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Bandas Gaúchas: Acústico com ilustres desconhecidas no resto do Brasil

Por Ricardo Seelig
Em 02/06/05

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A MTV, em uma iniciativa inédita, acaba de lançar o "Acústico MTV Bandas Gaúchas". Atitude inédita porque, muito mais do que um projeto artístico, a fórmula adotada pela emissora sempre se mostrou mais focada em dar novo fôlego para carreiras estagnadas (em casos como Titãs, Rita Lee, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii e muitos outros) do que na produção de um material de qualidade musical e artística incontestável (os programas com Ira e Cássia Eller são grandes exemplos disso).

Ademir Barbosa Silva | Alexandre Faria Abelleira | Andre Sugaroni | André Silva Eleutério | Antonio Fernando Klinke Filho | Bruno Franca Passamani | Caetano Nunes Almeida | Caio Livio de Lacerda Augusto | Carlos Eduardo Ramos | Carlos Gomes Cabral | Cesar Tadeu Lopes | Cristofer Weber | César Augusto Camazzola | Dalmar Costa V. Soares | Daniel Rodrigo Landmann | Décio Demonti Rosa | Efrem Maranhao Filho | Eric Fernando Rodrigues | Eudes Limeira | Fabiano Forte Martins Cordeiro | Filipe Matzembacher | Gabriel Fenili | Helênio Prado | Henrique Haag Ribacki | Jesse Silva | José Patrick de Souza | Leonardo Felipe Amorim | Marcello da Silva Azevedo | Marcelo Franklin da Silva | Marcelo H G Batista | Marcio Augusto Von Kriiger Santos | Pedro Fortunato | Rafael Wambier Dos Santos | Regina Laura Pinheiro | Reginaldo Tozatti | Ricardo Cunha | Ricardo Dornas Marins | Sergio Luis Anaga | Sergio Ricardo Correa dos Santos | Tales Dors Ciprandi | Thiago Cardim | Tiago Andrade | Tom Paes | Vinicius Valter de Lemos | Wendel F. da Silva

Com todo este histórico, a iniciativa da MTV de reunir quatro bandas que, apesar de possuírem uma carreira consolidada no Rio Grande do Sul, ainda são ilustres desconhecidas no resto do Brasil, é louvável.

Por mais estranho que possa parecer, a idéia para o projeto nasceu durante a produção do "MTV Ao Vivo Nando Reis", gravado no Bar Opinião, em Porto Alegre. A equipe da emissora passou uma semana na capital gaúcha fazendo os preparativos para o show e, neste período, teve contato direto com a cena que rola, há muito tempo, no RS.

Foi na platéia de um show do Ultramen no Bar Ocidente (marco underground histórico de Porto Alegre) que a diretora da MTV Ana Butler percebeu a força do que estava na sua frente, e deu o OK para o desenvolvimento do projeto. Mas, para entender melhor esta história, é preciso viajar de volta no tempo.

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O RS sempre teve tradição no rock and roll. Desde o início da década de sessenta a cena gaúcha se desenvolveu de forma totalmente diferente da do resto do Brasil. Enquanto que em São Paulo e no Rio de Janeiro os primeiros passos rockeiros foram dados através dos caminhos abertos pela Jovem Guarda, no RS a influência do que se fazia na Inglaterra era muito mais forte. Desde o início Porto Alegre sempre teve uma ligação muito mais forte com Londres do que com o resto do país. Um fato marcante, e que exemplifica muito bem essa questão, é o show que a banda inglesa Hermans Hermits fez na capital gaúcha no início dos anos sessenta, e que pode ser considerado o marco inicial do que viria a ser chamado, décadas mais tarde, de rock gaúcho.

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Ao mesmo tempo em que os Mutantes viravam São Paulo e, conseqüentemente, o Brasil do avesso, atraindo a atenção de artistas tão díspares quanto Gilberto Gil e Caetano Veloso, os gaúchos iam desenvolvendo uma cena própria, onde a principal influência era o rock produzido na terra da rainha. Bandas como Liverpool, Bixo da Seda, Almôndegas e outras mostraram o caminho que seria seguido durante as décadas de sessenta e setenta por centenas de outros grupos.

Em meados dos anos oitenta, acompanhando o boom do rock nacional proporcionado pelo primeiro Rock In Rio, vários grupos novos surgiram em Porto Alegre. Bandas como TNT, Cascavelletes, Bandaliera, Garotos da Rua, Replicantes, Os Eles, Urubu Rei, Astaroth, Taranatiriça e outros levaram o rock gaúcho há um grau de exposição nacional nunca antes alcançado. Apesar da insistência da mídia em colocar todas em um mesmo rótulo, as diferenças eram claras desde o início. Enquanto que grupos como TNT e Cascavelletes desenvolveram um som encharcado pelo rock inglês, o Garotos da Rua buscou o seu caminho unindo o pop a uma certa pitada country. Simultaneamente, o Taranatiriça ia aos limites do hard rock, enquanto os Replicantes eram punks não apenas nas atitudes, mas também pela total falta de habilidade em tocar os seus instrumentos.

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Durante toda esta década uma forte cena se formou no Rio Grande do Sul com um grande apoio da mídia, onde se destacaram as rádios Ipanema, Felusp (que depois mudou o seu nome para Pop Rock) e Atlântida.

