Nova geração se choca ao descobrir que "Bichos Escrotos" não é da Anitta
Por Gustavo Maiato
Postado em 10 de agosto de 2026
Anitta acaba de renovar as credenciais de uma das músicas mais agressivas do rock brasileiro - e boa parte dos seus fãs mais jovens nem sabia que a faixa existia. A cantora regravou "Bichos Escrotos", dos Titãs, para a trilha sonora de "Corrida dos Bichos", novo longa de Fernando Meirelles disponível no Prime Video, no qual ela também aparece como atriz ao lado de Rodrigo Santoro.

O lançamento não foi anunciado previamente, e a surpresa foi dupla: além da existência da regravação em si, muitos fãs se depararam com a informação, nova para eles, de que a música não é uma composição original da cantora.
A versão substituiu o rock da gravação original por uma batida de funk produzida pelo Tropkillaz. O resultado gerou uma onda de reações no X, antigo Twitter, onde compilações de comentários de fãs desorientados começaram a circular rapidamente.
O site Tenho Mais Discos Que Amigos reuniu parte dessas reações, e o recorte não deixa dúvida sobre o impacto do desconhecimento geracional. Um usuário publicou, com mais de 1,5 mil curtidas: "Passado que essa música 'Bichos Escrotos' é uma regravação do Titãs. A música é sobre políticos." Outro, já na defensiva diante das críticas recebidas por não conhecer a versão original, respondeu: "Sendo massacrado por não conhecer essa bosta. Eu não sou obrigado a conhecer essa porcaria de vocês não, me errem."
"Bichos Escrotos" integra "Cabeça Dinossauro", álbum lançado pelos Titãs em 1987 - e considerado um dos discos mais importantes do rock brasileiro. A faixa tem história antes mesmo de chegar às lojas: foi alvo da censura durante a ditadura militar, o que atrasou seu lançamento.
A letra, porém, não carrega a intenção política que parte dos fãs de Anitta passou a atribuir a ela. Nando Reis, um dos autores, já explicou o contexto em entrevista publicada pelo próprio Tenho Mais Discos Que Amigos. Para o compositor, a música fala de um lugar quase autobiográfico para a banda: a exaltação dos "bichos escrotos" como metáfora para tudo que fica à margem dos padrões musicais, estéticos e morais. "Não seguimos essa linha entre o que é belo e feio, bom e ruim, culto ou não culto", disse Reis.
A escolha de Anitta pelo repertório dos Titãs não é exatamente aleatória. O filme de Fernando Meirelles - diretor de "Cidade de Deus" (2002) e "O Jardineiro Fiel" (2005) - é uma produção de peso, e uma faixa com esse nível de carga histórica no catálogo do rock nacional carrega bagagem suficiente para funcionar em qualquer contexto contemporâneo.
O Tropkillaz, duo de produção formado por Zegon e Laudz, é presença frequente em projetos que transitam entre o funk e o pop eletrônico brasileiro, e sua participação na regravação indica que a intenção nunca foi um cover reverencial - mas uma reinvenção para outro público.
O choque geracional exposto pelas reações no X tem se tornado padrão sempre que o pop mainstream brasileiro toca no catálogo do rock dos anos 1980 e 1990. A "Geração Enzo" - expressão usada informalmente para se referir a fãs jovens cujo contato com a música rock é praticamente nulo - frequentemente descobre clássicos nacionais e internacionais por meio de reinterpretações de artistas contemporâneos.
No caso de "Bichos Escrotos", a surpresa veio acompanhada de uma segunda surpresa: a de que a letra feroz que estavam ouvindo tinha mais de 40 anos e já havia sobrevivido à censura antes de chegar ao funk.
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