Sepultura e irmãos Cavalera: da vanguarda ao apequenamento
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 28 de outubro de 2016
Em 1996, o Sepultura era uma das bandas mais inovadoras e vanguardistas do heavy metal. Com a trinca "Arise" (1991), "Chaos A.D." (1993) e "Roots" (1996), o quarteto natural de Belo Horizonte e formado por Max Cavalera, Andreas Kisser, Paujo Jr. e Igor Cavalera crescia a cada minuto, e era apontado por todos como uma espécie de novo Metallica, o próximo nome a estourar no metal.
E realmente explodiu, só que da maneira errada. O ego inflado, as diferenças sobre os rumos do grupo e as questões familiares envolvendo Max e sua esposa Gloria, também manager da banda (a morte traumática e repentina do enteado de Max, Dana, foi o gatilho final desse processo), levaram o Sepultura a se dividir, com o vocalista deixando a banda enquanto o trio restante ficou sem rumo.
Pausa, casa arrumada, Derrick Green como vocalista e a retomada da carreira. Do outro lado, Max intensificando a sonoridade de "Roots" com o Soulfly e seguindo a vida com uma nova banda nos Estados Unidos.
Então, vinte anos, aqui estamos nós. E os rapazes mineiros também, só que em uma situação bem diferente. O Sepultura, agora sob a liderança de Andreas e com Eloy Casagrande na bateria, anunciou uma turnê pelo Brasil com Lobão. E Max e Iggor (que agora assina o nome com dois G, sabe-se lá o motivo) retornam ao país para celebrar o aniversário de duas décadas de "Roots".
Todo esse movimento gera algumas conclusões e levanta alguns questionamentos. Começando pelo Sepultura. O que era para ser uma grande banda em escala planetária (nunca vou esquecer uma entrevista em que Herbert Viana comenta que só foi entender a proporção que o Sepultura havia tomado quando, ao passear pelo interior do País de Gales, encontrou uma ponte pichada com o nome da banda) aos poucos foi decaindo e perdendo público mundo afora. Ainda que a chama criativa tenha permanecido ardendo em bons discos como "Roorback" (2003), "Dante XXI" (2006) e "A-Lex" (2009), gradativamente o Sepultura foi se apequenando por uma série de fatores. A influência dos caras ninguém tira, isso é um fato, mas a relevância do conjunto no cenário do metal foi se esvaindo pouco a pouco.
O anúncio da turnê com Lobão é sintomática. E estranha. E bizarra. Lobão, um dos grandes nomes do rock BR da década de 1980, com passagens pelo Vímana e pela Blitz, e que nos últimos anos se notabilizou mais devido à sua posição política do que pela música que segue produzindo. Independente de concordar ou não com as opiniões do velho lobo (pessoalmente, discordo do discurso de ódio adotado pelo artista, que se defende afirmando que também é atacado da mesma maneira - mas combater pedras atirando mais pedras é meio improdutivo, não acham?), é estranho unir artistas de sonoridade tão contrastante e discurso tão antagônico (não esqueçam que o Sepultura gravou hinos anti-sistema do calibre de "Refuse/Resist"). A conta é simples: quem é fã de Sepultura dificilmente curtirá o lirismo de "Chorando no Campo", e quem curte Lobão provavelmente sairá de cabeça inchada com o peso e a pancadaria dos mineiros.
As reações dos fãs nas redes sociais do Sepultura já dão uma pista de como a notícia não foi bem aceita. E não se trata de conservadorismo auditivo, uma vez que o Sepultura sempre andou pra frente e experimentou em sua carreira, fazendo parcerias inusitadas com frequência - a genial união com Zé Ramalho no Rock in Rio 2013 foi uma belíssima bola dentro. Mas é que, com Lobão, a coisa parece ser uma tentativa forçada de unir água com vinho.
