Ministry: A banda que separa quem é mero garoto dos homens

Resenha - Ministry (Audio Club, São Paulo, 06/03/2015)

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Por Miguel Júnior
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Essa resenha será uma merda. Já o show não poderia ter sido melhor. Desde que pisei nesta terra de estupro e mel, o multi-instrumentista nascido em Cuba, Al Jourgensen, há trinta anos, é a mente por trás do maior ato de terrorismo tecnológico do metal – o MINISTRY. Vindo a São Paulo numa noite de sexta-feira chuvosa, na região da Barra Funda, fez com que uma legião de garotos, garotas, homens e mulheres vestidos de preto com estampas de bandas como NINE INCH NAILS e MOTORHEAD se aglomerassem na porta do Audio Club para aquilo que seria inédito, talvez único, e que bem provavelmente nunca mais vai acontecer.

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Às 20h e pouco uma fila de gente tentando se esquivar da chuva já aguardava para entrar, sendo que o show estava prometido para as 21h30. Já lá dentro, em poucos segundos, a grade da pista foi totalmente ocupada, inclusive por uma mulher vestida a caráter, com o visual digno de uma verdadeira sósia do Tio Al. Resolvi ficar próximo do palco, no centro, e ouvi fãs conversando sobre a aparente falta de público.

Chegando perto das 21h, o espaço todo já podia ser considerado ocupado, não em completa lotação, mas razoavelmente cheio.
Com setlist semelhante a um dos shows na Austrália no fim de semana anterior, o MINISTRY abriu com “Hail to his majesty”, anunciando que quem estava ali era mero camponês diante da majestade do metal industrial. Repetido ao extremo, o bordão “you’re stupid” era a mensagem clara para quem sabe das ironias desse astro inigualável, que emendou com “Punch in the face”, abrindo a primeira roda da noite. Sim, houve quem realmente desse soco na cara de alguém, talvez de leve, mas o show estava realmente sendo levado a sério desde o início.

Na sequência, “PermaWar” propiciou algum descanso, por ser menos acelerada, e quem olhava em volta já não conseguia acreditar na nuvem de animo geral apenas naquelas faixas do último álbum, “From beer to eternity”, que nem é tão aclamado. “Fairly Unbalanced” e depois, no final do show, “Enjoy the quiet” fecharam as obrigações da banda tocar faixas do álbum mais recente e o resto do show foi uma rajada de clássicos, pedradas e pauleiras sem fim.

Voltando para 2006, época do petardo “Rio Grande Blood”, tivemos de uma vez só três faixas intensas e que já podem ser consideradas pelo menos um dos pontos altos do show. “LiesLiesLies” foi gritada ao infinito por absolutamente todo mundo, cuja letra pede para que não acreditemos nas farsas da direita política. Polêmicas à parte, um refrão com a palavra mentira pode ser realmente forte se você tem mais de mil pessoas na sua frente. Tio Al ia de um canto a outro do palco, com seu pedestal característico, do qual muitos tiravam fotos. No telão, o logo do MINISTRY se alterna com imagens abstratas e ninguém perdia de vista o baterista que, mesmo sorrindo, esbanja fúria sobre as camadas de áudio sampleado. Estávamos vendo o inferno na Terra.

“Waiting” e “Worthless” passaram rápido. Não aguentei a batida e também comecei a pular, parando de só mexer o pescoço. A roda num show do MINISTRY é diferente da de um show de metal qualquer: além do empurra-empurra, dos cabelos balançando, das faces estonteadas por aquele ritual, tem muita gente pulando mesmo, como numa festa. “Worthless” é o melhor exemplo disso, com uma batida inconfundível e uma letra depressiva que nos manda à morte em êxtase. E aí vem a ironia da banda mais uma vez, tocando em seguida “Life is good”, nos pondo numa reflexão filosófica em pleno caos. Se a vida não for boa o bastante, há sempre MINISTRY para ouvir.

Depois de algumas palavras, um pouco difíceis de ouvir, vem o bloco derradeiro. Quatro faixas juntas que não poderiam ter sido melhor escolhidas. Claro que o hit da noite seria “Just One Fix”, que quando foi tocado expandiu o centro das rodas largamente. “N.W.O” e “Thieves”, principalmente, fizeram um bate cabeça generalizado que fez uma cratera na pista do tamanho do espaço, se fechando na parte de bateria rápida da faixa. Foi naquele momento que eu entendi não estar errado em gostar de uma banda como essa, que não é tradicionalista ou conservadora como outras e sim, inovadora e marginal, mas também radical o bastante em todos os seus elementos.

“So What” foi o segundo momento de grande festa, sendo que muitos ali sabiam a letra. Queríamos saber se aquilo iria acabar e gritávamos “e então”, “e então” “e então”, e já prevendo o fim daquela noite mágica, não segurei o choro e bati cabeça com lágrimas voando para todos os lados.

Com a banda saindo do palco, mas com as luzes parcialmente acesas, sabíamos que ainda teríamos um desfecho. E ele aconteceu. “Khyber pass” é uma viagem sonora que te faz ao mesmo tempo bangear e pular mas também girar a cabeça em fluxos de imaginação, aliados às imagens no telão. Tem o seu momento de riff pesado também, para os headbangers. Mas tem também um canto feminino do tipo que veio do Oriente, belíssimo, pondo em transe quem tinha notado a beleza do sublime do fim. Quando acabou, “Enjoy the quiet”, uma profusão de barulho digital, assinou por completo a tese que aprendi quando ouvi MINISTRY pela primeira vez: esta é a banda que separa quem é mero garoto, dos homens.

Setlist

1. Hail to His Majesty
2. Punch in the Face
3. PermaWar
4. Fairly Unbalanced
5. Rio Grande Blood
6. Señor Peligro
7. LiesLiesLies
8. Waiting
9. Worthless
10. Life Is Good
11. N.W.O.
12. Just One Fix
13. Thieves
14. So What
Encore:
15. Khyber Pass
16. Enjoy the Quiet

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Sobre Miguel Júnior

Paulistano, não tem banda porque não sabe tocar, exceto tirar trechos de black metal no violão. Escreve basicamente resenhas de shows que assiste, e deve ter uns 50 ingressos de show já assistidos guardados. Ouve metal mais pelo som, permitindo-se ouvir bandas cuja ideologia não inteiramente concorde. Quer escrever sobre todos os shows extremos e sinceros que acontecem em São Paulo.

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