Ponto.CE: o festival em que o Accept não tocou por problemas no vôo

Resenha - Festival Ponto.CE (Centro Cultural Dragão do Mar, Fortaleza, 03/11/2017)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O festival Ponto.CE aconteceu mais uma vez na capital do Ceará, realizado pela Empire e apresentado pela ENEL e do Governo do Estado do Ceará. Com um line up de dar inveja (mais de trinta atrações locais, nacionais e estrangeiras em cinco dias e três finais de semana), uma série de infortúnios ameaçou, mas não parou o tradicional festival promovido pela Empire. A concorrência com a prova do ENEM (ok, isto não foi exatamente um imprevisto), caos nos aeroportos paulistas e ate mesmo o cancelamento de um show em Recife tornaram a edição 2017 do festival, a décima-primeira, um verdadeiro "tour de force". Em suma, o primeiro final de semana, o indie, teve um dia de casa cheia, mas dois dias com público pífio (principalmente o sábado, véspera do já citado exame nacional). Apesar disso, todas as bandas se apresentaram (algumas do sábado até repetindo o show no domingo para alcançar um número maior de pessoas) com empolgação e com uma baita produção (que envolveu som de primeira, telões e nenhuma economia com iluminação. O segundo final de semana, o do metal, quando ACCEPT e KORZUS ficaram presos no aeroporto (confira vídeos e nota oficial aqui mesmo no Whiplash.net), foi completamente cancelado, causando uma enorme comoção na comunidade headbanger. O último final de semana, o "verde", teve o desfalque de sua atração principal, o PLANET HEMP, por problemas na capital pernambucana (com quem a produção alencarina rachava os custos - o que é absolutamente normal no show business), mas continuou de pé (apenas mudou de local). Contamos abaixo como foram os shows do primeiro final de semana, com boas surpresas, medalhões do indie nacional e até banda se despedindo dos palcos. Quanto às bandas ACCEPT, KORZUS e PLANET HEMP, a produtora já afirmou que devolveria os ingressos, mas que já estaria negociando novas datas com todas (ou seja, teremos ACCEPT de volta aos palcos brasileiros em algum momento no futuro próximo).

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Sexta-feira - 03/11/17 - Primeira noite, anfiteatro lotado

LUTHERKING - a primeira banda do festival

Quem abriu o festival foi a banda LUTHERKING, de Pacatuba, Região Metropolitana de Fortaleza. Formada por quatro primos, a banda teve a oportunidade de mostrar seu indie rock no palco do Anfiteatro Dragão do Mar. A "família" LUTHERKING já tem composições boas, mas ainda precisa investir mais em repertório, produção e divulgação para ter mais expressão e encontrar seu diferencial entre tantas outras que praticam o mesmo estilo.

PROCURANDO KALU - o GONG da Meruoca

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

Mas diferencial não é o problema para a PROCURANDO KALU, de Sobral. Nota: Kalu, conforme me contou o baixista do sexteto, é o pai de Zeca, o vocalista. A banda, que vai lançar disco em 2018, foi a primeira grande surpresa do festival. Aquela onda rock brega travesti, mas muito psicodélica, com riffs deliciosamente bregas disputando com o teclado psicodélico e baixo e bateria muito presentes. Todos os músicos tem tanta presença de palco que quase até ofuscam o vocalista. Era como estar num show do GONG. Entre canções como "Tá Na Cama", nome do único EP até agora, e "Carimbó do Caralho", o GONG da Meruoca também apresentou uma versão de "Pavão Misterioso", de Ednardo, em releitura ainda mais viajante. "Eles são muitos, são muitos machistas, golpistas, mas não podem voar", declarou Zeca ao fim da canção. Se há um defeito a apontar nos meninos, menines, meninxs, whatever, é que seus sons ainda não estão no Spotify. Deveria.