Em relação a Max e Iggor, não há nada de errado em fazer uma turnê comemorando os 20 anos do disco mais importante e conhecido da carreira de ambos. Até aí, tudo bem. A questão é que o discurso de ambos (principalmente Max), sempre atacando o Sepultura e coisa e tal, soa meio sem sentido quando ambos resolvem retornar para o universo que criticam continuamente, deixando de lado suas carreiras atuais. Max conseguiu desenvolver uma trajetória sólida e atrativa com o Soulfly, com discos excelentes como "Dark Ages" (2005), "Omen" (2010) e "Enslaved" (2012), além de retomar a parceria com o irmão no Cavalera Conspiracy. Porém, a celebração aos vinte anos de "Roots" somado ao fato de o vocalista, passados todos esses anos, não conseguir se distanciar e superar os fatos que aconteceram lá em 1996 e levaram à separação do Sepultura, mantendo uma agenda ativa de críticas a Andreas e companhia, independente da boa receptividade aos álbuns do Soulfly, soa incoerente e mostra um raciocínio confuso. Segue em frente, amigo. Supera de uma vez! O resultado é que esse retorno a "Roots" parece um atestado, passado pelos próprios irmãos Cavalera, de que suas carreiras pós-Sepultura não produziram nada relevante - o que, é claro, não é verdade, vide a sólida discografia do Soulfly e os próprios discos do Cavalera Conspiracy.
Enfim, é triste presenciar o ocaso e a irrelevância que vai tomando conta das carreiras do Sepultura e dos irmãos Cavalera. Pouco a pouco, dia após dia, os protagonistas de alguns dos discos mais importantes e influentes do heavy metal, e os maiores nomes que o Brasil já deu ao gênero, ficam cada vez mais pequenos, em um processo que é injusto com os fãs e, sobretudo, com suas próprias carreiras.
Comente: Você concorda que a carreira do Sepultura e dos irmãos Cavalera está cada vez encolhendo mais?
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Mastodon oficializa nova formação, que conta com músico brasileiro
Nicko McBrain surpreende ao eleger os álbuns do Iron Maiden do pior ao melhor
A banda que bateu um recorde dos Beatles e afundou em poucos anos
A música do AC/DC que Angus Young escolheu como sua favorita na guitarra
O disco de 1983 que Dave Grohl sabe tocar de cor e salteado; "Conheço cada virada de bateria"
A opinião de Steve Harris, do Iron Maiden, sobre o The Darkness
O lado bom e o ruim de fazer shows na América do Sul, segundo o líder do Iron Maiden
Steve Harris relembra o dia em que bebeu antes de um show do Iron Maiden
Mike Browning, baterista e vocalista original do Morbid Angel, morre aos 62 anos
Iron Maiden transforma primeiro festival próprio em celebração monumental de 50 anos
Mastodon anuncia novo álbum e lança faixa com participação de Josh Homme
Ex-baterista do Guns N' Roses fala sobre o Axl Rose que a maioria não conhece
Rock e Heavy Metal - lançamentos de faixas, álbuns e mais novidades
5 músicas de heavy metal que são maiores que as próprias bandas
Novo vídeo mostra como está Mingau quase três anos após o tiro na cabeça

5 músicas que quando tocam no show todo fã de metal entra no mosh na hora
A opinião de Luis Mariutti sobre a turnê de despedida do Sepultura
10 músicas do metal brasileiro lançadas após 2000 que já entraram para a história
A melhor música do Alice in Chains, na opinião de Max Cavalera
Como foi o último show do Sepultura com Max Cavalera, segundo os membros da banda
O que poderia ter mudado a história do Sepultura, na visão de Max Cavalera
Derrick Green abre o jogo sobre motivos para o fim do Sepultura
A música do Anthrax que Andreas Kisser considera "quase prog"
Max Cavalera e Andreas Kisser usaram uma guitarra e uma palheta nas gravações de "Schizophrenia"
Max Cavalera explica o que fez o Sepultura mudar o som em "Chaos A.D."
Lobão: a defesa do roqueiro solitário
Preconceito: dificuldades de ser roqueiro em cidade do interior


