Sepultura e irmãos Cavalera: da vanguarda ao apequenamento

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Por Ricardo Seelig, Fonte: Collectors Room
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Em 1996, o Sepultura era uma das bandas mais inovadoras e vanguardistas do heavy metal. Com a trinca "Arise" (1991), "Chaos A.D." (1993) e "Roots" (1996), o quarteto natural de Belo Horizonte e formado por Max Cavalera, Andreas Kisser, Paujo Jr. e Igor Cavalera crescia a cada minuto, e era apontado por todos como uma espécie de novo Metallica, o próximo nome a estourar no metal.

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E realmente explodiu, só que da maneira errada. O ego inflado, as diferenças sobre os rumos do grupo e as questões familiares envolvendo Max e sua esposa Gloria, também manager da banda (a morte traumática e repentina do enteado de Max, Dana, foi o gatilho final desse processo), levaram o Sepultura a se dividir, com o vocalista deixando a banda enquanto o trio restante ficou sem rumo.

Pausa, casa arrumada, Derrick Green como vocalista e a retomada da carreira. Do outro lado, Max intensificando a sonoridade de "Roots" com o Soulfly e seguindo a vida com uma nova banda nos Estados Unidos.

Então, vinte anos, aqui estamos nós. E os rapazes mineiros também, só que em uma situação bem diferente. O Sepultura, agora sob a liderança de Andreas e com Eloy Casagrande na bateria, anunciou uma turnê pelo Brasil com Lobão. E Max e Iggor (que agora assina o nome com dois G, sabe-se lá o motivo) retornam ao país para celebrar o aniversário de duas décadas de "Roots".

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Todo esse movimento gera algumas conclusões e levanta alguns questionamentos. Começando pelo Sepultura. O que era para ser uma grande banda em escala planetária (nunca vou esquecer uma entrevista em que Herbert Viana comenta que só foi entender a proporção que o Sepultura havia tomado quando, ao passear pelo interior do País de Gales, encontrou uma ponte pichada com o nome da banda) aos poucos foi decaindo e perdendo público mundo afora. Ainda que a chama criativa tenha permanecido ardendo em bons discos como "Roorback" (2003), "Dante XXI" (2006) e "A-Lex" (2009), gradativamente o Sepultura foi se apequenando por uma série de fatores. A influência dos caras ninguém tira, isso é um fato, mas a relevância do conjunto no cenário do metal foi se esvaindo pouco a pouco.

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O anúncio da turnê com Lobão é sintomática. E estranha. E bizarra. Lobão, um dos grandes nomes do rock BR da década de 1980, com passagens pelo Vímana e pela Blitz, e que nos últimos anos se notabilizou mais devido à sua posição política do que pela música que segue produzindo. Independente de concordar ou não com as opiniões do velho lobo (pessoalmente, discordo do discurso de ódio adotado pelo artista, que se defende afirmando que também é atacado da mesma maneira - mas combater pedras atirando mais pedras é meio improdutivo, não acham?), é estranho unir artistas de sonoridade tão contrastante e discurso tão antagônico (não esqueçam que o Sepultura gravou hinos anti-sistema do calibre de "Refuse/Resist"). A conta é simples: quem é fã de Sepultura dificilmente curtirá o lirismo de "Chorando no Campo", e quem curte Lobão provavelmente sairá de cabeça inchada com o peso e a pancadaria dos mineiros.

As reações dos fãs nas redes sociais do Sepultura já dão uma pista de como a notícia não foi bem aceita. E não se trata de conservadorismo auditivo, uma vez que o Sepultura sempre andou pra frente e experimentou em sua carreira, fazendo parcerias inusitadas com frequência - a genial união com Zé Ramalho no Rock in Rio 2013 foi uma belíssima bola dentro. Mas é que, com Lobão, a coisa parece ser uma tentativa forçada de unir água com vinho.

Em relação a Max e Iggor, não há nada de errado em fazer uma turnê comemorando os 20 anos do disco mais importante e conhecido da carreira de ambos. Até aí, tudo bem. A questão é que o discurso de ambos (principalmente Max), sempre atacando o Sepultura e coisa e tal, soa meio sem sentido quando ambos resolvem retornar para o universo que criticam continuamente, deixando de lado suas carreiras atuais. Max conseguiu desenvolver uma trajetória sólida e atrativa com o Soulfly, com discos excelentes como "Dark Ages" (2005), "Omen" (2010) e "Enslaved" (2012), além de retomar a parceria com o irmão no Cavalera Conspiracy. Porém, a celebração aos vinte anos de "Roots" somado ao fato de o vocalista, passados todos esses anos, não conseguir se distanciar e superar os fatos que aconteceram lá em 1996 e levaram à separação do Sepultura, mantendo uma agenda ativa de críticas a Andreas e companhia, independente da boa receptividade aos álbuns do Soulfly, soa incoerente e mostra um raciocínio confuso. Segue em frente, amigo. Supera de uma vez! O resultado é que esse retorno a "Roots" parece um atestado, passado pelos próprios irmãos Cavalera, de que suas carreiras pós-Sepultura não produziram nada relevante - o que, é claro, não é verdade, vide a sólida discografia do Soulfly e os próprios discos do Cavalera Conspiracy.

Enfim, é triste presenciar o ocaso e a irrelevância que vai tomando conta das carreiras do Sepultura e dos irmãos Cavalera. Pouco a pouco, dia após dia, os protagonistas de alguns dos discos mais importantes e influentes do heavy metal, e os maiores nomes que o Brasil já deu ao gênero, ficam cada vez mais pequenos, em um processo que é injusto com os fãs e, sobretudo, com suas próprias carreiras.

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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