Gosotsa: Muito mais do que simples música
Por Vicente Reckziegel
Fonte: Witheverytearadream
Postado em 04 de novembro de 2018
O Gosotsa não pode ser simplesmente chamado de uma banda, pois sua arte é muito mais ampla que a música. O trio é um verdadeiro grupo artístico, com trabalhos tanto na música quanto na literatura e teatro.
Com tal gama de atividades, certamente que a entrevista seria interessante e até mesmo instigante, como todos podem conferir, nas palavras de Drannath.
Vicente - Para começar, como surgiu o nome e todo o conceito por trás da arte do Gosotsa?
Drannath: No DNA do Gosotsa está a subversão, o disruptivo, a quebra com o passado. Começamos com a música e, por ela ser absolutamente chocante esteticamente aos ouvidos acostumados com a chamada música popular, achamos que havia a necessidade de maior respaldo artístico para amarrar toda a nossa mensagem, além de tornar nossa arte ainda mais intrigante pois, apesar de parecerem produções distintas (música, literatura, quadrinhos, artes plásticas, teatro), todas apresentam a mesma estética, a mesma linguagem, e as mensagens se completam, tornando tudo uma só arte – apesar de todas elas poderem ser consumidas de forma independente. E, o nome, surgiu de um erro de digitação.
Vicente - Vocês lançaram este ano o álbum "O Sol tá Maior III". Como foi todo o processo de composição e gravação deste álbum?
Drannath: Este foi o disco mais colaborativo da série "O Sol Tá Maior". Diferentemente do I e do II, que foram exclusivamente compostos por mim, no III tem letra do Élitra, guitarras da Malu. O processo de composição foi bem variado. Algumas surgiram de um improviso, como Caminhão de Salto Alto, em que tivemos a sorte do Élitra botar pra gravar, mas também tem música composta inteira em partitura, com baixo, guitarra e voz compostas de uma só vez, no papel, como a faixa-título, O Sol Tá Maior. Outras foram compostas gravando compasso a compasso, no violãozinho. Acho que isso deu uma variada muito interessante nas composições.
Vicente - O Gosotsa, intencionalmente, não se prende a um gênero musical, fazendo com que a música seja a mais abrangente possível. Como fazer essa liberdade musical funcionar, sem que se perca a essência de tudo?
Drannath: Pois é, no Gosotsa, nunca um disco é igual ao outro. Tudo que você ouviu pra trás, ficou pra trás. Vamos lançar agora no final do ano o volume I da série "O Sol Tá Maior", já gravado desde 2011, e é o mais radical trabalho já feito por nós. Paralelamente a isso, estamos trabalhando nas músicas do próximo disco, que já estão todas compostas, e serão totalmente diferentes das do Sol I, II e III, incluindo peças eruditas, como quarteto de cordas e peças de piano. E já estou compondo o outro disco, que vai ter também música eletrônica. Pra não perder a essência, creio que o segredo está na estética e progressão harmônica, além da poesia, embora estas também variem muito.
Vicente - E como tem sido o retorno dos fãs e da mídia especializada para o trabalho realizado por vocês?
Drannath: Tem sido bem interessante! Estamos contentes, pois estamos chamando a atenção, não só do Brasil, mas também de uma galera da Europa e da América Latina. Acreditamos que nosso trabalho é para o mundo, e não apenas para o Brasil, apesar de cantarmos em português. A mídia sempre intrigada com a gente, fazendo comentários muito curiosos. Até hoje, nunca recebemos comentários negativos.
Vicente - Muito além da música, a arte do Gosotsa passeia por vários ambientes. Como o teatro e a arte visual foram incorporados por vocês, e o quão importante é a mesma no mundo do grupo?