MAFALDA MORFINA - a despedida dos palcos

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

Já com o palco ocupado pelo baixo poderoso de Carla Keyse, a guitarra precisa de Thiago Arena e um novo baterista, Luciana Lívia, a vocalista da MAFALDA MORFINA chega como a velha, a que tricota desilusões, apoiada numa bengala e depois explode na já bem conhecida inquietude que é uma de suas principais características. Durante o show, faz homenagens a RAUL SEIXAS ("Tente Outra Vez") e BELCHIOR que, nas palavras de Luciana referindo-se a este último, " infelizmente, ou felizmente, eu não sei, porque tudo tem o seu tempo e a vida é eterna, nos deixou". "Alucinação", com a cara da MM, antecede a canção que já lhe tinha roubado um verso, "Poderosa Imperfeição". Através do telão, Bruno Gouveia, do Bikini Cavadão, também participa. A segunda surpresa (para muitos) do festival, esta desagradável, foi o aviso de que a MAFALDA iria parar nesse show.

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

No show ainda houve espaço para um diálogo com outra artista, de cartola, a Luciana de dez anos atrás, além de mais uma homenagem à irmã (em "Olhos Loucos e Meu Coração"). "Que vocês também pensem em quem lhe faz falta, não necessariamente neste plano", conclamou Luciana. Ela também lembrou que a MAFALDA MORFINA primeira banda do Ceará liderada por mulheres antes de puxar o costumeiro grito/resposta Mafalda? Morfina! "Adeus", não de propósito, mas de fato, foi a última canção do show e da MAFALDA MORFINA como a conhecemos nos palcos. Com olhos molhados e voz embargada, Luciana pediu para que o público continuasse os acompanhando, o que estivessem fazendo individualmente. Haviam planos de gravar A Vaca de um Sapato Só com os Malfadônicos, o fã clube da banda, mas não aconteceu por causa do horário. Quis o destino que a Mafalda Morfina se despedisse dos palcos mesmo com "Adeus". Que banda tem esse azar? Ou sorte? Eu não sei, porque tudo tem o seu tempo e a vida é eterna.

VANGUART - o show do público

Até aquele momento o VANGUART foi definitivamente a banda que mais reuniu o público no Ponto.CE de 2017. Não sabíamos que isso seria em absoluto (as vendas apontavam pra casa cheia na Biruta, na sexta-feira seguinte. O quarteto liderado por Hélio Flanders (na verdade, um sexteto, com os quatro integrantes oficiais, mais dois músicos de apoio) fez a plateia cantar junto cada uma das músicas, de letras emocionais e bem trabalhadas. Cada vez mais com a presença de Fernanda Kostchak, a banda tocou sucessos antigos e do novo disco, "Beijo Estranho".

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

"A gente ficou na cachaça por muito tempo, mas chega o tempo que o homem se apaixona, por mulheres, por outros homens, pelo simples ato de botar os sapatos e caminhar", foram as palavras que antecederam "Peito mais aberto que o mar da Bahia", com Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln sempre interagindo bastante com seus fãs. Na hora do "larara", Hélio até fez um gracejo dizendo que poderia ficar ali pra sempre. Além do violão, o frontman também ataca de trompete (o que dá um tom realmente triste à canção "Nessa Cidade") e ukulele, em "Olha Pra Mim" (porque indie que é indie tem que tocar ukulele). Sobre a resposta do público, ele declarou: "Cantar isso com vocês, mais alto que eu, é muito bonito. Não dá pra se acostumar com isso" e ele (ou Lincoln, a memória já não ajuda mais) ainda incentivou "vamos escrever aquele poema, liga pro teu amigo, faz aquela música e monta a banda mais foda".

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
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Grandes sucessos, como "Meu Sol", "Se tiver que ser na bala, vai", "Semáforo" e "Beijo Estranho" (sim, já dá pra considerar a faixa que dá nome ao novo disco um sucesso) fecharam mais um encontro dos mato-grossenses com seus fãs cearenses, mas não sem Hélio declarar, sobre a MAFALDA MORFINA, que tinha deixado os palcos logo antes deles, "Mafalda não pode acabar, não deixem essa banda acabar. Voltem logo meninas".

