Por que Paul McCartney não segue exemplo de Bob Dylan nos setlists: "Sou o oposto dele"
Por Gustavo Maiato
Postado em 12 de março de 2025
Definir o setlist de um show costuma ser tarefa complicada principalmente para artistas longevos que já atravessaram décadas enfileirando hits atrás de hits. No caso de Paul McCartney, entretanto, uma regra é clara: quanto mais sucessos for possível tocar numa noite, melhor será.
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Em seu livro As Letras, o ex-Beatle comentou mais sobre essa sua filosofia de não retirar músicas consagradas do set para colocar outras que, embora possam ser muito boas, não são tão conhecidas.
Ele citou o exemplo da música "Every Night", que saiu no seu primeiro disco solo, que leva seu sobrenome e foi lançado em 1970. Paul disse que não costuma interpretar essa canção nos shows porque é difícil de encaixar sem mover os sucessos. Ele explicou que seu modo de pensar difere do de Bob Dylan, que não pensa duas vezes antes de ceifar um hit do repertório.
"Gosto de cantar essa faixa. Costumávamos tocá-la na passagem de som, antes dos shows. Em geral, ela não entra no setlist principal, porque temos muitas canções, e a verdade é que, se você inclui ‘Every Night’ na lista, vai ter que descartar alguma coisa. E costumo pensar: ‘Peraí um pouquinho, essa foi um sucesso no show anterior... ela deve ficar’. Sou o oposto de Bob Dylan. Se uma canção faz sucesso no show da véspera, Bob a corta no próximo. Esquisito. Mas tenho a consciência de ter sido um cliente, e gosto de ouvir ‘Rock Around the Clock’ no show de Bill Haley, obrigado. Gosto que Bob Dylan cante ‘Mr. Tambourine Man’, obrigado. E o admiro há décadas, claro, mas ele não é do tipo que aceita pedidos. Não vai fazer isso por mim. Mas esse é um apelo, Bob. Se você ler isto quando receber a versão brochura, toque uma canção para mim: toque ‘Mr. Tambourine Man’!", brincou.
No trecho mais adiante, Paul McCartney se recordou do espetáculo de isqueiros acesos que costumavam acompanhar a execução de "Every Night".
"Parece que ‘Every Night’ sempre me traz de volta a um tempo e espaço, a tal ponto que me dá vontade de encostar neles. Deixe-me explicar. Tenho um show específico em que ela se sobressaiu mesmo. Foi um show grátis que tocamos para 400 mil pessoas, num local chamado Zócalo, na Cidade do México. Nos dias de hoje, as plateias nos EUA e na Grã-Bretanha não têm isqueiros, o que eu acho bom. Eles não fumam tanto quanto costumavam fumar, pelo menos cigarros. Se querem nos enviar um sinal, usam seus celulares. Nos velhos tempos, isso costumava ser feito com isqueiros. E no México ainda é. Aqueles fãs sabem como se divertir. Lá estavam 400 mil pessoas no breu. Quando cantamos ‘Every Night’, notei que acenderam seus isqueiros. Cada vez que eu canto ‘Oo, oo, oo...’ e 400 mil pessoas acendem seus isqueiros, você consegue escutar isso. Não é só um lance visual, é um ritmo. E me lembro de ter parado, pensei que era algo tão legal. Estavam curtindo à beça. Então, eu cantava apenas ‘But tonight I just want to stay in / And be with you’, e uma pausa", concluiu.
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