A canção que Renato Russo queria que fosse um baião, mas foi comparada a música sertaneja
Por Bruce William
Postado em 20 de março de 2025
Uma das composições mais longas e certamente também uma das mais ambiciosas da Legião Urbana nasceu de uma inspiração inesperada. Escrita por Renato Russo em 1979, antes mesmo da formação da banda, "Faroeste Caboclo" tem uma estrutura narrativa que foge dos padrões convencionais do rock brasileiro da época. Conforme relata Dado Villa-Lobos na autobiografia "Memórias de um Legionário" (Amazon), em sua versão original, Renato queria que ela fosse um baião e chegou a imaginar Luiz Gonzaga como intérprete.
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"Eu sempre vi a letra de 'Faroeste Caboclo' como uma referência ao abismo entre o mundo rural e o urbano no Brasil", diz Dado. "Entendo João de Santo Cristo como um migrante, filho da miséria e do atraso social do País. A sua vida é atravessada pela violência, pela brutalidade das relações humanas e pelo preconceito de classe e de raça. O cara sai de um rincão sertanejo, chega à cidade grande - no caso, Brasília, a capital do País -, uma terra onde há oportunidades, mas onde há também pobreza e tráfico de drogas. Essa é uma história que poderia ter-se passado no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, ou qualquer outro grande centro."
No entanto, quando a Legião Urbana finalmente gravou a canção, em 1987, ela assumiu um formato diferente. Misturando elementos de música sertaneja, reggae e rock, a faixa ganhou uma identidade própria e única. O próprio Renato reconheceu essa transição e comentou que o sertanejo tinha uma forte tradição de narrativa, aproximando-se da proposta da letra, conta Chris Fuscaldo no livro "Discobiografia Legionária" (Amazon).
"Acho legal porque as pessoas gostam da história. Eu acho que a música sertaneja é tão ou mais brasileira que o samba. Acho o samba mais carioca", disse Renato em entrevista ao jornal O Globo. "Então, a música sertaneja tem a tradição da narrativa. É uma coisa antiga. Um motorista de táxi outro dia me disse que tinha um amigo que comprou a fita porque era exatamente a história do irmão dele. O cara saiu de Mato Grosso, foi pra Brasília e morreu num tiroteio no Nordeste. E a música é totalmente fictícia."
A gravação, entretanto, não foi simples. Foram necessárias várias tentativas até que a banda conseguisse registrar a base instrumental do início ao fim sem erros. Um detalhe curioso é que um pequeno deslize na bateria acabou sendo mantido na versão final, disfarçado por um efeito de eco. Segundo o produtor Mayrton Bahia, essa escolha ajudou a preservar a energia bruta da banda.
Com mais de nove minutos de duração, a música era considerada inviável para as rádios, mas ainda assim se tornou um fenômeno. A censura chegou a proibir sua execução em um primeiro momento, forçando algumas emissoras a editar partes da letra para viabilizar sua transmissão. Chris conta que o público, no entanto, abraçou a canção por completo, transformando-a em um dos maiores sucessos da Legião Urbana.
A complexidade da letra, que narra a trajetória de João de Santo Cristo, também rendeu interpretações diversas. Renato chegou a afirmar que a história refletia o abismo entre o mundo rural e urbano no Brasil, enquanto críticos destacavam sua construção cinematográfica, como se fosse um roteiro de filme. Dado relata que, de fato, o próprio Renato já trabalhava com essa ideia desde os anos 1980, mas a adaptação para o cinema só aconteceu postumamente, em 2013. E, uma curiosidade adicional: Renato dizia que gostaria de ver o ator Marcos Palmeira e a atriz Fernanda Torres como protagonistas.
Mesmo décadas após seu lançamento, a canção segue como um dos maiores marcos da música brasileira. Seu sucesso nas rádios, sua repercussão cultural e sua capacidade de ainda despertar a atenção de gerações que vieram depois mostram que, independentemente do ritmo que Renato Russo imaginou originalmente, o mais importante sempre foi a força da história que ela conta.
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