GABRIELLE GOMES - uma grande promessa

Foto - Max Marduque
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Neste primeiro final de semana o festival se dividiu em dois locais, um após o outro. As primeiras apresentações, das quais já falamos, aconteciam no Anfiteatro do Dragão do Mar, enquanto as próximas encerravam a noite no Let's Go, ao lado do centro cultural. No entanto, o público não migrou direto para o Let's Go. A diferença entre quantidade de pessoas que estava no Vanguart e assistiu ao rock blueseiro de Gabrielle Gomes foi enorme. As pessoas iam chegando aos poucos, o que não era exatamente inesperado. Com show 100% autoral e boas canções, com um baixo muito presente, a moça é uma promessa. E seu lugar ali foi conquistado com expressiva votação do público em concurso lançado nas redes sociais da produtora. Claro, ela ainda tem o que andar até chegar em uma Luciana Lívia ou Roberta Campos, mas canções pra isso ela já tem. Na última (e melhor) música, "Camaleoa", rolou até duelo entre os dois guitarristas.

VIVENDO DO ÓCIO - agora todo mundo tem saudade da Bahia (até quem nunca foi lá)

Foto - Max Marduque
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Já com bom público no Let's Go, os baianos da VIVENDO DO ÓCIO, ainda indie, mas bem mais animado, botou o povo pra pular e dançar. A banda só deu uma folga em "Carranca", um momento mais calminho. "Essa é pra quem escolheu fazer o que quer. Descubra o que você ama", incentivou o vocalista Jajá Cardoso. Com todo mundo cantando a sua música, ele confessou: "é de arrepiar. Não tem preço que pague essa troca". Durante o show ainda dedicaram uma música ao Temer (claro que a letra não era elogiosa), além de fazer todo mundo ter saudade da Bahia (até quem nunca foi lá) em "Nostalgia". "Fora Mônica", um dos maiores sucessos do quarteto, ficou para o fim do show.

DANIEL PEIXOTO - electro, mas orgânico

Foto - Max Marduque
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O ex-MONTAGE DANIEL PEIXOTO encerrou a primeira noite de Ponto.CE 2017 com o seu electro, mas, num show bem orgânico, acompanhado de músicos na guitarra, baixo e bateria. A apresentação do Marylin Manson brasileiro já começou com uma versão de "Colégio de Aplicação", cover da fase mais psicodélica dos NOVOS BAIANOS e seguiu por caminhos bem mais roqueiros que o esperado, até mesmo em "Eu Só Paro Se Cair", com seus versos típicos de funk carioca. Cláudio Mendes, que acompanhava Artur Menezes, é quem fecha a noite com um solo viajandão.

Sábado - 04/11/17 - Bons artistas, produção de primeira, mas, cadê o público

DOT LEGACY - agora ficamos devendo

Continuando o festival, que nesta noite começou com os quixadaenses NETO INÁCIO E A ALMA PERDIDA, a quantidade de pessoas que foi ao Anfiteatro do Dragão do Mar foi bastante pequena. Talvez a realização do ENEM no dia seguinte tenha contribuído muito expressivamente para o fato. Outro problema que pode ser elencado: no dia anterior não havia cerveja (e nem no próprio sábado ou no dia seguinte). Por causa da classificação etária, 16 anos, as vendas foram proibidas pelo Dragão do Mar - não teria sido mais fácil fornecer pulseiras diferenciadas para maiores de 18 anos? Não dá pra saber a real razão. O fato é que haviam muito poucas pessoas presentes no anfiteatro naquela noite. A principal consequência é que a francesa DOT LEGACY, uma das duas gringas do line-up, bem que poderia ser uma das atrações mais aguardadas, mas não foi isso que aconteceu. O quarteto formado por Damien Quintard (baixo e vocal), Arnauld Merckling (guitarra), John Defontaine (guitarra) e Arthur Menard (bateria) não é tão conhecido no país. Mas bem que deveria. Se havia pouco público na hora de sua apresentação, a energia no palco inversamente proporcional à quantidade de público. Canções como "211", "Horizon" e o novo single "Stereo Field of Delay" conquistaram quem estava presente e, dúvida não há, novos fãs. Havia, claro, um algo de espanto nos olhos dos franceses, muito provavelmente esperando um público maior, mas eles ignoraram as circunstâncias e fizeram um show pra ninguém botar defeito. Em sua segunda (e longa) passagem pelo Brasil, a banda está tão acostumada com nosso país que até ensaia cantar em português, embora não passe do título da música. Falo de "Vivendo Só", canção em que Damien canta de forma tão empolgada que até deixa o baixo para pular melhor.

