Joe Satriani: sem tirar nem por, uma aula de guitarra em SP
Resenha - Joe Satriani (Citibank Hall, São Paulo, 01/10/2014)
Por Diego Camara
Postado em 05 de outubro de 2014
Que Joe Satriani é um verdadeiro mestre das guitarras todo mundo sabe. O que ninguém sabia era que o mestre viria em 2014 para fazer uma das melhores apresentações dele no Brasil. Divulgando seu álbum "Unstoppable Momentum", o guitarrista teve a ingrata oportunidade de tocar numa quarta-feira em um dia chuvoso em São Paulo (em partes). Nada que pudesse impedi-lo, e nem mesmo aos fãs.
Fotos: Fernando Yokota
A plateia demorou para chegar ao show, e a casa ficou vazia durante boa parte do tempo. Porém, quando se aproximava do horário marcado para o espetáculo, 22h, a casa lotou bastante: as cadeiras ao fundo ficaram lotadas, os camarotes repletos e a pista bastante cheia – Satriani levou mais gente ao seu show do que Steve Vai, que tocou em dezembro do ano passado.
O show começou em ponto, com Satriani subindo ao palco sem grande alarde e abrindo o espetáculo com a música "Jumpin’ In", do seu último disco, seguida pela eletrizante "Devil’s Slide", do "Engines of Creation" – uma das novidades. A qualidade do som realmente fez a diferença, e a guitarra do mestre podia ser ouvida com perfeição em todo o Citibank Hall. O som dos graves pareceu inicialmente um pouco estourado, especialmente para quem se posicionava próximo às caixas, mas nada que estragou a performance.
A performance, afinal, foi irretocável. A banda que Satriani trouxe desta vez sem dúvidas é uma das melhores formações que já teve no palco, especialmente pela qualidade do grande baterista Marco Minnemann, que é sem dúvidas um dos melhores bateristas da atualidade e fez tremer o Citibank Hall com a potência de suas baquetas por algumas boas vezes.
Completavam a banda Bryan Beller, que toca junto com Minnemann na excelente ARISTOCRATS, e o experiente Mike Keneally, mais conhecido por seus trabalhos com FRANK ZAPPA. Os duetos de Keneally com Satriani, inclusive, foram alguns dos melhores momentos do espetáculo, arrancando aplausos da plateia: a dupla, bastante diferente em estilos, realmente fez um conjunto interessante nos duetos.
Em termos de setlist, Satriani não trouxe lá grandes surpresas. Como nas últimas apresentações, o guitarrista divulgou em grande parte o seu último disco, "Unstoppable Momentum", o qual foi tocado quase que em totalidade: apenas as músicas "Jumpin’ Out", "A Celebration" e "Can’t Go Back" não foram apresentadas ao público brasileiro. O disco novo é bastante decente, e tem a velha qualidade já conhecida de Satriani: porém, apesar disso, as músicas do disco em geral não animaram tanto a plateia quanto os grandes sucessos. Os destaques foram a extremamente progressiva e cadenciada "Lies and Truths" e a também muito boa "A Door Into Summer". O disco é muito superior aos seus antecessores.
O mágico em Satriani é que tudo parece extremamente autêntico em seu show. Não há o exagero, a performance rebuscada comum dos "virtuoses", nem demonstrações de poder. O guitarrista é simples e direto, e com isso domina seu instrumento como ninguém: se alguém viu algum erro dele durante o show, por favor apontem, pois o cara não saiu da linha uma única vez. Com pouca interação, o guitarrista não quer fazer do show uma festa, quer apenas fazer sua arte, com tranquilidade e calma, música por música.
E se o público foi para o show pois queria ver os grandes sucessos, não perdeu realmente a ida ao Citibank Hall. O show foi marcado mais uma vez por tocar um bom número de faixas do clássico "Surfing with the Alien", de 1987. Da extremamente emotiva "Always with Me, Always with You", Satriani ainda trouxe para o palco a música título, que fez o povão bater cabeça e fazer muitos air guitars na plateia.
Para roubar um pouco a cena de Satriani, o público ainda contou com um excelente solo de Marco Minnemann. Desta vez se alguém aproveitou para ir ao banheiro, perdeu uma performance impressionante do batera, que conciliou rapidez, técnica, inteligência e controle de palco com impressionante maestria, levantando o público que se rendeu com muito prazer. Volto a dizer, se curtem rock e jazz ouçam o projeto solo do cara, que mostra isso tudo e muito mais do que ele apresentou no show.
Para fechar o show, que já alcançava duas horas de um belíssimo rock, Satriani ainda trouxe no seu bis as músicas "Crowd Chant" e "Summer Song". Sem nenhum segredo, eram duas das músicas mais esperadas pela plateia, que fez mais uma vez a festa. O público extremamente apaixonado ovacionou a banda em seu final. Não é todo dia que temos o prazer de ver uma performance ao vivo com a qualidade de um disco, perfeita, sem nenhuma ponta solta.
A grande pena, no final, é que a performance de um mestre como Satriani não foi vista por um grande número de brasileiros. Espero francamente que não demore tanto a voltar, e que da próxima vez tenhamos mais apresentações no Brasil, em outros lugares.
Satriani é:
Joe Satriani – Guitarra
Mike Keneally – Teclas e Guitarra
Bryan Beller – Baixo
Marco Minnemann – Bateria
Setlist:
1. Jumpin' In
2. Devil's Slide
3. Flying in a Blue Dream
4. Unstoppable Momentum
5. The Weight of the World
6. Ice 9
7. The Crush of Love
8. I'll Put a Stone on Your Cairn
9. A Door into Summer
10. Lies and Truths
11. Satch Boogie
12. Shine On American Dreamer
13. Three Sheets to the Wind
14. Cryin'
15. Drum Solo
16. Time Machine
17. Always with Me, Always with You
18. Surfing with the Alien
Bis:
19. Crowd Chant
20. Summer Song
Galeria completa de fotos:
https://www.flickr.com/photos/fernandoyokota/sets/72157648241774406/
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