Três "verdades absolutas" do heavy metal que não fazem muito sentido
Por Mateus Ribeiro
Postado em 20 de fevereiro de 2026
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No vasto universo do heavy metal, certas frases circulam como se fossem cláusulas imutáveis. Repetidas em rodas de conversa e nas redes sociais, essas teorias ganham status de "verdades absolutas" - mesmo quando simplificam demais histórias longas.
Não há problema em ter preferências ou defender uma fase específica com unhas e dentes, afinal vivemos em uma democracia e temos o direito de opinar. Mas quando a opinião vira dogma e passa a ignorar contexto e fatos básicos, o cenário muda.

Pensando sobre algumas dessas lendas urbanas, montei uma lista com três "verdades absolutas" do heavy metal. O intuito do texto não é reescrever a história do gênero, tampouco mudar a opinião de alguém, mas questionar certezas repetidas quase no modo automático.
"Black Sabbath é com Ozzy Osbourne"
Boa parte da notoriedade alcançada pelo Black Sabbath - grupo frequentemente apontado como o criador do heavy metal - se deve à voz peculiar de Ozzy Osbourne, que imortalizou músicas como "Paranoid", "Iron Man", "N.I.B." e "Sabbath Bloody Sabbath". A demissão do cantor, ocorrida em 1979, abriu caminho para novas etapas e uma série de mudanças na formação, inclusive no posto de vocalista, ocupado por nomes como Ronnie James Dio e Tony Martin.
Em todas as formações do Black Sabbath, apenas um músico esteve presente em todas: Tony Iommi. Fundador e guitarrista, ele manteve o nome ativo e garantiu a continuidade criativa ao longo das décadas.
Ozzy é muito importante para a história do grupo. Há quem defenda, inclusive, que a banda só existiu de fato enquanto ele esteve no microfone. As diferentes configurações mostram que o projeto continuou ativo e produtivo, independentemente do vocalista. A essência da sonoridade sempre esteve ligada a Tony Iommi, maior criador de riffs de todos os tempos.
"O Metallica acabou depois do 'Black Album'"
Pioneiro do thrash metal, o Metallica é responsável por um dos trabalhos mais bem-sucedidos da história da música pesada. Trata-se do disco homônimo, lançado em 1991 e também conhecido como "Black Album", por conta da capa toda preta.
Em "Black Album", o Metallica abandonou o thrash visceral dos primeiros registros e passou a investir em uma abordagem mais cadenciada. A aposta deu certo: o trabalho vendeu dezenas de milhões de cópias e emplacou hits atemporais, com destaque para "Enter Sandman" e "Nothing Else Matters".
É inegável que "Black Album" ampliou o alcance da banda liderada por James Hetfield (guitarra/vocal) e Lars Ulrich (bateria). Para muitos fãs mais radicais, porém, o distanciamento do thrash marcou o começo do fim.
A partir do disco autointitulado, o grupo desacelerou e passou a flertar com outros estilos. Também é notório que os trabalhos lançados nos últimos 30 anos não causaram o mesmo impacto, mas a banda segue ativa e ainda mobiliza multidões em shows ao redor do mundo.
Quando se diz que o Metallica "acabou" (ou "morreu"), costuma-se insinuar que o som se afastou totalmente do metal. Isso não condiz com a realidade. É claro que nada do repertório recente remete diretamente a "Master of Puppets" ou "Creeping Death", mas as guitarras distorcidas, os vocais de James Hetfield e a energia continuam presentes.
O Metallica não voltará a ser como no início da carreira. Ainda assim, nunca virou "o novo Backstreet Boys".
"O Dream Theater faz músicas para músicos"
Maior nome da história do metal progressivo, o Dream Theater é reconhecido pela complexidade musical, expressa em composições intrincadas - e, em alguns casos, extensas. O virtuosismo dos integrantes serve de combustível para uma narrativa repetida por detratores, que tratam o alto nível técnico como puro preciosismo.
Na visão dos críticos, o quinteto faz "músicas para músicos". A frase sugere que as composições seriam desprovidas de emoção ou que só poderiam ser apreciadas por quem "entende demais" do assunto.
O catálogo do Dream Theater, porém, reúne faixas que enfraquecem essa hipótese. Da bela e melancólica "Another Day" à radiofônica "I Walk Beside You", passando por "Pull Me Under", "Forsaken", "Panic Attack" e "The Mirror", a banda criou obras palatáveis que não exigem estudo aprofundado nem atenção exagerada.
É verdade que os músicos dominam como poucos seus respectivos instrumentos. Transformar essa característica em defeito, no entanto, costuma revelar mais desconhecimento do que argumento - e criticar sem conhecer raramente faz sentido.
Dito isso, vale uma reflexão. Antes de repetir uma dessas "verdades" prontas, talvez seja interessante ouvir com mais atenção. Nem toda frase popular resiste a uma análise um pouco mais cuidadosa.
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