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
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No decorrer do show "Pyramid" também foi um grande momento. Na canção, cheia de energia, todos fazem um jogo de dividir os vocais e, sequer preocupam-se em estar no microfone ou não. Imagino se isso funcionaria num mega-festival, com 40, 50 mil pagantes, mas, ali e em qualquer clube funciona demais. O guitarrista Arnauld, dono de uma cabeleira que não pode passar despercebida, ainda pula do palco pra tocar no chão do anfiteatro. Outras canções que valem (e muito) uma segunda, terceira, nonagésima-sétima audição são "Children Go Float" e "Zero". É de se esperar que esses franceses voltem ao Brasil e, principalmente, ao Ceará, mas para receber a acolhida que merecem.

TRAMPA - o novo punk rock de Brasília

A banda de Brasília fez um show direto e reto, com seu punk rock (mas não limitado a isso, tanto que facilmente fizeram o seu projeto "Trampa Sinfônica"). O ponto alto do show foi "Te Presenteio com a Fúria", em uma versão longa e cheia de virtuosismo. Outra que vale menção foi "Haiti", de Caetano e Gil, cuja letra já forte, agora traduzida na linguagem punk/hard, adquiriu um tom ainda mais amargo de revolta e crítica social.

DEVOTOS - Agora tá valendo, mas não valeu

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

Outros que mereciam ser melhor recebidos foram Canibal, Neilton e Celo, do trio pernambucano de punk hardcore DEVOTOS. Aqueles que um dia foram "DO ÓDIO" tocaram o seu álbum "Agora Tá Valendo" na íntegra. Isso mesmo. Quem não foi, perdeu. Havia tão pouco público que as rodas punk, tão incentivadas pela banda (que tem até uma música só pra falar disso) ficaram praticamente impossíveis. O DEVOTOS lança disco novo em 2018 e, espera-se, que volte ao Ceará para mostrá-lo. Agora, quem perdeu a chance de ver o "Agora Tá Valendo" da forma como foi tocado naquele sábado, só tem é que se arrepender. Não valeu. Pela banda, valeu sim, mas, pelo público, não valeu.

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

ALF SÁ - show solo, quase solo

Foto - Max Marduque
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Na segunda parte da noite, assim como no dia anterior, os últimos shows foram no LET'S GO. E, a despeito da quantidade de público, que já foi pequeno no anfiteatro, todos, eu disse todos, aconteceram, começando pelo ex-RUMBORA (e com passagem pelos RAIMUNDOS) ALF Sá. Acompanhado de um baterista e revezando-se entre baixo, teclado e sintetizador, o multi-instrumentista apresentou (boas) canções do seu primeiro disco. Ele foi seguido no palco pelos cearenses da MAD MONKEES e pelos paulistas do KILOTONES.

Domingo - 05/11/17 - se o público não veio nos dias anteriores, a gente repete alguns shows

O que aconteceu no domingo foi que, em consideração aos músicos, principalmente aos que tocaram no Let's Go, a produtora conseguiu encaixar uma apresentação extra no domingo, já para uma quantidade maior de pessoas (embora ainda bem menor que na sexta que inaugurou esta edição do festival). ALF SÁ fez um show praticamente idêntico o da noite anterior, mas, isso não foi problema. Entendemos a atitude como uma prova de respeito da produtora para com os artistas. Afinal, música é pra ser ouvida por muita gente. É isso que importa pra quem está neste meio.