Os anos noventa foram marcados pela consolidação de uma característica marcante entre as bandas: muitas consolidaram as suas carreiras no RS mas, paradoxalmente, continuavam ilustres desconhecidas no resto do Brasil. Isso aconteceu com nomes como Cidadão Quem, Papas da Língua, Acústicos e Valvulados, Graforréia Xilarmônica, Júpiter Maçã e inúmeros outros. A força destes grupos junto ao público era tão grande que fez surgir até um festival, o Planeta Atlântida (que acontece todos os anos no RS e em SC, e é considerado hoje o maior festival de música do Brasil).

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Foi este cenário que a equipe da MTV encontrou em Porto Alegre: uma quantidade absurda de bandas, muitas com qualidade indiscutível, e todas não conseguindo romper a barreira que as separava do resto do Brasil.

A escolha de Bidê ou Balde, Ultramen, Wander Wildner e a ótima Cachorro Grande como os quatro grupos que iriam gravar o Acústico MTV e mostrar a cara do som gaúcho para o resto do Brasil, por mais que levante discussões sobre se este grupo deveria ou não ser escolhido, retrata a multiplicidade e a qualidade do rock dos pampas.

Vamos às bandas então. O Bidê ou Balde faz um power pop carregado com influências do Weezer (tanto que já gravaram até um cover dos caras, para a música "Buddy Holly"). Tendo o enlouquecido vocalista Carlinhos a frente, o grupo se destaca por canções como o hit "Melissa" e a incestuosa "E Por Que Não ?". Já lançaram quatro CDs: o ótimo debut "Se Sexo É O Que Importa, Só O Rock É Sobre Amor" (2000), o EP "Pra Onde Voam Os Ventiladores de Teto no Inverno" (01), "Outubro ou Nada" (02) e o recém-lançado "É Preciso Dar Vazão aos Sentimentos".

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Wander Wildner é um dos ícones do rock sulista. Frontman do lendário Replicantes, com quem gravou álbuns clássicos como "O Futuro É Vortex" e "Histórias de Sexo e Violência", deu uma guinada quando iniciou a sua carreira solo, desenvolvendo ao longo de seus quatro álbuns (anote aí a discografia do cara: "Baladas Sangrentas" de 96, "Buenos Dias" de 99, "Eu Sou Feio ... Mas Sou Bonito" de 2001 e "Paraquedas do Coração" de 2004) um estilo que batizou como "punk brega". É autor de um dos maiores clássicos do rock gaúcho, a autobiográfica "Bebendo Vinho", que foi gravada pelo Ira em seu "MTV Ao Vivo". Se você se interessar pelo som do cara corra atrás do CD "Baladas Sangrentas", que é muito bom.

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Já o Ultramen é uma bandas das antigas na cena gaúcha. Na estrada desde o início dos anos noventa, começaram com um som mais voltado para o punk e hardcore, e aos poucos trilharam novos caminhos. Já lançaram três álbuns ("Ultramen" de 98, "Olelê" de 2000 e "O Incrível Caso da Música Que Encolheu e Outras Histórias" de 2002), sendo que o segundo é o melhor de todos e contém a fantástica "Peleia", que mistura de forma inusitada rap e música tradicionalista em uma letra que é uma radiografia comportamental da juventude gaúcha do novo milênio. Uma pena que essa canção, inexplicavelmente, não foi gravada para o programa.

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E chegamos a Cachorro Grande. Uma das melhores e mais promissoras bandas de todo o Brasil, fazem um rock and roll clássico com fortíssimas influências de bandas como Beatles, Rolling Stones, The Who e Small Faces. Com o vocalista Beto Bruno e o guitarrista Marcelo Gross a frente vem trilhando caminhos pouquíssimos explorados pelo rock brasileiro. Já lançaram três álbuns, todos eles excelentes. O debut "Cachorro Grande" saiu em 2001 e é repleto de clássicos instantâneos como "Lunático", "Sexperienced", "Debaixo do Chapéu", "Dia Perfeito" e muitas outras. O segundo, "As Próximas Horas Serão Muito Boas", é um dos álbuns mais malucos da história do rock nacional. O terceiro, o excelente "Pista Livre", acaba de chegar as lojas, e deve levar a banda a um novo patamar no cenário. A Cachorro Grande é, com certeza, não só a melhor das quatro bandas que gravaram o acústico, como uma das melhores bandas de todo o Brasil (e aí eu me dou o direito de colocar esta frase: que bom se, para cada Charlie Brown, CPM 22 e Detonautas Roque Clube que pipocam a cada esquina, surgisse ao menos uma banda como a Cachorro Grande - certamente não só o rock, mas todo o cenário musical brasileiro, ganharia muito).

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Agora é esperar e aguadar que a MTV exerça o seu papel de principal vitrine musical do Brasil e tire das sombras outras cenas regionais que estão explodindo em todo o país, em estados como Santa Catarina, Alagoas, Paraná e vários outros, levando a música feita com atitude, garra e tesão a um número muito maior de pessoas.

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Vamos ver no que vai dar.

Ouvindo:
Cachorro Grande, O Dia de Amanhã.

* Para quem quiser saber mais sobre o rock gaúcho, existem dois livros obrigatórios:

- "Prezados Ouvintes", escrito por Mauro Borba, locutor e diretor de programação das rádios Ipanema, Felusp e Pop Rock, que conta a história das rádios Ipanema e Pop Rock ;

- "Gauleses Irredutíveis: Contos e Causos do Rock Gaúcho", compilação de entrevistas realizadas pelos jornalistas Alisson Ávila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller, e que narra, através de depoimentos exclusivos dos músicos e das pessoas envolvidas, o surgimento e a evolução do rock no Rio Grande do Sul, da década de sessenta até os dias de hoje.


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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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