Blog Rockrônico: Scarlet - Vol. 1

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Por Blog Rockrônico, Fonte: Rockrônico
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Dizem por aí que até mesmo o melhor dos homens pode ser destruído por uma bela mulher. Dizem, também, que existe uma fina relação entre guitarras, mulheres e carros antigos. Aparentemente a maioria dos homens se apaixona por alguma destas coisas, mas Jerry se apaixonou por todas elas. A diferença entre Jerry e os outros homens é apenas uma: Ele não tinha medo de nada. Ser destemido levou-o a se entregar de corpo e alma para tudo o que lhe causava paixão. Enquanto os demais se acovardam diante da possibilidade de realizar seus maiores desejos, por mais loucos que sejam, Jerry apenas fazia o que devia fazer. Aqueles que propagam sua lenda costumam dizer que ele jamais se arrependeu de nada...

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Foi em um fim de semana de dezembro... Fazia muito frio e Jerry colocava sua guitarra no porta-malas do Ford Landau 1971. A cor vermelho escuro da velha telecaster combinava com o teto vinil desbotado do carro, que um dia foi preto mas agora parecia um tom de marrom café. Dentro da jaqueta de couro ele quase nem sentia os flocos de neve que batiam em suas costas. No rádio a previsão do tempo falava em uma possível nevasca. Sem prestar a menor atenção Jerry apenas entrou no carro e ligou o toca-fitas. Imediatamente soaram as primeiras notas da guitarra de T-Bone Walker... era Papa Ain't Salty. Antes de pisar no acelerador, o jovem rapaz hesita, parecendo apreciar cada nota tocada. Lentamente ele pega a caixa de fósforos no porta-luvas e acende o cigarro, cuja marca alguns diziam ser Malrboro.

Após alguns instantes de pura apreciação - que na mente de quem ama música podem parecer eternos - Jerry finalmente arranca com o carro e se dirige à auto-estrada. Naquela noite ele faria um show em outra cidade. Mesmo com a estrada livre àquela hora ele demoraria algumas horas para chegar lá. De qualquer forma ele não tinha pressa. Havia em seu porta-luvas uma porção de fitas para ouvir e ele as ouviria se preciso fosse; as possibilidades eram muitas, desde clássicos como B.B. King até mesmo a gravações caseiras feitas por blueseiros e jazzistas desconhecidos de toda a sociedade, daqueles tipos que vivem ou viviam sempre no submundo da música, tocando em bares e boates para ganhar a vida. A maioria deles morria cedo em virtude da vida noturna, do álcool e das drogas. Os que não morriam assim acabavam se envolvendo em jogatina ou com a esposa de algum agiota. Ser baleado - podem acreditar - era a melhor forma de morrer nestas circunstâncias.

Jerry era um pouco mais esperto do que isso. Seu ótimo relacionamento com a mãe o levou a ter uma vida um pouco mais controlada. Para não decepcioná-la ou deixá-la preocupada ele sempre procurou seguir certas regras. Outra noite, num desses bares da vida, ele tocava majestosamente quando um grandalhão resolveu se incomodar. O homem de quase dois metros se aproximou e grunhiu algo que Jerry mal pode escutar. Em vez de retrucá-lo ou fugir, ele apenas abraçou o maluco e fingiu posar para uma foto. Horas depois foram saber que o motivo da encrenca era a namorada do homem, que não parava de fitar Jerry nos olhos durante toda a apresentação. Foi uma grande perda para ele quando teve que enterrar sua mãe, dois anos antes, que havia morrido em virtude de um câncer no útero. Tempos difíceis para o garoto. Entretanto, sua melhor fase como compositor era justamente esta. Dizem que é preciso estar triste ou desiludido para escrever um bom blues; faz todo o sentido.

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Agora, depois de quase duas horas na estrada, o toca-fitas emitia as nuances vocais de John Lee Hooker. O cansaço começou a tomar conta do garoto, que havia dormido pouco naquela noite como em todas as outras noites nos últimos meses. Diz-se que a maior maldição de um músico é a sua mente. O conflito de ideias é constante. Em vez de relaxar e fechar os olhos sua cabeça era atormentada pela necessidade quase fisiológica de escrever a próxima canção. Mesmo assim, lá estava ele, rumo a mais uma noite como as anteriores. Ele já sabia todo o processo. Primeiro iria chegar e seria bem recebido por algum empresário barrigudo, depois disso receberia dele um tapinha nas costas e subiria ao palco. Após tocar as onze músicas do repertório, acompanhado por uma banda de apoio cujos integrantes ele nem conhece, seria a hora de descer para dar alguns autógrafos e, se tivesse sorte, sair com alguma garota. Obviamente só chegaria em casa ou no hotel lá pelas cinco horas da manhã. Jerry não era considerado dos mais bonitos, mas ele certamente tinha estilo. Além disso havia todo o glamour e a masculinidade exalada no palco. O jogo sexual era muito mais uma questão de posição social - válida dentro daquele contexto - do que dinheiro ou estética. É verdade que o empresário gordo era o maior beneficiado, mas ele não era daquele mundo. Para aquelas pessoas, Jerry era um Deus; ele estava no lugar em que todo homem queria estar.