MEDULLA - a banda dos gêmeos Keops e Raony

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

A banda dos gêmeos Keops e Raony, MEDULLA, já provou que tem mais poder em sua discografia do que o suficiente para ganhar um mero reality show televisivo. E os fãs mais fieis da MEDULLA estavam lá para conferir os sucessos do repertório da banda, incluindo canções do último disco, "Deus e o Átomo". Canções como "Travesseiro Azul" também foram oportunidade para chamar um "Fora Temer". "Fora Temer, fora todos. Não vai sobrar nenhum, para que possamos botar a cabeça no travesseiro", disse um dos gêmeos. Outro ponto alto do show foi "Abraço", em que os gêmeos chamaram todo mundo de banda para o palco do festival. E haviam muitos músicos ali, tanto os que se apresentariam naquele domingo quanto alguns que ainda ficaram do dia anterior. O palco ficou lotado, com mais de vinte músicos. O baixista, Rodrigo Maria de Jesus, ainda aproveitou um momento para lembrar que seu primeiro show foi em Fortaleza, há exatos dois anos. O fato até ensejou um "ensaio" de "Parabéns Pra Você". Adiante, novo encontro especial, o vocalista e o baterista da VIVENDO DO ÓCIO, participaram de "Eterno Retorno" (que emendaram com a sua "Saudade da Bahia").

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

PROJETO RIVERA - todos de branco na nova promessa do rock nacional

Uma banda nacional que tem crescido a cada show e angariado uma crescente legião de fãs é a PROJETO RIVERA. O chão do anfiteatro ficou lotado de fãs da banda que só usa branco. Inclusive, mesmo com apresentações recentes na capital, há relatos de gente que foi lá só para assistí-los. O ponto alto do show foi "Cantar Olá", quando o vocalista chegou a descer do palco pra cantar junto da galera. Ele lembrou que foi lá no chão que passou muito tempo. "Passei muito tempo aqui, machucando meus ossinhos na beira desse palco". E, adiante no show, ainda dividiram tambores com o pessoal da KILOTONES, que aguardava a hora do seu segundo show.

KILOTONES - o grito de guerra eles já tem

Assim como ALF SÁ, a KILOTONES foi uma banda que teve a oportunidade de repetir a apresentação para um público maior. Os irmãos Barrionovo, de Ribeirão Perto, chegam com seu grito de guerra para marcar espaço e trazem canções como a empolgante "Confiante". O power trio, complementado por muita eletrônica, também despertou interesse em "Campo Minado", sobre pessoas com deficiência visual", quando descem do palco pra tocar tambores. O pessoal do PROJETO RIVERA devolveu a gentileza anterior e logo foi tocar também. Só a apresentação, ao início da canção, poderia ser repensada, com um texto melhor (é meio "Riding Song", do LEGIAO URBANA, mas com menos senso de oportunidade). O show foi fechado com "Pé Na Porta", sobre que Pedro Barrionovo disse: "foi a música que fez a gente estar aqui e em vários outros lugares".

NAFANDUS - com nova vocalista

Os NAFANDOS chegam todos mascarados na primeira música. Jael, a nova vocalista, substituindo Claudine Albuquerque, canta com um megafone, o que torna a letra um tanto ininteligível. Como metal alternativo não acrescentam tanto, mas é quando se mostram mais brasileiros, quando investem mais numa espécie de folk metal brazuca, que ficam formidáveis. E como ficam.

FAR FROM ALASKA - apresentando um dos melhores álbuns de rock do ano

O show da FAR FROM ALASKA focou principalmente em seu segundo álbum, "Unlikely", mas sem deixar de fora canções amadas pelos fãs como "Thievery" e "Politiks", do álbum anterior, "modeHuman". Puxadas por "Cobra", quase todas as canções tem nome de algum bicho (menos "Pizza", ou sei lá). Emmily Barreto me contou antes do show que fizeram isso porque são esquisitos mesmo. Ela também manifestou contentamento em ver que o público tinha ficado até aquela hora da noite, em um domingo, para vê-los.

