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Joe Satriani: Uma forma de acessar sentimentos por meio de seis cordas

Por Rodrigo Contrera
Em 18/07/16

Todo aficcionado em guitarras sabe que, desde a década de 90, dois grandes instrumentistas dominam o panorama: Joe Satriani e Steve Vai. Ambos têm suas qualidades; ambos possuem características especiais; ambos seguem carreiras de sucesso; ambos são reconhecidos por todos como dois dos maiores das seis cordas (isso quando o Steve não se mete com guitarras maiores). Aqui eu farei uma viagem por algo da obra do Joe, antigo professor do Steve (o primeiro, aliás).

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Joe parece ser o cara que não envelhece. Nasceu em 50 e cacetada e mantém a face de um adolescente. Possui um carisma raro, em que nada parece bater, e não transparece qualquer estrelismo. Parece ser um surfista prateado da Califórnia, onde viveu e onde fazia seus malabarismos na rua, ganhando uns trocados. Fui a um show dele, no Credicard Hall, numa época em que ele fazia muito barulho, mas fiquei tão longe (e acompanhado da esposa, que não entendia nada) que não curti.

Comecei a conhecer o Joe por meio do Surfing with the alien, em que usou na capa o Surfista Prateado. Ainda tenho em casa a HQ que narra a história do personagem, mas ele em nada me trazia o Joe. Este, ao contrário, me motivava a curtir o sentimento primevo que eu conseguia cultivar a duras penas por meio de suas faixas, que me levavam a diversos lugares. Ora a alegria, a curtição, a um certo sentimento soturno, à necessidade de conversar (mas sem saber como pedir).

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Eu tinha duas fitas K-7 copiadas dos LPs comigo dele. Not of this Earth e Surfing. Eu não podia saber, mas Not of havia sido o primeiro LP dele, e não o Surfing. Mas foi com este que ele ficou realmente mais conhecido, e com ele que ele estourou no ambiente que eu frequentava (de fanáticos por heavy metal, e guitarristas em geral). Ocorre que o Joe passou a ocupar um lugar especial neste grupo, pelo simples fato de que ele parecia dialogar, falar mesmo, com as notas. Eu sentia que ele me dizia algo que eu entendia (e não estou pirando).

A questão é que, embora toque, e muito, Joe brinca com as notas, e por vezes nos faz crer que está falando - literalmente - conosco. Como na faixa-título de seu primeiro CD. Ali, tudo começa meio sem querer, aparentemente, mas logo vemos que, por detrás dos solos que ele emite, ele meio que faz um jogo de esconde-esconde quanto àquilo que ele parece querer dizer. Daí que seguimos o ritmo de tudo, mas ficamos presos àquelas notas soltas, meio que não dizendo tanto a ver com a melodia, e atentos àquilo que podemos delas decifrar. Assim é o Joe diversas vezes, e não só ali, em muitos outros momentos - do disco e da carreira.

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Claro que se fosse somente por isso ficaria fácil entendê-lo. Mas não é. Joe trabalha com texturas. Porque seus timbres, quando esgarçados, realmente por vezes não parecem notas, de tão sujos, e mais assemelham-se a pinceladas sujas de tinta que ele joga aqui e acolá meio que tentando conter a partitura como um todo. Eu estaria sendo redundante se comentasse a rapidez do toque dele, ou a limpidez do traço desse mesmo toque. O Joe pode ser entendido pelos especialistas muito melhor do que comigo. Mas é a impressão sensível que seu jeito e suas músicas me causam que eu quero compartilhar. E um detalhe que agora abordo é seu humor.

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A gente, claro, consegue imaginar o Joe de mau humor. É natural, todos passamos por esses momentos. Mas, sei lá, ouvindo-o e vendo como ele nomeia as faixas de seus CDs eu não consigo imaginá-lo sendo dominado por ele, pelo mau humor. Esses caras da costa Oeste dos EUA são assim. Descolados, ou pelo jeito parecem ser. Como imaginar que o Joe fosse entender a Cobra (the Snake) de forma séria, macambúzia, com tudo a que ela consegue remeter? Nada. Nesse próprio CD que ouvimos, lá está ela, e claro, dançando, brincando com a gente, repletos de guitarras por todos os lados, mesmo que por vezes a melodia pareça simples demais para nos satisfazer. A gente consegue imaginar a coisa (a cobra) dançando. E ela dança com muitos timbres, de muitas formas, em solo, ou mesmo no baixo que ondula. Sempre se reinventando - como o próprio Joe.

