Absu: resenha da apresentação em Fortaleza
Resenha - Absu (Boca Rica, Fortaleza, 25/11/2016)
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 04 de dezembro de 2016
Mais uma vez a Undergroud Produções trouxe ao Brasil um grande nome do cenário que lhe empresta o nome. E Fortaleza não poderia ficar de fora. Cultuada como um dos nomes mais criativos do Black Metal e elogiada por fugir do lugar-comum, a banda norte-americana ABSU foi a atração principal do festival que aconteceu no Teatro Boca Rica, um reduto do underground cearense, nas cercanias do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O local é icônico para a história do Heavy Metal no Ceará. Carece de uma boa reforma, mudanças na pista para evitar acidentes com algum banger mais afoito, mas pertence à memória afetiva dos apreciadores de música extrema no Ceará. O ambiente, fúnebre, escuro, é perfeito para um festival de Black Metal. Confira abaixo como foi o festival.
Evil Church
A noite dedicada às sombras começou com a EVIL CHURCH. A banda foi a responsável por botar o público no Boca Rica e cumpriu com sua obrigação mostrando um som brutal, mas também arrastado da EVIL CHURCH. E também sem muitas palavras trocadas com o público, exceto "Onde Deus está, eu não estou" e "Ave, Lúcifer, por que não".
O show de Smashing (baixo e vocais), Incredolus (guitarra) e Amon (bateria), todos devidamente com corpse paint, teve "Onde eu estou Deus não está", "Where Mediocrity Perishes", "Ave Lucifer", "The War is Consequence", "To The Lord of Chaos" e "Brains Rotten For Lies". O próximo trabalho da EVIL CHURCH será lançar um split com a horda FÊRETRO AVERNAL.
Revel Decay
Com seu Death podre, vocal impressionante, quase monossilábico, mas com um excelente timbre de baixo, muita garra na bateria e um bom punhado de bons solos, a REVEL DECAY não demorou a subir no palco. Leonardo (vocal), Henrique (guitarra), Eri Lima (baixo) e Helano Oliveira (bateria) trouxeram um som que tem a essência da melodia do Death Metal, a melodia do fim do mundo. A banda tocou faixas "Heros Domos", "Portal of Despair", "Platin Bones", "The Flames Shadows Disciple" (essa um death bastante clássico e gostoso de ouvir) e "Slaved By Church" (o bom desta faixa é, principalmente o seu riff) e, sem firulas, ainda incluiu mais uma no setlist original: "Recreation In The Morgue".
Pantáculo Místico
A PANTÁCULO MÍSTICO poderia e merecia ser headliner. O octeto (sim, você leu corretamente) está, lançando seu excelente álbum "Hermético"., com um pagam doom metal extremamente lento, mas cheio de detalhes. Expremidos no palco, realmente pequeno para oito integrantes e ainda duas baterias (a da própria banda e a da ABSU), a banda formada por Cícero Rui (baixo), Leandro Rodrigues e Adriano Alves (guitarras base e solo, respectivamente), Moisés Amok (bateria), Lídio Barros (vocal), Tork Highhill (teclado), Juliana Wayne (vocal) e Holanda Jr. (violino) começou o show com a linda e longa "Viagem Astral", da primeira demo, faixa em que todos os instrumentistas tem destaque, mas o diálogo entre bateria e teclado impressiona especialmente. Em seguida vem as guitarras pungentes de "Vagando por Caminhos Desconhecidos", uma das canções gravadas apenas no "Hermético", o primeiro full-length, cujo lançamento oficial era naquela noite. Destaque-se que, além da iluminação (escura, como é de se esperar num show de black metal), dois candelabros com cinco velas cada ainda ajudam a adornar o show da PANTÁCULO.
A banda é poesia pura. Suas letras (em português, o que é ainda melhor) são poesia oculta, profana. Seu som é rico, sem pressa, até com um tanto de blackgaze. As intervenções de Juliana Wayne, ora cantando como elfa, ora vociferando como uma bruxa, e Holanda Jr. (no violino) são oportunas. Não são constantes, mas também não são pouco importantes. São do tamanho certo. E os dois até preferem ficar na lateral do palco quando não estão participando ativamente. "666 + 777 – A União Do Treze" antecede a mais enérgica e menos fúnebre "Luz do Profundo Abismo", mais uma nova. Realmente não haveria banda melhor para anteceder o ABSU. A PANTÁCULO MÍSTICO se firma cada vez mais, principalmente agora, com o lançamento de "Hermético", como uma das maiores bandas do underground cearense. A bateria de Moisés chama para a guerra, para a última batalha, "Magnitude Oculta", acompanhada pelo teclado e o público, que cantarolava a melodia. Do "Hermético", apenas "Velado por Entidades", que dá nome à segunda demo da banda, ficou de fora. Foi realmente um show para ver e ouvir atentamente, um show de headliner.