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

No show, o quinteto potiguar mostrou porque são tão admirados. Na parte instrumental, Raphael Brasil, Edu Figueira e Lauro Kirsch despejam um som pesado, denso, como era de se esperar de todo stoner que se preze, enquanto Cris Botareli faz intervenções inteligentes e bem oportunas. Emmily, por sua vez, canta com voz privilegiada, alternando graves e agudos como se isso fosse simples como amarrar o sapato (coisa que ela fez mesmo, interrompendo o show). Irreverente, a vocalista brinca até com o oioioi da própria canção ("Flamingo"). "Vamos todo mundo cantar o oioioi da Avenida Brasil até ficar sem voz todo mundo". E em "Pizza", o bicho que não é bicho, ela e Cris meio que brigam e dão encontrões sem jeito uma com a outra. "É a última vez que a gente faz isso no palco", resolveu. E ainda deixam os outros três tocando a mesma nota por mais de um minuto enquanto vão buscar água e cerveja. Faz parte do script do show (perdão pelo spoiler). A banda dedicou uma canção a uma fã, Liane, falecida (mencionando o verso que é um salmo: "o choro pode durar a noite inteira, mas a alegria vem pela manhã"). Cris completou: "se você tem ansiedade, procure ajuda". "Dino x Dino" não estava no setlist, mas seria um pecado se a FAR FROM ALASKA não a tocasse. E foi isso que fizeram, com todos os colegas de banda no palco, assim como o MEDULLA. Foi uma grande festa.

Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque
Foto - Max Marduque

O final de semana seguinte prometia ser um dos melhores finais de semana para os headbangers cearenses. Seria não só a noite do metal no festival, mas também teria um dos shows que permaneceriam na memória por anos e anos. E estava indo tudo bem até a hora em que as bandas ACCEPT e KORZUS foram pegar o avião...

O ACCEPT tinha feito um show arrasador na capital paulista na noite anterior. As 11 da manhã o quinteto alemão viajaria para Fortaleza junto ao Korzus em um vôo da Avianca. O resto da novela você já sabe (reveja a nota oficial da Empire no link abaixo). O vôo foi cancelado por problemas técnicos. Com uma grande quantidade de passageiros a redistribuir (afinal, não eram só o ACCEPT e o KORZUS que estavam sendo prejudicados naquela tarde de sexta-feira), conseguir lugar em outro vôo para mais de dez pessoas parecia impossível. Cristiano Milfont, analista de sistemas e empresário, era uma dessas pessoas e ofereceu uma outra visão do que estava acontecendo em Guarulhos naquele fim de tarde. Ele, que mora em Fortaleza, também estava em São Paulo e voltaria para a cidade na mesma sexta-feira, em um vôo depois do 6390. Segundo Milfont, ambos os aeroportos que servem a capital paulista estavam um caos. Ele chegou a Guarulhos às 3 da tarde, com vôo marcado para as 17h, mas só pode sair às 19h. Um outro passageiro foi alocado em um avião depois que partiria depois do dele, mas que entrou naquele em que ele veio e se recusou a sair. O caos era tão grande que deixaram este passageiro seguir viagem naquele avião mesmo. Ele conta também que soube de um amigo que iria embarcar às 21h para o Rio de Janeiro, mas que só seguiu viagem às 5 ou 6 da manhã do sábado.

Segundo a produção, até um jatinho foi tentado, mas não comportaria todos os músicos e staff. As duas bandas foram realocadas para um outro vôo, que faria conexão no Rio de Janeiro, mas este segundo vôo também atrasou, o que faria com que eles perdessem a conexão carioca e, assim, chegassem a Fortaleza tarde demais para que fosse possível fazer o show e voltar para o Rio de Janeiro (onde o ACCEPT tinha apresentação no dia seguinte). Em suma, a noite dos camisas pretas no Ponto.CE, que ainda contaria com a piauense MEGAHERTZ e as cearenses THE KNICKERS, HOSTILE INC e IN NO SENSE, não pode acontecer. Segundo a produção, uma nova data está sendo negociada para que o ACCEPT volte a Fortaleza. De certa forma, isso é uma boa notícia para fãs de todo o Brasil, pois isso deve significar mais shows da banda alemã em solo brasileiro nos próximos anos. Enquanto isso, os valores dos ingressos adquiridos antecipadamente devem ser ressarcidos ao público. A produtora pediu um prazo de 20 dias.