Drannath: No mundo de hoje, todos nós consumimos muitos tipos de arte. Então, por que não fazer estas diversas manifestações artísticas sob o mesmo nome, a mesma estética, complementando a mensagem? Claro que não é fácil dominar diferentes linguagens, porém, no nosso caso, é necessário. Como dito nas primeiras respostas desta entrevista, foi a necessidade a mãe do destino do Gosotsa, pois a abstração de nosso trabalho é tamanha que a música acabou "chamando" os quadros, o teatro, o livro. Todos são importantes, nosso trabalho é indivisível na medida em que construímos nossa estética, seja por este ou aquele formato.
Vicente - A obra "O Sol tá Maior" também sairá como uma trilogia
literária. Conte-nos um pouco sobre esta outra faceta do Gosotsa.
Drannath: Em face às dificuldades enfrentadas por artistas undergrounds, a trilogia virou um único livro, dividido em Astral Térreo, Astral Inferior, Astral Superior e Apoteose. Este apresenta um movimento de subida, partindo todo encantado, magnetizado e vazio de um progresso de enfraquecimento, poluição, e desgraça que culminaria na mais infrutuosa forma de existência, passando pelo plano teórico que seria mais próximo das filosofias, ciências e religiões até finalmente conquistar o vívido e pleno, vasto e quadridimensional, na plenitude de sentir o belo em absoluto. Sobre a mudança nos planos dos lançamentos: se é difícil uma banda conseguir um selo ou gravadora para se lançar no mundo, no mundo literário, conseguir uma editora é três vezes mais difícil, e a impressão de livro de forma independente é caríssima. Fora isso, escrever e ilustrar um livro demanda muito tempo e, infelizmente, ainda não vivemos da arte do Gosotsa, portanto a melhor solução foi fechar como um único livro, que será lançado exclusivamente nas plataformas digitais dentro de dois meses.
Vicente - O Brasil vive, e de certa forma sempre viveu, a glorificação do "Lixo Cultural". Como é tentar mostrar uma cultura diferente para o público comum, já que a arte do Gosotsa não é de tão fácil absorção?
Drannath: Às vezes é meio frustrante. Por exemplo, eu me criei nas casas de rock mais sujas de SP, com clima hostil, galera cabeluda, do veneno. Porém, tocar hoje em dia nestes ambientes se tornou um desafio pois a ortodoxia tomou conta dos rockeiros do século XXI. Se a banda não se enquadra em algum dos rótulos consagrados do mercado, os rockeiros não se interessam. Por outro lado, em locais mais alternativos ou sem um público definido, o retorno foi muito melhor! Por exemplo: nosso último show no domingo na Av. Paulista, no meio da rua, ficou lotado do começo ao fim, com um público que ia da molecada aos senhores, além de forte presença feminina, com todos e todas balançando a cabeça, agitando e aplaudindo muito ao final de cada música, com baixíssimo número de pessoas abandonando o show. Sabemos que nosso trabalho é árduo, no sentido de reeducação cultural, talvez nosso trabalho nem seja reconhecido durante nossas vidas, ou talvez nem depois. Mas seguimos em frente fazendo o que temos que fazer, com alegria e satisfação de fazer o melhor que podemos.
Vicente - Quais são os artistas que marcaram sua vida, que lhe fizeram enveredar pelo complicado mundo da arte?
Drannath: Ah, muitos, muitos mesmo! Falaríamos até amanhã, daria um livro. Do rock, desde os blues dos anos 40 até os dias atuais, dos mais leves aos mais pesados, passando por música erudita, do barroco até o atonalismo do século XX, e por aí vai. Assim também é nas artes plásticas, na literatura. Não dá pra citar só 20 ou 30 nomes.
Vicente - Por fim, deixem um recado para os fãs do grupo, e para todos aqueles que querem conhecer mais sobre o Gosotsa.
Drannath: Se preparem! A explosão mental está apenas começando! Estamos deixando uma mancha única no mundo, que se esfacelará ainda mais a cada lançamento. Estamos aqui para sacudir as esfinges corroídas pelo tempo que consolidaram a pasteurização e ortodoxia na produção de arte em geral. Acessem nossos canais no youtube e plataformas de streaming, além das nossas redes sociais. Muito obrigado!
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