Resenha - Iron Maiden (Pacaembú, São Paulo, 17/01/2004)

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Por João Paulo Andrade
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Fotos: Marcelo Rossi

Um Pacaembú lotado e inflamado, com muito mais do que as 30.000 pessoas anunciadas oficialmente quando da venda dos ingressos (fala-se em 45.000 pessoas) recebeu a Donzela de Ferro para o seu segundo show da tour Dance Of Death no Brasil.

O Shaman não foi feliz em seu show de abertura. Prejudicado por um som fraco, sem definição, e vez por outra perdendo alguns instrumentos, apenas empolgou aos fãs da banda. Definitivamente um show abaixo da capacidade da banda. Uma pena. O setlist, felizmente maior do que o da banda Heavenfalls no Rio de Janeiro, incluiu "Here I Am", "Distant Thunder", "Time Will Come", "For Tomorrow" e "Fairy Tale". Como surpresas (visto que comentava-se que a banda não tocaria covers), "No More Tears" de Ozzy Osbourne e a indefectível "Carry On",

Já o show do Iron não teve surpresas. O setlist foi exatamente o mesmo executado no Rio de Janeiro e em outras datas da tour, desde a introdução com "Doctor Doctor" do UFO nos PAS até o bis com "Run To The Hills". Se é possível reclamar da escolha das músicas, com um excesso de faixas do último álbum, ou do setlist curto, o mesmo não pode se dizer da ordem em que são executadas. O início e final empolgantes do show apagam qualquer lembrança do meio monótono. As músicas novas, grata surpresa, rendem muito bem ao vivo (inclusive, pasme, a "acústica" "Journeyman"), apesar de em sua maioria não empolgarem tanto o público, que apenas canta os refrões. Quanto aos clássicos, há quem reclame que não aguenta mais escutar "The Trooper", "Hallowed Be Thy Name" ou "Iron Maiden"... mas como questionar a sua inclusão quando se vê a inflamação da platéia aos primeiros acordes destas músicas? A verdade é que, com uma carreira longa e prolífica em hits como é a do Iron, dificilmente um setlist agradará à maioria do público.

Conforme comentamos a banda Shaman havia sofrido com o som na abertura do show. O som no show do Iron Maiden viria a melhorar consideravelmente, mas ainda assim esperava-se mais volume. No Rio de Janeiro a qualidade e potência do som foram muito superiores. Talvez seja injusto comparar o show do Rio de Janeiro, em local fechado, ao show de São Paulo, realizado em um estádio, mas perde-se por um lado e ganha-se por outro. Em São Paulo o público maior fez diferença. Embora a qualidade técnica tenha sido pior, o mar de pessoas na pista e as olas nas arquibancadas compensavam qualquer deficiência de som em relação ao show do Rio. Ouvi comentários de que o público carioca, embora menor, era mais selvagem. Respeito quem tem esta opinião, mas não concordo.

A empolgação do público era definitivamente alta. Fato inédito nos shows que presenciei, pela primeira vez vi um vocalista preocupado com a segurança do público. Bruce Dickinson interrompeu o show para pedir que quem tentava chegar às primeiras filas parasse de empurrar. Lembrou que pessoas poderiam morrer, e que não gostaria que ninguém saísse dali direto para um cemitério. Coincidência ou não, o clima de pressão do público melhorou dali em diante, embora a empolgação não tenha diminuído.

O palco da tour é soberbo. Um castelo medieval guardado por duas "mortes" nas laterais. Decepcionante apenas a produção para a música Paschendale, que parecia ter mais detalhes durante a tour européia. Aqui não havia cascata ao fundo, e não haviam as tão faladas dezenas de figurantes que simulariam a batalha. Ao invés disso apenas um belo pano de fundo, algumas cercas de arama farpado com corpos pendurados e uma performance de Mr. Dickinson vestido a caráter. Não era a primeira performance da noite, visto que ele também se vestira de morte para Dance Of Death. Podem me chamar de chato, mas achei estes teatros totalmente dispensáveis.

