Paul McCartney em São Paulo: Um ensaio sobre a finitude

Resenha - Paul McCartney (Allianz Parque, São Paulo, 15/10/2017)

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Por Fernando Yokota
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Desde que voltou a dar as caras por estes lados, em 2010, pouca coisa mudou no show de PAUL MCCARTNEY e um mero relato minuto a minuto do que foi o show no Allianz Parque em São Paulo no último domingo seria perder a oportunidade de se pensar outros aspectos tão importantes quanto à música e que permeiam o espetáculo.

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A metáfora futebolística óbvia é a de que "em time que está ganhando não se mexe", mas isso seria mera simplificação de algo muito mais trabalhado e trabalhoso. As jogadas ensaiadas do time do Professor Macca continuam funcionando com precisão clínica e rendem gols mesmo após todos esses anos e incontáveis voltas ao país; o repertório de frases em português cresce a cada volta, com destaque aos regionalismos ("manos", "manas", "da hora"). Entretanto, é nos detalhes que se percebe como a arte da conquista é não só empatia mas também fruto de um delicado artesanato, por exemplo, Sir Paul parece intrigado com a pronúncia da palavra "recente", à qual dá especial atenção toda vez que a utiliza.

Em contraste ao esmero linguístico que cria a relação de cumplicidade entre palco e plateia, o esquema tático oferece paralelamente a experiência do arrebatamento e da grandiosidade. As explosões em Live And Let Die continuam espetaculares , a dobradinha A Day In The Life/Give Peace a Chance traz a sensação de bem estar acomodando o porto seguro do denominador comum da paz mundial e Ob-la-di, Ob-la virou uma espécie de "levanta defunto" no terço final do repertório.

E como se não bastasse tudo isso, a velha raposa britânica ainda tem em seu saco de truques o mais valioso catálogo de hits do mundo. O que ainda resta falar sobre Hey Jude (desta vez com milhares de cartazes na plateia com o universal "na na na", cortesia de um dos patrocinadores), Let It Be (a Ave Maria do rock and roll) ou Helter Skelter (um stoner paleolítico)? Ou ainda da assustadora atualidade de Blackbird e da vinheta definitiva da melancolia na forma de Eleanor Rigby?

Nada, no entanto, está imune à passagem do tempo, e isso inclui Sir Paul. O andamento de algumas canções já não é tão rápido como antes (Lady Madonna, Band On The Run) e ao fazer questão de cantar nos tons originais, cantar vira uma luta contra os registros mais altos em determinados momentos. Em Maybe I'm Amazed, muitos se flagram menos fãs e mais torcedores da voz do velho Macca, que já não tem mais a voz poderosa de outrora e sucumbe ao ar rarefeito das linhas mais altas da partitura. Mesmo em momentos mais graves como em My Valentine, a voz parece não vir com a mesma certeza de antes.

Que fique claro: a fragilidade da voz de McCartney pouco prejudica o show. Musical e visualmente, o espetáculo continua impressionante e vale cada centavo. A diferença e que, aos 75 anos, ele encara a questão da própria finitude com a dignidade de quem troca a voz que às vezes falha pela simpatia que nunca falta, e parece entender que a maioria está lá nem tanto para ouvir as canções e mais para participar de algo maior ou de simplesmente estar perante do mais importante ente vivo do rock.

Paradoxalmente, num show de PAUL MCCARTNEY em 2017 a música é, enfim, mera trilha sonora do testemunho de algo cujo fim parece ser cada vez menos distante. Como no Sétimo Selo de Bergman, sua performance no palco torna-se metáfora do próprio jogo da vida: a beleza deixa de estar no xeque-mate impossível, de quem joga contra o tempo, mas de quem joga com ele, na arte de abraçar a vida como ela é, inclusive no que tange sua finitude.

A banda:

Paul McCartney: voz, baixo, guitarra, violão, ukulele e piano
Paul "Wix" Wickens: piano, teclados, acordeon, gaita e voz
Rusty Anderson: guitarra, violão e voz
Brian Ray: baixo, guitarra, violão e voz
Abe Laboriel Jr.: bateria, percussão e voz

Setlist:

A Hard Day's Night
Junior's Farm
Can't Buy Me Love
Jet
Drive My Car
Let Me Roll It (com trecho de Foxy Lady)
I've Got a Feeling
My Valentine
Nineteen Hundred and Eighty-Five
Maybe I'm Amazed
We Can Work It Out
In Spite of All the Danger
Love Me Do (com trecho de "She Loves You")
And I Love Her
Blackbird
Here Today
Queenie Eye
New
Lady Madonna
FourFiveSeconds
Eleanor Rigby
I Wanna Be Your Man
Being for the Benefit of Mr. Kite
Something
A Day in the Life (com trecho de Give Peace a Chance)
Ob-La-Di, Ob-La-Da
Band on the Run
Back in the U.S.S.R.
Let It Be
Live and Let Die
Hey Jude

Yesterday
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Reprise)
Helter Skelter
Birthday
Golden Slumbers/Carry That Weight/The End

(Com o agradecimento a T4F pelo credenciamento)

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