Por que censura implorou que Raul Seixas voltasse do autoexílio após sucesso de "Gîtâ"?
Por Gustavo Maiato
Postado em 22 de julho de 2022
O clássico "Gîtâ", de Raul Seixas, foi lançado no terceiro disco do cantor, que leva o mesmo nome. Em vídeo no seu canal no YouTube, Júlio Ettore trouxe diversas curiosidades sobre a canção.
A grafia da música
"O nome se escreve assim: ‘Gîtâ’, com acento circunflexo. Vem de um livro chamado Bhagavad Gîtâ, que é do hinduísmo. Essa religião surgiu na Índia e é uma das três maiores tradições religiosas do mundo. Dentro do hinduísmo, tem um texto sagrado chamado Mahabharata, dentro dele, existem trechos que são considerados importantes, como o Bhagavad Gîtâ, que significa algo como ‘A canção do bem-aventurado’ ou ‘A sublime canção’. O próprio Raul disse que ninguém sabe exatamente quem o escreveu".
Sobre o que fala?
"Essa obra com centenas de páginas narra um diálogo entre Krishna e Arjuna. O primeiro é um avatar de um dos deuses mais importantes do hinduísmo, chamado Vishnu. Já Arjuna é um guerreiro. No livro, esse guerreiro está procurando respostas sobre espiritualidade e conversando com Krishna. Paulo Coelho disse que é sobre o momento em que Arjuna se vira para Krishna e diz: ‘Quem é você?’. É um diálogo antes da batalha de Kurukshetra, lugar sagrado de peregrinação na Índia. É parecido com o Armagedon do apocalipse bíblico. Esse local, no contexto da letra, deixa de ser um espaço geográfico para ocupar uma posição simbólica, onde se trava a grande batalha do homem, pela conquista de si mesmo. Ou seja, Krishna dá a resposta dessa pergunta".
Letra composta em 10 minutos
"Em um trecho do livro, fala que a matéria é imutável, porém, diz que Krishna é tudo que dizes e tudo que pensas. Tudo repousa nela. Diz que é a ciência do ser, a vida de cada criatura e o esplendor que brilha. Diz que é o eixo que sustenta o universo, objeto do verdadeiro conhecimento. O princípio, fim, origem, luz do sol. Tanto o Raul quanto o Paulo conheciam essa obra e em uma viagem para a Bahia, começaram a falar sobre o livro e o Paulo Coelho disse que a letra foi composta em menos de 10 minutos".
Juventude e contracultura
"De maneira geral, eles tentam traduzir na letra os ensinamentos desse livro. A juventude estava interessada em temas da contracultura, como misticismo e espiritualidade. Raul quis pegar carona nesse interesse na magia, que é exemplificado no filme ‘O Exorcista’. A música desperta em cada um o que a pessoa é. Desperta Deus como um todo".
Crítica ao consumismo
"Tem um detalhe interessante na letra de ‘Gîtâ’ que é a citação a rede PegPag, que foi uma das maiores de supermercado do Brasil e foi comprada pelo Pão de Açúcar. Ele cita para fazer uma crítica ao consumismo. Sobre o ritmo de vida dos brasileiros".
Créditos da gravação
"Nesse disco, Raul Seixas teve grandes recursos devido ao sucesso do álbum anterior. Algumas fontes dizem que foram muitos músicos que o acompanharam nessa gravação: 16 violinos, 8 violas, 4 violoncelos, 2 baixos acústicos, 1 trompete, 1 sino, 16 cantores no coral, fora a banda".
Volta ao Brasil após autoexílio
"Logo que o disco foi lançado, o Raul e o Paulo foram para os EUA em autoexílio. O Raul conta que em 1974 foi procurado por um agente do Consulado Brasileiro que disse que ele podia voltar e citou a música. Ele disse que o Brasil estava o chamando, que ele agora era patrimônio nacional".
Raul = Profeta?
"Algumas pessoas começaram a acreditar que ele era uma espécie de profeta e chegaram a procurar ele buscando milagres. Ele disse que era anunciado em revista falando que quem comprasse o disco ia descobrir os segredos do universo. Ele ia no palco e vinha mães com crianças aleijadas pedindo para ele dar um beijo na criança".
Paulo Coelho proibiu Zé Ramalho de gravar
"Zé Ramalho foi proibido por Paulo Coelho de lançar uma versão de Gîtâ em 2001. Ele lançou um disco só de releituras do Raul, mas o que aconteceu é que o Paulo não liberou nenhuma que tivesse o nome dele. Isso aconteceu em cima da hora e o Zé precisou achar outras músicas. Zé Ramalho disse que achou grotesco isso, e em 2010, Paulo voltou atrás e deixou o Zé Ramalho gravar".

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