Por mais que já tenhamos visto bons shows do Iron Maiden, a performance da banda sempre surpreende à medida que os anos passam. Se eu já não tenho o fôlego que tinha a cinco anos para aguentar um show destes, como é que estes sujeitos conseguem se manter tão ativos após mais de vinte anos de estrada? Bruce continua um menino no palco, correndo e pulando. Nicko é o carisma em pessoa; o mais aplaudido e cujo nome é gritado mais alto. Steve, Adrian e Dave podem não ser explosivos, mas são perfeitos em suas funções. Alguém tem dúvidas sobre a função de Janick Gers no palco? Ora... ele é peça fundamental para ficar rodando a guitarra, jogando-a para cima, e para brigar com Eddie durante a faixa "The Number Of The Beast" enquanto os outros tocam. @:) Brincadeiras à parte, Janick pode tocar menos do que Murray e Adrian, mas empolga muito mais, e é, sim, peça fundamental no show do Iron Maiden.

Ponto fraco a ser destacado? Talvez apenas a total previsibilidade. Desde a música de introdução até o último bis, a banda e a produção funcionam como um relógio, sem nenhum tipo de desvio em relação ao roteiro programado. Não apenas as músicas são exatamente as mesmas que eram esperadas e na mesma ordem dos shows anteriores, mas até mesmo os comentários entre as músicas são praticamente idênticos. Entendo que devido à necessidade de mudança de planos de fundo ou acessórios no palco, seja necessário obedecer uma ordem, mas é imperdoável a precisão cirúrgica com que a banda não se desvia do roteiro. Não custaria nada variar ao menos uma ou duas músicas no bis, o que geraria um pouco de curiosidade e expectativa e diminuiriam a sensação de dejavu.

Um indicativo extra da extrema previsibilidade do show foi o discurso de Bruce alfinetando o Metallica por ter cancelado um show no Brasil, idêntico ao proferido no Rio de Janeiro. Bruce comenta: "Sempre iremos retornar ao Brasil. E quando marcarmos um show, não o iremos cancelar!" ao que o público responde com "Ei, Metallica! Vai tomar no ...". Bruce finge a mesma cara de surpresa que expressara no Rio. Mas se o público de São Paulo perdoou o Iron Maiden por não ter visitado a cidade quando de sua vinda para o Rock In Rio, bem com os perdoou por um cancelamento em cima da hora do show de Campinas alguns anos atrás (que não foi culpa da banda, diga-se de passagem), porque não perdoaria o Metallica? Esperar para ver...

Uma banda no auge de sua forma apesar de quase cinquentões, fazendo a tour de um bom disco. Apesar do set-list um pouco burocrático e previsível, um show quase perfeito. O Iron Maiden conseguiu tirar leite de pedra em dois dos melhores shows que já fizeram em nossas terras. Ambas as apresentações foram superiores ao show do Rock In Rio, apenas para citar um exemplo clássico.

Fica de ruim a sensação de vazio após o show por sabermos que acabamos de assistir uma performance que vai demorar algum tempo para ser igualada.

Set List Shaman

01. Intro (Ancient Winds)
02. Here I Am
03. Distant Thunder
04. Time Will Come
05. For Tomorrow
06. No More Tears
07. Fairy Tale
08. Carry On

Set List Iron Maiden

01.Wildest Dreams
02. Wrathchild
03. Can I play With Madness
04. The Trooper
05. Dance Of Death
06. Rainmaker
07. Brave New World
08. Paschendale
09. Lord Of The Flies
10. No More Lies
11. Hallowed Be Thy Name
12. Fear Of The Dark
13. Iron Maiden
14. Journeyman
15. The Number Of The Beast
16. Run To The Hills

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Sobre João Paulo Andrade

Sempre quis viver de Rock e/ou Heavy Metal. Tentou tocar baixo mas era tremendamente incompetente no instrumento. Em 1996 criou o site Whiplash.Net e hoje vive do seu sonho. :-)

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