueiros "das antigas" que se iniciam no mundo dos boots começam com algum título do Led - inclusive foi o que aconteceu comigo, conforme mencionei na "Discos Que Marcaram".

Na época ainda não havia legislação sobre o assunto, e os bootlegs, que haviam surgido comercialmente no ano anterior na Califórnia (ao menos os de Rock), ainda eram vendidos livremente nas lojas de discos dos EUA. Somente em fevereiro de 1972 é que seria aprovada uma lei no Congresso Americano que tornaria a coisa ilegal.
Embora a indústria dos bootlegs estivesse ainda engatinhando, os poucos títulos lançados vinham sendo bem recebidos - inclusive com resenhas favoráveis em revistas especializadas, e a edição do início de outubro de 1970 da Melody Maker trazia um artigo dizendo que dois novos álbuns ilegais do LED ZEPPELIN estariam em breve nas lojas, um com registros inéditos de estúdio e outro com uma gravação ao vivo na Alemanha.
Peter Grant, empresário do Led, ficou furioso ao constatar que "pirateiros" poderiam faturar com seus pupilos, e soltou uma nota dizendo que processaria qualquer pessoa que tentasse lançar algo sem seu consentimento - diz a lenda que ele foi pessoalmente a todos estúdios e rádios pelo qual a banda passara e requisitou toda e qualquer gravação existente, ameaçando inclusive com violência física quem ousasse "liberar" qualquer coisa!

Até então, a maioria dos títulos lançados no mercado eram sobras de estúdio, e apesar de no ano anterior ter saído um lendário título ao vivo dos ROLLING STONES, "LiveR Than You´ll Ever Be", suspeita-se que membros da equipe técnica ou até mesmo os próprios Stones tenham "colaborado" para que os "pirateiros" arranjassem um bom lugar onde pudessem colocar seus microfones.

Mas tudo mudaria após este bootleg, conforme relata o livro "Bootleg - The Secret History of The Other Recording Industry", de Clinton Heylin: "Foi a incrível rapidez com o qual Dub e Ken [nota: os sujeitos que gravaram o show, mesmos que haviam registrado o dos Stones no ano anterior e que fundaram a lendária gravadora "pirata" TMOQ ou Trade Mark Of Quality] soltaram 'Blueberry Hill' no mercado que lhe deu esta característica impetuosa. Nas lojas antes do 'Led Zeppelin III', o álbum capturava a banda tocando versões embrionárias de canções deste seu terceiro disco, incluindo uma cintilante 'Since I´ve Been Loving You'(...) A idéia que um bootlegger pudesse soltar no mercado um show três semanas depois de realizado era terrível - ao menos para as gravadoras, que não podiam de forma alguma competir com tamanha agilidade, havia todo um processo que culminava no lançamento de um disco, ao contrário dos bootleggers, que precisavam somente de um tempo para 'fazer uns acertos' na gravação e produzir um disco [e hoje em dia é possível disponibilizar via internet quase que instantaneamente...].

"'Blueberry Hill' escancarou os portões. Os bootleggers perceberam que poderiam produzir tanto material quanto quizessem, e mais importante, havia um público imenso para estas gravações", relata artigo do Led Zeppelin Session. "[O disco] ainda é considerado por vários colecionadores como um dos melhores bootlegs do Led, por trazer inúmeros atrativos: é uma das melhores gravações da época, ainda é o único registro decente de uma versão ao vivo de 'Bring It On Home' e o único bootleg que traz 'Out On The Tiles', 'Blueberry Hill' e 'I Saw Her Standing There'".


Seja como for, o importante é que, para os entusiastas, é impossível viver a experiência de sentir como era uma apresentação ao vivo do LED ZEPPELIN somente com os pouquíssimos títulos oficiais disponíveis, e para isto hoje em dia é necessário adentrar de cabeça neste maravilhoso mundo das "gravações undergrounds" - ou ser um dos 20.000 felizardos que estavam presentes lá no 02 Arena de Londres no dia 10 de dezembro de 2007...

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Nascido no milênio passado. Empresário falido, atualmente sobrevivendo de "bicos" diversos (dentre eles, professor de contabilidade - tenho cara?). Fanático por hard-rock e congêneres das décadas de 60/70, Hendrixmaníaco de carteirinha. Acha que apenas três coisas valem a pena na vida: Mulheres (mas dão um trabalho!), Rock'n'roll em geral e Motocicletas. Quando morrer, conforme combinado com o saudoso Heavyman (RIP), vai ser enterrado com um CD do Black Sabbath (ele levou um do Jimi Hendrix para a eternidade...)
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