Inocentes: matéria no Jornal do Commercio sobre 30 anos
Por AD Luna
Fonte: Jornal do Commercio
Postado em 20 de setembro de 2011
"Estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, para pintar de negro a Asa branca, atrasar o Trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer". A frase pronunciada em 1981, sintetiza o espírito do então nascente movimento punk brasileiro e da vontade de "destruir o sistema" de Clemente Nascimento, vocalista da banda paulistana INOCENTES, que, em 2011, completa três décadas de vida. Para marcar a data, o grupo teve seus primeiros LPs produzidos pela Warner Music relançados e divulga o lançamento do documentário Inocentes - 30 anos.
Inocentes (1989), Adeus Carne (1987) e Pânico em SP (1986) foram repostos no mercado pela multinacional, no mês passado. Inicialmente um EP, Pânico em SP ganhou mais seis faixas-bônus inéditas. "O Adeus Carne é meu disco preferido dos Inocentes. Foi com ele que descobri a possibilidade de se fazer tudo dentro do punk. O álbum tem até um samba! Havia muito preconceito e ignorância no Brasil. A galera não se ligava na conexão do punk com o reggae, com o ska e outros estilos. Pensavam que se um grupo fizesse sons menos agressivos não seria mais punk", rememora Cannibal, vocalista da pernambucana Devotos.
O rompimento com a paradoxal ortodoxia punk fez o Inocentes ser tachado de "traidor do movimento" pelos seus adeptos mais fundamentalistas, na época em que os músicos se uniram ao inimigo encarnado em forma de grande gravadora. "Quando o punk foi criado, seus elementos mais legais eram justamente a quebra de tabus, de dogmas, o questionamento. Só que, com o tempo, vários de seus adeptos acabaram por também criar comportamentos dogmáticos e não saíram mais disso", explica Clemente, tendo o cuidado de não atribuir caráter de censura à visão de seus colegas mais tradicionalistas.
Clemente é um punk progressista praticante. Apesar de, por vezes, suas sacadas irônicas (e auto-irônicas) serem mal interpretadas pelos fãs (principalmente, os adolescentes) de cantores e bandas que ele entrevista no programa de TV online Estúdio Showlivre (www.showlivre.com), ele mantém rica relação de amizade com seguidores de inúmeros outros credos musicais: da mpb, passando pela eletrônica, pelo indie até o heavy metal. Assim como acontece com centros e casas noturnas paulistanas, a exemplo do Sesc Pompéia, Studio SP e Itaú Cultural, o Showlivre costuma abrigar diversos artistas pernambucanos que moram ou visitam a capital paulista.
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