Accept e Korzus: festival adiado em Fortaleza por problemas técnicos em vôoAccept e Korzus
Festival adiado em Fortaleza por problemas técnicos em vôo

Na semana seguinte, mais um desfalque para o festival. O show da banda PLANET HEMP, que encerraria o festival no dia 18 de novembro, aconteceria em parceria com a produção de um show em Recife. Com o cancelamento do show em Recife, o show em Fortaleza ficou inviável. A produção também se prontificou a ressarcir os fãs (os trâmites também começam em 20 dias), mas também ofereceu a opção de ver os shows das outras bandas do line-up com algumas compensações. Agora no estacionamento da Praça Verde, o festival continuou. Bandas como Carranca (RJ), Supercombo (ES), Drenna (RJ) e Braza (RJ) reuniram um bom público.

Com tantos problemas, é louvável que a produtora tenha levado o festival até o fim. Aguardaremos uma nova chance de ver bandas como ACCEPT, KORZUS e PLANET HEMP em Fortaleza. Aguardemos também que o público possa valorizar nomes como DEVOTOS e DOT LEGACY, duas bandas que mereciam ser vistas por milhares de pessoas. Torcemos também para que a devolução dos valores dos ingressos da noite cancelada (e de quem desistiu da última noite depois do cancelamento da atração principal) ocorra com tranquilidade e rapidez. O próximo grande show da EMPIRE é da banda sueca HAMMERFALL. E há promessas de grandes nomes para 2018 que não podemos contar. Vamos aguardar.

Agradecimentos:

A produção do festival, em especial a Alinne Rodrigues, pela atenção e credenciamento.
A Max Marduque, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Alguns Setlists

MAFALDA MORFINA

1. A velha a tricotar desilusões
2. Espelho
3. Supra desejo
4. Tente outra vez
(Raul Seixas cover)
5. Poderosa Imperfeição
6. Se Você Quiser
7. Olhos loucos e meu coração
8. Estátua Viva
9. Sonhos contrários
10. Adeus

DEVOTOS

1. Formando Opiniões
2. Dia Morto
3. Hu, Ha, Hu Ha!
4. Punk Rock Hard Core Alto José do Pinho
5. Pertencer
6. Asa Preta
7. Luz da Salvação
8. C.O.S
9. Uma Bala na Agulha
10. Tem de Tudo
11. Fogo Cruzado
12. Vida de Ferreiro
13. Enganado
14. Casa de amor e Ódio
15. Eu Tenho Pressa
16. Nova Vida
17. Mas eu Insisto
18. Futuro Inseguro
19. Roda Punk

MEDULLA

1. Deus
2. O Novo
3. Faça Você Mesmo
4. Travesseiro Azul
5. Salto Mortal
6. Bom te Ver
7. Perigo
8. Abraço
9. Átomo
10. Prematuro Parto Forceps
11. Eterno Retorno
12. Estamos Ao Vivo

VANGUART

1. Todas as Cores
2. Demorou Pra Ser
3. Eu Preciso de Você
4. ... Das Lágrimas
5. Felicidades
6. Quando eu Cheguei na Cidade
7. Mesmo de Longe
8. E o meu peito mais aberto que o mar da Bahia
9. Nessa Cidade
10. Olha Pra Mim
11. Meu Sol
12. Quente É O Medo
13. Estive
14. Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai
15. Semáforo
16. Mi Vida Eres Tu
17. Beijo Estranho

FAR FROM ALASKA

1. Thievery
2. Another Round
3. Cobra
4. Bear
5. Politiks
6. Pig
7. Flamingo
8. Pizza
9. Monkey
10. Elephant
11. Slug
12. Dino Vs Dino




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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