ABSU
Mas a atração principal da noite ainda estava por vir. O Boca Rica ansiava pelo metal de mitologia oculta do qual o ABSU é um dos principais expoentes. O show da banda liderada por Proscriptor McGovern (Russley Randell Givens) nos vocais e bateria, com Ezezu (Paul Williamson), no baixo, e Vis Crom (Matt Moore), na guitarra, ´já começou pelo fim, com "Terminus", parte da suíte "…Of Celtic Fire, We Are Born including Terminus (…In the eyes of Ioldánach)", que fecha o álbum "The Third Storm of Cythraul", mas entrou com os dois pés em "Swords and Leather", do álbum que leva o nome da banda, e na faixa-título de "The Sun of Tiphareth", convertendo as três músicas num medley devastador. Apesar do excelente baixo e guitarra, o destaque é Proscriptor. Sem tantos registros visuais e com atuação bem restrita ao underground, além do poder extremo da banda, era de se esperar que até se pensasse que o baterista, embora líder, mentor e único membro de quase todas as formações da banda, não cantasse tanto, deixando este ofício para Ezezu, mas não era o que se via naquela noite no Boca Rica. Proscriptor, além de detonar na bateria, participa ativamente do vocal de todas as faixas, muitas vezes até mais que Ezezu. Não foi a toa que Proscriptor foi cotado para assumir as baquetas do SLAYER e chegou a fazer audições para ocupar a posição de Paul Bostaph/Dave Lombardo.
A banda segue para "Night Fire Canonization" e "Earth Ripper", ambas da trilogia de álbuns que recebe o nome da banda em diferentes idiomas ("Absu", "Abzu" e o vindouro "Apsu"), sempre com Ezezu e Proscriptor dividindo os vocais do fundo das profundezas do inferno.
"The Cognate House of Courtly Witches Lies West of County Meath", é a representante do "Tara". Outro ponto que é óbvio que precisa ser destacado é que, mesmo conhecendo o "Tara", alguns elementos inesperados no Black Metal impressionam bastante. "Morbid Scream" estava no setlist original, mas não posso garantir que foi executada.
"Circles of The Oath" foi mais uma manteve os olhos do público paralisados no palco, apreciando a execução perfeita da canção, mas "Highland Tyrant Attack", uma das mais esperadas da noite, o público recebeu com muitos gritos e até fez roda. "Never Blow Out The Eastern Candle", dos primórdios do ABSU veio em seguida.
Um show como do ABSU não é uma maratona. Mesmo com todas as influências de progressivo e até um tanto de jazz, assemelha-se mais a uma corrida de cem metros. É uma explosão de energia, é incontido, não há reservas, não se economiza nada. Proscriptor, que tanto impressionou por tocar, cantar e agitar o público como fez, deixou o palco claramente esgotado, mas não antes de dar uma canja do "Apzu" e "The Coming of War", mais uma do "The Sun of Tiphareth". Foi um show que nenhum apreciador de metal extremo da cidade poderia perder. Valeu a pena a espera.
E se você ficou curioso pelas referências a tantas entidades desconhecidas (Ioldánach, Tiphareth, o próprio nome da banda), há no endereço abaixo um glossário (em inglês) com explicações sobre tudo aquilo que a banda fala.
http://absu.bandzoogle.com/glossary
Entrevistamos Proscriptor no Underground e Bar na noite anterior. A entrevista estará disponível aqui em breve.
Agradecimentos:
Fabrício Moreira e Underground Produções, pela atenção e credenciamento.
Barcelos Saxon, pelas fotos que ilustram esta matéria.
Setlist Oficial
I Terminus (…In the eyes of Ioldánach), de …Of Celtic Fire, We Are Born including Terminus (…In the eyes of Ioldánach)
Swords and Leather
The Sun of Tiphareth
II Night Fire Canonization
III Earth Ripper
IV The Cognate House of Courtly Witches Lies West of County Meath
V Morbid Scream
VI Circles of The Oath
VII Highland Tyrant Attack
VIII Never Blow Out The Eastern Candle
IX Intro Into Apzu
X The Coming of War
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