A primeira questão sobre este artigo é: trata-se de um tributo ao Alice In Chains? A resposta: não. Então por quê o Alice In Chains como centro para abordar os limites da influência? A seguir tento responder a isso e também justificar o trabalho a ser desenvolvido.

Lembro-me bem de assistir o acústico do Alice In Chains e me perguntar seriamente: “como todos os integrantes dessa banda continuam vivos?”, tamanha a dor visível nos olhos - que mal se abriam - do vocalista. O mesmo aconteceu ao ver os clips de “Man In The Box” e “Angry Chair”. Assustador, horripilante, visceral!
Na sociedade atual – e isso nos fala de várias décadas -, quando encaramos Big Brothers, ou séries como Human Zoo, reality shows em geral, tendemos a acreditar que as pessoas simplesmente assumem “personagens”. É verdade que a idéia dos quinze minutos de fama não nos escapa, porém, mesmo durante este curto tempo, inexiste um ser humano capaz de passar imune, sem deixar escapar um pouco daquilo que verdadeiramente é ou imagina ser.
Apesar do behaviorismo de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) se candidatar como impulsor mister de uma parafernália psíquica nunca dantes vista, é difícil localizar com exatidão a origem da noção de nossos dias de que somos apenas um ‘resultado’, inertes às nossas próprias atitudes, que as pessoas e ídolos fazem de nossa personalidade o que querem, ou ainda que tratamo-nos de meras vítimas sociais inatas.
Quando Skinner afirma que “a sociedade ataca logo cedo, quando o indivíduo está desamparado”, e vai além dizendo: “não direcionei minha vida. Não a desenhei. Nunca tomei decisões. As coisas sempre vieram naturalmente e fizeram por mim. Assim é a vida”, é óbvio que sentimos um conforto inigualável. Afinal, faça o que quiser, não é de sua responsabilidade, trata-se apenas de um resultado natural de estímulo – resposta – reforço, puro materialismo epistemológico, exatamente como o autor mencionado fazia com seus ratinhos.

A resposta principal: a imitação segundo Durkheim em “O Suicídio”

Em “A imitação”, um dos capítulos mais ricos de “O Suicídio”, Durkheim esbraveja contra o conceito de ‘imitação’ em sua época e a teoria das espécies sensíveis, e nos dá uma luz sobre a influência e seus limites. Basicamente demonstra a imensa responsabilidade que temos por nossos próprios atos. Se houve razões diversas para lutar contra a imprensa conservadora e irrefletida que culpou Dimebag Darrell Abott por sua própria morte, ganha-se um grande apoio nas palavras do sociólogo francês: “(...) as causas determinantes de nossa ação são razões que nos fizeram consentir, não o exemplo que nos foi dado observar. Nós é que somos os autores, mesmo que não a tivemos inventado”. Menos reconfortante que Skinner, não? Bem mais interessante, porém.
Talvez uma definição não seja relevante agora, mas, voltando a Layne Staley, cito uma acepção sucinta do suicídio feita por Durkheim: “o suicídio é toda a morte que resulta mediata ou imediatamente de um ato positivo ou negativo realizado pela própria vítima.” Ou seja, o indivíduo se implica realmente em seus atos. Poderíamos dizer, desta forma, que a morte de Staley estaria entre os “suicídios anômicos”, como definidos por Durkheim, provenientes de crises, instabilidades, desregramentos e, em especial, “de períodos que impedem o indivíduo de encontrar uma solução bem definida para os seus problemas”. A arte, particularmente a música, teria sido a saída tentada pelo vocalista do Alice In Chains.
O ato, a palavra, a escrita, a arte (do rústico ao refinado)

Chame uma criança (dois, três anos) e peça-a para ficar a seu lado. Pegue um copo de água, fale para fazer mesmo. É bem provável que ela consiga repetir o seu ato com facilidade. Se tiveres um filho mais novo, de dezesseis a vinte e quatro meses, diga para ele repetir alguma fala sua. Certamente os níveis de desenvolvimento são diferentes para cada indivíduo, logo as capacitações de falar “mamãe”, “papai” também variarão, mas sem dúvida haverá uma dificuldade maior em repetir “impopularidade” do que imitar o pegar um copo d'água. A palavra já está um passo à frente do ato.
Se pegarmos a escrita então, mais obstáculos adiante, e tempo de dedicação redobrado.
Agora pegue um instrumento qualquer, comece a tocar a coisa mais simples que vier à sua mente. Todos já pensaram no riff de “Come As You Are”, imagino. Que seja, faça-o. Aquela mesma criança que conseguiu imitar seu ato, copiou sua palavra falada a trancos e barrancos, teve sucesso em alguns rabiscos ao tentar seguir a palavra escrita, provavelmente agora estará em transe, deixando os outros à sua volta também malucos com tanto barulho ao se engendrar pela arte. Não é só a coordenação motora em jogo ou o raciocínio simples e puro. Tudo anda junto, e há algo a ser expresso, mesmo no barulho que indubitavelmente faria qualquer um chamar Herodes.
O tratamento pela arte

A arte é como qualquer realização pessoal, logo igualmente uma oficina, com o adendo de seu refinamento e da exposição que incide a todos os envolvidos.

As composições, quadros, teatros, filmes e tantas outras formas artísticas não falam de mais ninguém além de seus próprios autores, e de como experenciaram momentos de suas vidas, até mesmo quando se referem a uma outra pessoa, um personagem, uma lenda, etc. Tudo o que falo, fala sobre mim. Nietzsche nos disse muito bem que “a arte é aquilo que nos protege do real”, e nenhum outro filósofo foi tão apaixonado pela música quanto ele. A arte é eficiente nessa busca de cura humana. Infelizmente, ela não é suficiente para alguns, e possivelmente este foi o caso do vocalista do Alice In Chains, e de tantos outros grandes ícones, autores de majestosas obras que se suicidaram, foram vítimas de overdose, do vício, enfim, de si próprios, e do fracasso mesmo nas tentativas mais poderosas de se curarem de suas próprias existências, cujas razões de fato inexistem.
Os limites da influência

O guitarrista em sua obra refinada, a arte, foi atacado por um rústico – para não dizer primitivo, e existem muitos por aí - o qual certamente também tentava se curar, porém, sem tantos artifícios como os que seu ídolo possuía, buscou sanar-se num ato enlouquecido.
Layne Staley em sua obra refinada foi atacado também por um rústico, aquele mesmo que tentou se safar com “Down In A Hole”, “Nutshell”, “Would?”, “We Die Young” (ele já avisava desde o início), “Rooster”, “Rotten Apple”, e tantas outras duras doses de realidade própria. Antes mesmo de “We Die Young”, já no nome, ele talvez nos falasse de uma Alice acorrentada, que não vive no país das maravilhas. Uma Alice que tentou se desacorrentar, mas que tristemente não conseguiu. Uma Alice que seria ele mesmo.

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Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.
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