Heavy Metal: somos bodes expiatórios de nós mesmos
Por Daniel Junior
Fonte: Aliterasom
Postado em 30 de outubro de 2011
Quando Tiago Bianchi fez um discurso inflamado e verdadeiro sobre o cenário heavy metal no Brasil, houve quem virasse o nariz, discordasse e ainda fizesse alguns ataques imponentes contra o atual vocalista do Shaman. Se aproximando a data convencionada para celebração do Dia do Metal Nacional (06/11), entendemos (de fora) como anda mal das pernas a estrutura e a união das bandas deste estilo.
Não seria de bom tom ou mesmo inteligente, sempre recorrermos às sentenças simplistas de que, "brasileiro não gosta de metal", "as bandas só pensam nelas mesmas", "não há espaço na mídia" e blábláblá. Por partes: culturalmente, por conta do ‘mix’ folclórico a qual pertencemos, não somos habituados a participarmos ativamente (e não de boca) de festivais, shows e convenções de rock. Quando isso acontece é sempre de forma minguada. Nem sempre por uma questão apenas de quórum, mas de falta de estrutura, organização, divulgação e etc. O público metal é formado por gente que lê, conhece os grandes festivais mundiais, está sempre por dentro das tours de sua banda preferida e sabe que, investir uma grana, por menor que seja, em qualquer proposta de show, é um risco. Quantas bandas já tiveram sua vinda cancelada ao Brasil porque não houve interesse do público ou mesmo uma divulgação melhor?
E aí vem o lance da mídia. Hoje, por questões tão intensas e profundas que vão muito além dos interesses comerciais que o Metal pode proporcionar, os espaços midiáticos importantes e fundamentais deixaram de ser jornais e revistas, com todo o respeito a estes meios que ainda sobrevivem. São os blogs, sites especializados e os redatores e editores musicais com seus perfis sociais, os atuais responsáveis por disseminar tudo que acontece aqui e lá fora, de relevante ou não. Muitas vezes na base da camaradagem ou mesmo no amor ao estilo. São pouquíssimas as pessoas que possuem equipes estruturadas e capazes de postarem, dia após dia, de hora em hora, as novidades do mundo do rock ou fazer coberturas internacionais. Acabam dependendo de patrocínio e boa vontade de algumas marcas que enxergam no público, não apenas um nicho comercial, mas também um mercado exigente e que consome qualidade em detrimento à quantidade.
Não sou a pessoa apropriada para dizer que as bandas que compõem o estilo são unidas ou não. Nem sei dizer se de fato, união é o que precisa a cena, mas é uma vergonha que o cenário FUNK (aqui no Rio de Janeiro, por exemplo) consiga ter horário na TV aberta, com patrocínio e dias caros, rádio, loja virtual, marca de roupas, guaraná natural e mantenha uma economia de subsistência que gera milhões de reais por ano. Sem ajuda da mídia global (se é que você me entende), sem força alguma nas mídias mais tradicionais e mesmo assim desbancando muitos outros estilos, aparentemente organizados e de bastante apelo popular. Não estamos falando de gente com doutorado, freqüentadora dos melhores colégios na sociedade educacional ou mesmo, pessoas que façam diferença na hora de votar. Sem qualquer medo de ser infeliz ou proselitista, a massa que consome o funk no Rio (e quiça no Brasil) é formada por pessoas de baixa renda (em sua maioria), com nível de escolaridade baixa e pouco se importando se quem preside o país é a Dilma, o Lula ou o Edir Macedo. Sem contar que não vendem CDs em lojas comerciais (basicamente vivem da troca de material musical entre os próprios ouvintes) e volta e meia conseguem colocar na boca do povo um hit que acaba se tornando uma expressão comum na boca de qualquer um, inclusive daqueles que rechaçam o funk.
Uma entrevista de uma mulher que se auto-denomina "Mulher Maça" (prestes a homenagear Steve Jobs querendo mudar seu nome para "Mulher Apple") – representante ‘legítima’ do funk carioca - gera mais burburinho (independente dos motivos) em quem hoje navega pelos cadernos culturais do que o próprio desabafo do Bianchi, que é repleto de reflexão e atitude. Por isso, fico pensando se realmente todas as desculpas e álibis que levantamos são verídicos para os problemas sérios que temos quando o assunto é metal, no Brasil.
Será que o rock mais pesado deste país e todas as suas grandes bandas deveriam depender das esmolas da família Medina e não seriam capazes de fazer festivais que, com o tempo se tornassem tradicionais? Será que somos tão incompetentes para fazermos nosso próprio "Wacken" e declinarmos do convite de tocarmos em um festival onde toca Claudia Leitte e Ivete Sangalo? Pelo que percebo, é muito mais fácil continuar dando desculpa, do que arregaçar a camisa e trabalhar em busca de espaço, sem choradeira, complexo de inferioridade e dedo em riste na cara dos culpados, porque na verdade, os culpados somos nós.
twitter: @aliterasom
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