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E pensando nisso, outra hora se passou. Jerry ainda estava na estrada, mas agora já conseguia avistar as luzes da cidade. Faltava pouco. Sua mente divagou por tanto tempo enquanto dirigia que ele nem reparou, mas a fita de John Lee Hooker já tinha acabado há bastante tempo e só se ouvia um leve ruído do aparelho de som. Isso foi o bastante para lhe dar uma nova ideia, e em sua cabeça uma nova música se formava. "Talvez eu deva tentar tocar isso no improviso hoje à noite", ele pensou. Provavelmente daria certo. Não seria a primeira vez.

Finalmente ele chegou à cidade. Logo que entrou conseguiu avistar o bar em que iria tocar. Este era bem diferente dos outros. Na realidade parecia mais uma daquelas lanchonetes com música ao vivo. No mesmo momento o garoto se sentiu desconfortável, pareceu não estar tão à vontade. Mas o programa desta noite lhe renderia um cachê dobrado e ele precisava pagar o aluguel; e no fundo ele até gostou da sensação. Tocar nos mesmos lugares toda semana já estava ficando enjoativo. Um lugar novo era mais desafiador.

Ao estacionar seu carro na parte de trás do bar, Jerry abriu a janela e deixou que o ar gelado entrasse um pouco. Acendeu outro cigarro, enquanto mentalmente repassava o improviso da noite. Durante os cinco ou dez minutos que permaneceu ali, percebeu que o ambiente era de fato muito diferente do que estava acostumado a frequentar. Então ele se levantou, fechou o carro e caminhou para a porta dos fundos. Ao entrar se deparou, primeiramente, com um local mais iluminado do que de costume e com várias garçonetes, coisa com a qual não era habituado. Uma delas lhe chamou atenção pela beleza. Longos cabelos vermelhos e soltos, violando qualquer norma básica de higiene. Um decote levemente avantajado, o jeito de andar sensual e lábios carnudos. Era com certeza a mais bela mulher que ele tinha visto. Prestou atenção nela por pelo menos uns cinco minutos até que o empresário chegou; outro barrigudo, pra não variar. "Ele deve ter essa pança cheia de filé mignon que compra com a minha grana", pensou Jerry enquanto sorria por fora. Após acertarem o cachê, Jerry foi para trás do palco se preparar, enquanto passava algumas ideias para os músicos de apoio.

Como sempre, este show sofreu um pequeno atraso por causa do baterista que demorou mais tempo do que deveria ao montar a bateria. As onze da noite Jerry subiu ao palco e começou a tocar... as primeiras notas saíram da guitarra como se fosse a primeira vez. Ele sempre tinha a mesma sensação, os pelos do braço se arrepiavam e a energia fluía diretamente para os dedos. Aquele pequeno período de tempo, pouco mais de uma hora, era o auge de sua vida. Para ele, era como ser Deus durante alguns instantes! Era o momento no qual fazia aquilo que gostava, expressando sua alma através das canções, deflagrando emoções normalmente retidas. Era um momento no qual podia chorar sem lágrimas, apenas soando notas em sua guitarra enquanto cantava algum verso amargurado e triste. Ali, naqueles instantes, ele era livre!

Mas, aquele dia tinha algo diferente. Ele podia sentir. As luzes, as pessoas, o ambiente. Era como se nada mais fosse continuar sendo o que era após este show. E esta sensação se comprovou já a partir do pagamento... Ao terminar sua apresentação, e após ser aplaudido à exaustão por uma plateia cheia de jovens aflorados, ele encontra o empresário e este lhe paga um cachê maior que o combinado. "Parece que você alcançou novos patamares na carreira, Jerry. Será bom mantermos contato." Sem entender muito bem, mas feliz por ter recebido quase o dobro do combinado, Jerry caminha com a guitarra na direção do carro na vã esperança de guardá-la, como de costume, antes de retornar ao bar e encher a cara. A verdade é que ele mal conseguia caminhar, tamanha a euforia de seus novos fãs! Eles o seguiam e tentavam tocá-lo. O rapaz ficou com câimbra na mão esquerda de tanto autografar em sutiãs e guardanapos. Quando finalmente chegou ao estacionamento, ele então pode perceber o motivo de toda essa paixão fanática. Do lado de fora, virado para a direção oposta daquela pela qual tinha chegado ali, havia um outdoor enorme chamando as pessoas para o show da maior lenda viva do blues, um "garoto prodígio que sola melhor que o próprio B.B. King." Era dele a imagem ao lado destas frases. Aparentemente seu empresário atual investiu mais que de costume nas ações publicitárias.

É verdade. Muitos grandes fenômenos da música ao longo de toda a história só ficaram famosos através da ambição de seus empresários ou deles próprios. Não que isso lhes tire o mérito artístico, é claro. Mas é muito melhor ficar rico fazendo o que se gosta do que permanecer pobre fazendo a mesma coisa, não é? Jerry nem fazia ideia, ainda, do que era ter sucesso e riqueza. Lidar com aqueles fãs eufóricos já tinha sido um sufoco. Ele ponderou se deveria voltar mesmo para dentro do bar depois disso. Foi então que se lembrou da garota, a garçonete. Ele não sabia nada dela, mas queria chamá-la para sair. Pensou que foi até muito conveniente isso tudo ter acontecido ali, naquela noite. Após tanto sucesso ficaria mais fácil convencer a garota a gostar dele, pensou.

Ele retornou para o bar após fumar outro cigarro. E o restante desta história ainda será contado futuramente.




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