Bacamarte: repertório salva noite fadada a recordações

Resenha - Bacamarte (Teatro Rival, Rio de Janeiro, 23/09/2012)

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Fonte: Rock em Geral
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Por Marcos Bragatto. Publicado originalmente no Rock em Geral.

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Bacamarte sofre com produção terrível e desentrosamento, mas repertório de álbum clássico salva noite fadada a recordações. Foto: Divulgação e Reprodução/Internet.

A ideia era das melhores: reunir a formação clássica do Bacamarte no 3o Rio Prog Festival para tocar a íntegra do álbum “Depois do Fim”, uma referência no rock progressivo nacional e destaque nas listas de melhores de todos os tempos mundo afora. Só faltou combinar com os músicos que era preciso muito mais ensaio e chamar alguém para operar a mesa de som. Por pouco, muito pouco mesmo, uma noite histórica não se transforma no grande mico do ano. Não fosse um repertório raro, ainda que mal ensaiado, e uma plateia predisposta a reviver emoções do passado, tudo teria ido por água abaixo.

Em alguns momentos, foi. Não é possível, por exemplo, um tecladista com os olhos vidrados numa tela de computador ou em uma partitura sob o medo de errar. Muito menos a espera das cerca de 400 pessoas que lotaram o Teatro Rival pela entrada de um trecho de flauta e o instrumento simplesmente não ser ouvido. A coisa estava tão ruim que um envergonhado Mario Neto, o cara por trás do Bacamarte, chegou a culpar a “temperatura pela afinação ruim”, e, depois, fez questão de tocar pela segunda vez a tribal “Filhos do Sol”. “Essa não valeu, vamos fazer de novo”, disse, meticuloso, num, bem humorado desabafo. Com a mesa de som praticamente à deriva, o grupo sofreu um bocado até conseguir se acertar minimamente, o que – de fato - só foi acontecer no bis.

O artifício de tocar a íntegra de um álbum pode ter lá suas variantes, mas no caso do rock progressivo, com as músicas formando as tais suítes, é preciso emendar as faixas uma nas outras para fazer a viagem ser completa. Por isso as paradas entre as músicas para ajustes aqui e ali quase colocam tudo a perder. Quase porque, mesmo com todos os problemas, é impossível não se sentir tocado com melodias e arranjos tão sutis e, ao mesmo tempo rebuscados. O clímax que deságua na bela inflexão vocal de Jane Duboc em “Smog Alado” é de arrepiar e passa por cima de qualquer empecilho técnico; no bis, então, com tudo mais ajustado, a plateia, em frangalhos, vem abaixo sob forte emoção.

A cantora, com um figurino de madrinha de casamento, conseguiu adaptar bem a voz, 29 anos depois. As intervenções em “Último Entardecer” e em “Depois do Fim” resultaram em grande vibração no público, que sabia de cor e salteado cada passagem executada pela banda. Não é exagero afirmar que o Bacamarte e Jane Duboc se anteciparam ao uso do vocal feminino no rock e – sobretudo - na música pesada, tendência que ganhou força a partir dos anos 1990 em todo o mundo. Uma pena que o grupo não tenha sido mais prolífico, deixando na história “apenas” este “Depois do Fim”, de 1983, e “Sete Cidades”, álbum gravado praticamente sozinho por Mario Neto, em 1999.

São desse disco as músicas tocadas na segunda parte do show, com Mario Neto enveredando por uma guitarra “double neck” que enfatiza o modo meticuloso do músico de compor e gravar, usando muitos dedilhados. Uma das melhores, mas sem o instrumento, é “Espíritos da Terra”, música de rara melodia que tem um solo inspirado de Neto e recebe os vocais de Jane Duboc – que não gravou o disco - com muita naturalidade. No bis, o grupo volta de forma triunfal para repetir “Smog Alado”, agora sim, com tudo acertado, e “Pássaro de Luz”, transformando o Rival numa grade festa revivalista. Como, aliás, a noite se anunciava.

Veja também: a primeira noite do festival, com Martin Turner’s Wishbone Ash

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