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Um aspecto que transparece em Joe é sua clara e patente generosidade. Porque, claro, os CDs são do seu trabalho. Mas nunca nos sentimos amassados (aplastados, em espanhol, eu ia dizer) pelo seu ego. Não. Nele, as músicas parecem se bastar nelas mesmas, como se tivessem nascido e crescido de um jeito natural, altaneiro. Não como se sentíssemos que a pessoa (o compositor/arranjador) colocou algo ali meio que para preencher, ou para "querer dizer" algo. Não. A gente sente tudo bem no lugar, mesmo quando as notas parecem excessivas. Porque é como um discurso: que às vezes precisa ser longo para realmente poder dizer aquilo a que faz jus. O Joe nunca se estende para além da medida. Tudo parece ser bem calculado, nele. Como quando ele fala. Como se não pudesse se arrepender de nada. Claro que o ser humano não é assim. O ser humano se arrepende, volta atrás. Mas confesso, não conheço um solo do Joe em que sinta isso.

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Uma coisa que me irrita um pouco nos neoclássicos - os guitarristas - é a mania de darem nomes estranhos às músicas (com algumas exceções, que cito em meus textos). Mas o Joe não faz isso. Ele fala de coisas corriqueiras, que nos acontecem a todos: e é com esses nomes que ele ilustra tudo o que diz - e diz muito, a gente percebe. Talvez por isso a gente não se irrite com os momentos em que ele desanda a "falar", a discorrer por notas a fio coisas que não sabemos bem a que se referem. Pelo menos eu nunca me irrito, nem consigo identificar UM solo em que sinta algo sobrando, falando demais, me deixando perdido no universo. Não. Pois, se sabemos que diante de tudo o que nos acontece, poderíamos ficar semanas falando ou ouvindo a respeito, ele nos mostra a aparente inextinguibilidade do ser, dos acontecimentos, dos fatos, das vivências e da vida. Nele, tudo que é excessivo parece não o ser. Por vezes é estranho reparar nisso.

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Um outro aspecto claro no jeito de o Joe tocar é que, quase sempre, noto nele um jeito introspectivo (sei, muitos vão negar), como se no fundo estivesse tocando para si mesmo, e como se ao tocar ele estivesse meio que nos dando uma palhinha daquilo que conversa consigo. Claro, existem diversas amostras de faixas em que fica claro que ele toca para fora, que quer falar para nós, e para o mundo. Mas, em muitos casos, talvez na maioria deles, a gente sente uma introspecção. E isso nos cativa, ao mesmo tempo em que não nos aproxima dele, mas de nós mesmos. É estranho falar isso, mas é como sempre o senti, naquela minha fase de moleque, em que gostava mesmo de guitarristas, e em que eles assumiam o perfil neoclássico. O Joe, não. Ele não fica fazendo homenagens a ninguém. Ele toca o que quer, como ele o sente, e só. A gente apenas fica ali, observando. Não conheço um vídeo ou áudio em que ele pareça com isso nos assombrar. Ele assombra, é certo, pela técnica. Mas ele está longe de querer chamar a atenção. Ele simplesmente é.

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Claro que, apesar de eu notar nele essa introspecção, Joe mudou. Já a partir de Surfing with the alien, Joe passou também - e talvez principalmente - a tocar para fora (com algumas exceções de praxe, claro). E, fazendo isso, incorporou a figura do homem da guitarra, do homem-guitarra, e - quando passou a assumir toca - mesmo a de um homem meio sem idade, mas que se coaduna com seu instrumento precioso, a guitarra, que tanto elevou. Foi assim que Joe alcançou outros degraus, que irei tentar entender - ou decifrar, à minha maneira - um pouco mais tarde, como uma espécie de imersão num universo que, se por um lado aproximava o eu a mim mesmo, por outro lado afastava-me dos mortais. Porque, se algo Joe parece, é ser imortal. Algo que não é, claro. Mas que parece.

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Até a próxima.

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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