Por que metaleiros "babacas" jogaram ovos - cozidos - em Ney Matogrosso no Rock in Rio
Por Bruce William
Postado em 29 de abril de 2025
No final da tarde de 11 de janeiro de 1985, Ney Matogrosso subiu ao palco do primeiro Rock in Rio disposto a impactar. Vestido apenas com uma tanga de oncinha e uma pena de gavião-real na cabeça, ele abriu o festival ao lado do grupo Placa Luminosa diante de uma plateia dominada por fãs de heavy metal que aguardavam shows de bandas como Whitesnake, Iron Maiden e Queen.
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A escolha do figurino e da música de abertura foi proposital. Ney queria deixar claro que a cultura sul-americana também tinha seu lugar ali, mesmo diante de um público que parecia mais interessado no peso do metal britânico. A frase inicial de "América do Sul", entoada com um osso na mão e os braços erguidos, dava o recado: "Ok, rapazes, vocês são legais, mas nós também existimos."
A logística do festival também não ajudou. O show começou ainda de dia, o que anulou os efeitos de luz que Ney costumava usar em suas apresentações. Além disso, o som de retorno no palco era fraco, e a diferença de tratamento técnico entre as bandas nacionais e internacionais ficou evidente. Enquanto grupos estrangeiros tinham estrutura de ponta, os artistas brasileiros enfrentavam dificuldades básicas.
Conforme o relato publicado no livro "Ney Matogrosso: A biografia" de Júlio Maria (Amazon), antes mesmo de Ney começar a cantar a primeira música, o clima já era tenso. Alguns fãs mais próximos ao palco passaram a atirar copos plásticos, ovos cozidos e sacos com restos de marmita no cantor. Ney, sem perder a pose, rebatia alguns dos objetos com chutes rápidos.
Em entrevistas posteriores, Ney minimizou a hostilidade, dizendo que apenas uma pequena parcela dos "metaleiros babacas" na linha de frente se incomodou. "Atrás, a coisa estava aberta. Só ali na frente que teve problema", contou ao G1 em 2017, relembrando com bom humor a confusão.
Ao ser perguntado por que ovos cozidos, Ney respondeu: "Porque eles levaram para comer. Era para ficar horas naquele lugar. Eu disse: 'Ah, vão à m*'. Nem pensei. Quando jogaram o primeiro eu chutei de volta. Jogaram mais outro eu joguei de volta. Eu cantando 'América do Sul' e os babacas lá. Mas eu sei porque: Eu estava só com uma tanguinha de pele de onça que os metaleiros estranharam. Mas só eles, porque os outros gostaram."
Apesar dos problemas, Ney seguiu em frente. Durante "Rosa de Hiroshima", uma tentativa de soltar pombas brancas para simbolizar a paz acabou em cena caótica: as aves, assustadas pela multidão, se refugiaram nos equipamentos de som. Mesmo assim, a delicadeza da música emocionou parte da plateia e ajudou a acalmar os ânimos.
O episódio reforçou ainda mais a postura de Ney em relação à liberdade artística. "Eu não vou voltar atrás. O que eu adquiri de liberdade me pertence. E não negocio a minha liberdade", afirmou. No mesmo Rock in Rio, artistas como Erasmo Carlos, Eduardo Dusek e Kid Abelha também enfrentaram vaias, mostrando que o festival, em sua primeira edição, ainda refletia um público dividido entre a abertura cultural e a resistência conservadora.
No fim daquela noite histórica, a coragem de Ney Matogrosso ficou registrada como um dos momentos mais emblemáticos do Rock in Rio, não pela aclamação, mas pela firmeza em ser quem ele era, sem concessões.
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