IRA!: A fúria com os 2 punhos erguidos do bom e velho rock'n'roll

Resenha - IRA! (Sesc, Araraquara, 05/06/2014)

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Por Thiago Augusto Corrêa
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Em 2007, O IRA! ainda aproveitava o merecido sucesso do álbum “Acústico MTV”, lançado três anos antes, com mais de 300.000 cópias vendidas. Como diversos outros acústicos lançados pelo falecido canal, a banda foi apresentada a um novo público – somado aos antigos fãs consolidados – e compôs um trabalho que resgata a própria obra em um delicioso formato que destaca sonoridades diferentes das versões originais.

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O álbum “Invisível DJ” estava em rotação, com dois singles lançados, quando a turnê de lançamento foi cancelada, fazendo com que as férias anunciadas na impressa escondessem a insatisfação e o clima pesado da banda. A história que se seguiria é o conhecido término da banda.

O IRA! encerrava a carreira com uma sensação amarga, em meio a brigas e um disco um tanto irregular. O público, que em boa parte não conseguiu assistir à banda tocar ao vivo, reconhecia que nunca mais a veria no palco.

Seis anos depois, Nasi e Edgard Scandurra se reúnem para um show beneficente. Uma primeira fagulha que, apesar de toda a problemática, demonstra haver parceria e amizade na dupla. Em janeiro deste ano, a imprensa foi informada sobre uma possível volta do IRA! cujo retorno iniciou-se de maneira triunfal na Virada Cultural, em São Paulo,seguindo em turnê pelo interior paulista com um marco inicial de 200 shows previstos para os próximos dois anos.

“Núcleo Base” foi o nome escolhido para a turnê, uma homenagem à segunda faixa do primeiro álbum, “Mudança de Comportamento”,canção ainda fresca e visceral em 29 anos de existência. É a base também porque o setlist escolhido para a volta resgata o que há de melhor na excelente discografia da banda.

Em 6 de junho, O IRA! entrou no palco do Sesc Araraquara disposto a provar que continua furioso, mesmo após o hiato de sete anos. Na formação apenas Scandurra e Nasi permanecem. Evaristo Pádua, Daniel Rocha e Johnny Boy foram escalados para complementar a estrutura do grupo.

No show, apenas dois álbuns foram ignorados: Música Calma para Pessoas Nervosas, de 1993, e “Você não Sabe Quem Eu Sou”, de 1998. As outras gravações de estúdio foram contempladas, com destaque evidente para “Mudança de Comportamento” e “Vivendo e Não Aprendendo”, dois grandiosos discos que, juntos, representam certeiros golpes de direita e esquerda, fortes, maduros e coesos.

A setlist é a mesma apresentada na Virada Cultural e nos shows seguintes. Porém, em relação à Virada, pequenas inversões foram realizadas. No palco, Scandurra e Nasi são os últimos a entrarem, e o público reconhece o bom show ao qual logo assistiria quando Nasi, em seus primeiros minutos, grita ao público dizendo que deseja ouvir os “Gritos da Multidão”.

Muito se comentou sobre a forma física de Nasi, mais robusta do que a vista nas últimas aparições da banda. Mas o que importa no final é a sua voz grave e rouca que, em perfeita forma, traz urgência às canções. O cantor mantém a ferocidade vocal e descarrega agressão nas músicas de protesto ao mesmo tempo em que impõe suavidade nas melodias inocentes e sensíveis.

“Gritos na Multidão”, “Longe de Tudo” e “Assim Que Me Querem” é a trinca que abre o show. São canções primordiais que aproximam os fãs antigos dos novos, os quais são fulminados com a seguinte, “Flerte Fatal”, lavra inédita do Acústico, mas dessa vez em versão plugada.

A escolha das músicas equilibra os dois polos primordiais da banda. Letras melancólicas e inocentes de cunho amoroso e a verve de protesto urbano. É dessa maneira que canções como “Tarde Vazia” e “Dias de Luta”são balanceadas entre agressividade e calmaria.

Além das canções primordiais, a banda apresenta “ABCD”, faixa inédita composta por Scandurra e apresentada a Nasi por ter o estilo da banda. Com uma guitarra suingada, a composição brinca com as letras iniciais do alfabeto utilizando uma mulher fatal como eu-lírico. Uma prova de que o IRA! não só retornou como também dá indícios de que pretende ir além.

No palco, Scandurra é uma explosão. Mesmo quem já reconhece o talento do guitarrista se surpreende ao vê-lo no palco e, provavelmente, dedicará um tempo observando sua habilidade de transformar os acordes e solos em uma atividade fácil. Tocando guitarra invertida, sem modificar a sequência de cordas, Scandurra produz riffs enquanto não sai da base melódica das canções. Sem utilizar palheta, o músico demonstra que buscou um estilo próprio ao tocar. Executa diversos de seus solos com a ponta dos dedos, como fazem os baixistas. E, acima de tudo, parece sentir cada acorde como se o instrumento fosse parte de si. Dentro de melodias conhecidas há anos, o músico improvisa diversos solos e riffs, encorpando-as ainda mais.

Ao mesmo tempo, Nasi é o dono da potente voz que dá vida e significado a cada uma das letras. As interpretações são carregadas de emoção e trazem um senso de frescor às composições. A verve juvenil de muitas das canções – “Tolices”, “Quinze Anos”, “Mudança de Comportamento” – se tornam universais mesmo quando executadas por atuais cinquentões, o que demonstra que certos sentimentos são refletidos em diversos momentos da vida.

O show encerra sua primeira parte – antes do bis – unindo o velho e o novo. “O Bom e Velho Rock´n'Roll” é a canção mais pesada da noite. Nasi, de joelhos, versa o trecho inicial como se estivesse orando a uma divindade suprema, louvando o rock em companhia do público. Em seguida, Scandurra entoa os versos iniciais do refrão de “Envelheço na Cidade”, um dos grandes clássicos da banda, e, logo depois,executa a canção-título da turnê, “Núcleo Base”.

No retorno aos palcos, após o teatral entreato de sair de cena por alguns instantes, a linda “Girassol” caracteriza o último momento de calmaria. Para o bis, diz Scandurra, a seleção foi feita por Lados B. Empunhando a guitarra, o músico entoa os primeiros acordes de “Prisão Nas Ruas”.

As três canções que fecham o show, “Como Os Ponteiros de Um Relógio”, “Pobre Paulista” e “Nas Ruas”, demonstram a urgência de que ainda permanecem em sintonia com o contemporâneo. Os incômodos versos de protesto são cantados em coro e parecem ir além da música, como se o público, descontente com a sua própria condição social, reconheça nas letras uma espécie de libertação.

No palco, o IRA! reflete uma longa carreira sólida e demonstra que sete anos em hiato não foram o suficiente para aplacar a fúria, que retorna com os dois punhos erguidos do bom e velho rock´n´roll.

SETLIST:

Gritos na Multidão
Longe de Tudo
É Assim Que Me Querem
Flerte Fatal
Tarde Vazia
Dias de Luta
ABCD
Flores em Você
No Universo dos Seus Olhos
Tolices
Mudança de Comportamento
Rubro Zorro
Quinze Anos
Coração
Eu Quero Sempre Mais
O Bom e Velho Rock n' Roll
Envelheço na Cidade
Núcleo Base

O Girassol
Prisão das Ruas
Como os Ponteiros de um Relógio
Pobre Paulista
Nas Ruas

Galeria de imagens do show em
https://www.facebook.com/lartprodutora

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